quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Nó na Garganta


- não trouxe suas palavras. onde estive com a cabeça, meu deus?! o guarda-roupa revirado, suas gavetas escancaradas transbordando cartas de ex-namoradas, fotos antigas – vencidas –, calhamaços de memória amarelada... pousada sobre tudo, a frase que te devo. fiado, não nego. e minha procrastinação é famosa! vêm os anjos, vêm os sonhos lembrarem-me a dívida que tenho contigo. comigo. inquietude que me toma como par! sou ímpar enquanto não deixá-la à par!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Hortência

Mais um desabrochar. E as pétalas se mantém em suas cores intensas e, presumo, com sua essência tão característica.

E, já sabes, sinto falta do campo de flores; desse jardim que é o mundo.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

domingo, 5 de dezembro de 2010

Vende-se

Se não fosse tão complicado ver um sorriso surgir em teus lábios...
Mas é impossível para mim olhar dentro de teus olhos. E como eu poderia sustentar essa minha cara simpática se a visse com olhos sérios? E o que há de sério para ver em ti?!
Pois venda-me, amor.
Que num mundo escuro é mais fácil enxergar tuas verdades. Que teus motivos brotam como flores do solo e te justificam incontestavelmente. Pois, afinal, que fato pode ser tão definitivo para não ser visto com outros olhos?

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Privado

E o sorriso se fez propriedade
e eu fui feito proprietário.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Insumo

Irrastreável, Incomunicável, Inumerado: às vezes sumo.
Impaciente, Impetuoso, Instável: mudo meu rumo.
Indescritível, Inefável, Indeterminado: me resumo.
E me auto-consumo.

domingo, 14 de novembro de 2010

Espetáculo de variedades

Agarrava-se à pilastra indo contra a correnteza. Eu, encostado na parede, recompondo-me, não conseguia desgrudar meus olhos dos dela. Parecia a gravidade a nos atrair, cupidos a nos empurrar, ou mesmo a própria discórdia: que ela estava acompanhada.
Olhos que se procuram mutuamente, bocas que se completam feito peças de quebra-cabeça perdidas na sala extensa, talvez imãs separados pelas mãos de uma criança e talvez esta fosse o destino.
Mantivemo-nos distantes. A troca de palavras foi inevitável: precisávamos testar-nos; precisávamos provarmo-nos. Mas talvez o gosto fosse insaciável, como foi.
E na manhã seguinte escrevo estes versos. Com uma vaga esperança das mãos do destino ter nos soltados por aí, rua afora. Quem sabe?

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Universum


Dispor-se à vida e deixar-se ser conduzido.
Que veleje em brisas e brisas e perca-se no horizonte.
E que possua limites, para que possa cruzá-los sem que se perceba
E só depois a exclamação despreocupada; o misto de surpresa e reticências:
-... ah!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Maré

E então, que fazem abertas estas aspas?
Muito já foi dito sobre solidão, mas estes escritos nunca foram concedidos aos teus olhos. Quiçá nunca serão verdadeiramente teus. Que os tem agora, mas não tens a mim.
E só o que tenho são estas mãos tremulas que rabiscam palavras ilegíveis e um sorriso amarelo camuflado em meio a um mar de gente.
Sobe, desce maré; passo despercebido, sem adjetivo algum.
E então, para que servem estas aspas que tens? Fecha-as agora!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Pulo


E nosso encontro deu-se em um pulo; um susto.
A vida acontece nas lacunas da rotina, os amores são fruto do inesperado.
Mas afinal, ainda dá para se prever o itinerário do destino e as voltas que a vida há de dar.
Quem sabe eu não sou só um nó?
Que faltou um “s” para sermos nós.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Esclarecimentos Posteriores


Descrente do futuro, como sou, esta não foi uma revelação ou qualquer espécie de aposta no destino. Este foi um desafio proposto aos demais jogadores; foi o anúncio da natureza humana – perversa e cruel – que se apresenta tão egoísta, mas que se mostra tão mais inconseqüente do que racional; é a dúvida sobre a minha compreensão – esse meu ciúmes de mim mesmo – que faz-me descartar a hipótese de ser decifrado por apenas um.

por Franco-

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Sonhante

Acho-me nessas despedidas rápidas de expectativas. Encontro-me exatamente nestes momentos em que o sonho se esvai e a realidade nos envolve. Tenho-me lá em minhas montanhas-russas; em meus “desumores”, desavenças, discussões com o destino.
Procuro-me no sonhar, encontro-me no momento.
E de tanto cálculo que fiz, no fim, só me restou o tempo perdido: espontâneo.
Que os planos, mirabolantes que sejam, caem à terra e as impressões se imprimem na temperatura do presente. Nunca me adiantaria ser frio: rendo-me ao espetáculo e derreto-me com a performance.
Sou mesmo... inconstante.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

À mostra

E se eu sou tão fechado assim, o que são, então, essas frases aqui dispostas, abertas para o mundo?

Ah, sim, agora eu me lembro: exposição de fatos.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Exílio


Seu coração precipitou-se ao passar pela porta. Já não era o bêbado alegre do bar. Depois de horas na companhia das intermináveis doses de tudo o que tinha direito, conseguira descontrair-se e ensaiar um sorriso para os passantes que o encaravam com uma mistura de piedade e desprezo. Não adiantava enganar-se, estava murcho: no lugar do sorriso sustentava um peso na face, e no lugar do copo, as mãos vazias, que ilustravam o que ele pensava da vida àquela altura –  e era um homem de meia-idade ainda. Apoiou-se no umbral e encarou o cômodo à sua frente com uma mão sobre o estômago. Talvez o álcool não tivesse caído bem ou talvez ele já estivesse sóbrio o suficiente para encarar sua realidade.
Havia alguns dias ele prorrogava o destino sabendo sê-lo inevitável. A angústia que havia se apoderado dele trazia consigo o silêncio perturbador. Já não era capaz de pronunciar palavras e sentia-se um vegetal. Tinha largado o emprego, as contas venceram e desfez-se do celular estridente arremessando-o contra o solo.
Empilhou a mobília da casa atrás da porta da frente tentando esquecer-se do mundo externo, mas era impossível. Pelas frestas as sombras dançavam durante todo o dia e sugeriam uma multidão que o desaprovava. Em seu mundo silencioso o barulho de pregos perfurando a madeira da entrada de sua casa o torturava. Sua porta estava preenchida com ameaças e apelos, como ele bem imaginava, assim como alguns dos vidros de suas janelas haviam sido quebrados, provocando-o um arrepio o som cortante do estilhaçar. Ele, sobretudo, tinha os nervos frágeis e tinha de se encolher para conseguir dormir. Quando conseguia.
O desespero vinha então lhe encerrar a noite precocemente e coroar-lhe com as olheiras que lhe envelheciam alguns anos e ilustravam seu estado de vigília involuntário. Desfeito de rigor e de horários, alguns poderiam tomar-lhe como o sonho realizado das férias instantâneas; de jogar tudo para o alto e viver conforme sua vontade, mas a verdade é que aquele homem estava passando por maus bocados.
Tédio é luxo. Quem sente tédio é, no mínimo, mimado. Quem sente tédio tem tempo livre de sobra para não fazer nada por muito até que sinta-se cansado disso. Quem sente tédio está maldisposto de estar bem-disposto! Ou melhor, está maldisposto por não conseguir conviver consigo, por que quem aproveita-se em sua companhia não se sente entediado. Nosso homem não tinha tempo livre para se sentir entediado, pois passava o dia em uma patrulha neurótica à qual ele denominava sobrevivência. Mas, decerto, ele nunca soube tolerar-se e toda aquela solidão agravava seus sintomas. E foi quando as suposições começaram a ganhar vida e ele imaginava um mundo no exterior de seu labirinto.
Pois talvez as fofocas já tenham tomado suas devidas proporções. E talvez os vizinhos já tenham se reunido extraordinariamente, quiçá o bairro. A própria polícia podia já estar a par da situação e pode ser que hajam homens a postos esperando um deslize seu para lhe tomarem a guarda de sua vida.
Ele visualizava as expressões faciais dos moradores do prédio ao passarem por sua porta. Previa as mentiras que estavam sendo ditas, os falsos testemunhos e a injustiça que estava sendo cometida diante dele e quanto mais assistia o rumo distópico que as coisas tomavam, mais impotente sentia-se.
Por isso decidira isolar a janela. Também por que os vidros estavam sendo quebrados cada vez com maior frequência. Reorganizara os móveis que seguravam a porta de entrada a fim de que tapassem qualquer fresta que pudesse revelar-lhe um vestígio de sombra. O pobre Minotauro cercava-se em seu labirinto, acuado nos limites que lhe restavam e indeciso sobre suas possibilidades. O desespero era tão mordaz que vez ou outra ele encarnava uma fúria cega, colocando-o a andar desnorteado pelos aposentos do apartamento em passos estrondosos e punhos cerrados à procura de respostas inexistentes.
Estes surtos duravam uma média de meia hora e durante estes momentos ele esquecia-se de todo o silêncio que conservava sagrado. Batia portas, esmurrava móveis e deteriorava o que restava de sua casa, até terminar em um choro convulsivo que começava por um gemido agudo e terminava, geralmente num sono aliviado, encharcado em meio às próprias lágrimas.
Contavam-se duas semanas desde o encolhimento. Cinco dias, então, desde o início das crises e estas eram cada vez mais comuns. Os poucos momentos de lucidez que lhe restavam ele os empregava tentando obter informações reais do que acontecia do lado de fora. Tinha consciência de suas alucinações e daquela síndrome de perseguição que vinha se instalando nele, mas ao mesmo tempo não sabia discernir o quanto daquilo era apenas fruto de sua mente, já que aquelas consequências lhe pareciam bastante plausíveis.
O som sereno da rua abaixo de suas janelas lhe deixava ainda mais confuso e as ventanas vedadas o impediam de ter alguma certeza sobre o que quer que fosse. De fato, ele conseguia imaginar que poderiam terem o tomado apenas como um excêntrico e toda aquela tragédia era um tanto cômica deste ponto de vista. E doía-lhe ver que suas fantasias acabavam por traduzirem-se num egocentrismo exacerbado e que sua solidão era capaz de ter gerado todo o tumulto. E talvez estes espasmos de lucidez fossem mais dolorosos do que as crises coléricas, mas por sorte, ou não, eram ligeiros.
Passou-se um tempo e sua última reflexão havia se provado benéfica, pois desde então estivera bem mais calmo e aliviado e pôde sentar-se em um canto da sala de estar em silêncio consigo até que o Sol se pusesse. Caía a noite e as luzes do apartamento, já cortadas pela companhia elétrica, sugeriam-no que fosse dormir. Era muito cedo para isso. Ele estava num estado de excitação fora do comum de forma que não conseguiria pregar os olhos, então reiniciou suas andanças sem rumo pela casa. Já havia se perdido em si há muito e agora buscava-se em qualquer canto, sob qualquer hipótese, algo que tivesse o poder remetê-lo à si, despertá-lo do torpor e pô-lo de volta ao que costumava ser. Buscava transpor o abismo que vivia, e nem consciente desta busca estava: apenas zanzava pela casa, fatigado. E eis que em suas andanças adentra ao banheiro e depara-se com o grande espelho que refletia os vestígios do que aquele homem fora um dia.
 A princípio assustou-se e exaltado, encarou-se com extrema aversão. Estático mas irritadiço. Então seus punhos se dissolveram em dedos e seus pés descalços puderam sentir o mármore frio acalmando-lhe os nervos. Seu corpo se descontraía e o silêncio reinava como era de costume: diante de nós mesmos sempre há perplexidade. Por fim constatou os destroços que era e uma tristeza lhe abateu. Aí soube que o que sentia era saudades de si, mesmo que de certa forma nunca tivesse se dedicado realmente a compreender-se.
Por saudades, soube-se humano. Nostálgico, soube-se sensível. Espelhado, soube-se enamorado. Mas não como Narciso, e sim como Sidarta! Não pelo espelho, mas pelas possibilidades que via florescer diante de si! Admirava o campo de oportunidades desabrochando-se epificanicamente e sentiu-se inspirado para tentar algo novo. Quem sabe um passeio pelo bairro, visitar lugares que lhe agradavam, ou mesmo visitar lugares que ele nunca havia visto. Não importava, queria se ver longe dali.
Tateou por um traje no guarda-roupa que agora também guardava a porta de entrada. Fez-se vaidoso, pensou até na possibilidade de tomar um banho e arriscou a água gelada, ainda que por poucos minutos. Revirou armários e gavetas e conseguiu perfumar-se e encontrar alguns trocados perdidos para investir em sua empreitada. Analisou-se mais uma vez no espelho e sorriu feliz, concluindo com um beijo na superfície fria. Estava radiante!
Nosso homem, que há pouco tempo atrás era bicho – do mato, ainda por cima – agora empurrava e relocava os móveis liberando a passagem para a rua. E na operação teve uma ideia: por que não visitar seu bar predileto onde ele costumava ir com bastante frequência? E de lá, quem sabe, visitar alguma velha amiga ou o que quer que fosse que homens normais faziam quando estavam bêbados. Era uma ótima ideia, ia seguir o plano. Era um “homem normal”.
Ao deixar seu covil abafado respirou aliviado. Tomou um fôlego e deu seu jeito de sair das imediações do edifício, pois não queria ser julgado, encarado, questionado ou ter qualquer tipo de contato com os moradores que o cercavam. Voltara a imaginar a inquisição e estes pensamentos lhe davam arrepios, portanto fez-se ligeiro e imperceptível e passou pela portaria sem deixar rastros.
Andou até a esquina e dobrou-a ainda com a mão no rosto, como se fosse um fugitivo não querendo ser reconhecido. De fato o era, mas assim que chegou à uma distância segura de seu cárcere se pôs a andar leve e tranquilo, assobiando enquanto rumava ao bar predileto. Era um final de tarde e ele imaginava que a ocasião era perfeita para comemorações, a julgar pelo seu estado de espírito. Já os vizinhos o julgavam insano, e os leitores, no mínimo, bipolar.
Chegou ao bar e fora logo notado. Virou assunto das conversas alheias e por isso sentou-se no balcão e não na mesa habitual. Apesar de tudo, não se sentia intimidado e foi logo pedindo uma, duas, três doses. Bebia e ia se divertindo só, observando a movimentação do local. Ninguém havia arriscado uma aproximação e as únicas palavras que trocara fora com o atendente que não quis lhe dar muito papo.
Bebia, e quanto mais bebia mais se deparava com a solidão. Havia trocado seu invejável bom humor por uma ordinária embriaguez, que até lhe garantia uma “alegriazinha”, mas era só gíria para explicar o quão bêbado estava. Descobrira que não encontraria alegria ali. Pensou-se no lugar errado, na hora errada. E nem admitira seu fracasso: apenas levantou-se, pagou a conta e retirou-se sob as gargalhadas de tantos e críticas de outros que nem lhe atingiram de tão absorto que estava.
Não teve ânimo para passeios longínquos. Apesar da hora e da rua mais vazia, ainda era uma celebridade mal falada e não queria ser perturbado, portanto tomou o caminho mais rápido para o que ele chamava vulgarmente de casa. Já não sabia se era aonde ele desejava estar, mas não tinha muitas opções.
O passo acelerado ilustrava o ritmo dos pensamentos deteriorantes que desfiguravam uma organização mental muito displicente. O homem se martirizava, assistindo com agrura seus fracassos de toda a vida passarem diante de si em imagens vívidas que produzia e projetava na tão sofrida volta para casa.
O pesar abatera-o e seu passo pesou. Com esforço, arrastou-se escadas acima até o andar que lhe era próprio, lutando contra as ilusões que o assombravam, obstáculos quase que intransponíveis. E quando chegou diante da porta deu um longo respiro e esperava recuperar o fôlego. O coração acelerado, irregular, anunciava a tragédia.
Inseriu a chave na fechadura e girou-a. Escancarou a porta rude e desastrosamente, num ímpeto que o denunciava. Pousou a mão sobre a barriga e encarou a sala uma última vez: sua visão escureceu de súbito. Morrera de desgosto.
E excessos.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Manifesto


Solúvel, no entanto íntegro: sou substância volátil.
Sou o universo em flor, a se abrir e abrir e abrir - sou o abismo sem fundo.
Veneno aos que se embriagam do comum e levitam, e se cercam, se têm seguros: sou a insegurança.
A peça de teatro que nunca se repete, a peça que nunca sai de cartaz. Sou o improviso e o sorriso da plateia, provocado.
Sou o manifesto: espontâneo da boca de um. Um, qualquer.
Mas se sou linhas, versos, tenho lá minhas partes ilegíveis. Se chego a ser melodia, se chego a tocar seus ouvidos, sou um sopro mais demorado...
Sou as reticências que seus olhos exclamam, o silêncio que permanece quando tudo mais se encerra.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Releituras

Ando revirando o passado; revirando os olhos.


Ando por aí, pelas ruas, a me desculpar com o vento que passou por mim e nem o cumprimentei.
Ando por aí, esses dias, dando bola demais aos vizinhos: acenando pra quem não me interessa, dando ouvidos em um excesso de simpatia... Ando com tempo demais.
E hora que me falta, relógio que nunca se dispôs a fazer reverências, hoje me espera atravessar a avenida com os ponteiros a me acompanhar gentilmente.
Dou esmola até. Não dinheiro que nunca tive, mas sorrio e digo um “boa tarde” que é pra ver se a sorte consegue acompanhar mesmo meu passo.


E não é bom-humor por que este eu só reconheço quando já não estou são, mas é que, nas páginas amarelas a nostalgia se faz tão viva que, definitivamente, alegria é o que eu não tenho – mais.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Néctar

As estações estão prestes a mudar. Antes eu pensava ser uma troca, sabe? Uma chegava e a outra consentia em se retirar e estava tudo certo. Do inverno íamos à primavera e tudo ficava florido: as crianças faziam em seus desenhos sóis sorridentes, as pessoas se empolgavam em aposentarem no fundo do armário seus casacos pesados e até as abelhas e borboletas se preparavam para voar de flor em flor em busca de seu néctar. Eu acabei descobrindo que não é bem assim.
O sol se impõe à força e atropela as estações. Parece-me até que o verão pretende pular a primavera, furar fila na cara-de-pau e irradiar o calor que lhe é tão característico. É como se o inverno tivesse sido encurralado ou andasse em uma ponte, dessas de navio pirata, com uma arma apontada para suas costas que o fizesse andar passo a passo em direção ao oceano.
O abismo abriga estas estações vencidas, todo este passado que vem à tona. E é muito estranho falar de passado... nesta carta atemporal.
Passado não temos. Talvez alguns resquícios de lembranças da fisionomia um do outro ou uma palavra trocada em uma ocasião inevitável, mas isso não significa nada. Que nem existimos! Atualmente – e eu digo no meu “agora”, por que no seu, ao ler esta carta, e se eu decidir enviar, já não será assim –, eu sou apenas um número na estatística que o jornalista apresentará mais tarde em rede nacional, ou sei lá, no canal em que você assiste. Eu sou, talvez, um rabo que fará um nó em seu pescoço ao passar apressada ou, quem sabe, um rosto que te lembre alguma amiga, ex-namorada, que seja! Eu não sou nada!
E eu não sou nada. Não sou louca por você, não quero sua amizade, não anseio nem sua atenção. Sou indiferente. Mas sei que, ao lhe escrever estou me contradizendo. Sei que, ao lhe enviar, estou exposta à principal lei da natureza: o equilíbrio. Se te escrevo, tu me lês. Qual o propósito deste tempo que emprego em linhas soltas e que, mais tarde, talvez, te amarrem a mim?
Ignoro. Caio então em um dilema: seria covardia escrever-lhe assim, tão espontaneamente? Despertar-lhe em um solavanco, não seria um choque? Mas resolvo-me! Pois mesmo que eu espere dias, semanas, meses, ainda assim lhe soaria, não sei... rápido demais?
Se eu te enviar esta carta eu imito as estações, entende? Eu me torno o próprio sol: impondo luz e energia. De forma mais ousada: torno-me seu centro, sua claridade e, no entanto, nunca “sua”. Aliás, vou além do sol: torno-me dona de seus pensamentos, assunto de seu diálogo interior, motivo de sua insanidade. Torno-me uma dúvida: “por quê?”.
Dizem que nada acontece por acaso. Bem, eu não acredito em sorte, mas, se ela existe, talvez nunca saibamos quando a temos em mãos. Imagino-o culpando-a por não a possuir: tem em mãos minha carta. Ou não, quem sabe você precisava mesmo de um rumo na sua vida; um alguém por quem procurar. Pensando bem, eu me sentiria sortuda por me ter em minha vida, mesmo como uma anônima.
Acaso ou não, vejamos: cara e a carta é tua, coroa e é da gaveta.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Fim de Festa

E o que nos resta? A fome.
Que só ela guia nossos corpos circundados por trapos imundos de volta aos nossos lares em passos cambaleantes acompanhados de desejos ainda não saciados. Desejos nunca saciados, insaciáveis.
E amanhã eu vou acordar com o gosto de álcool na boca meio arrependido por não me lembrar de todos os fatos, mas por enquanto, em minha semi-consciência, eu ainda quero mais.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Elucidação

O susto.
Três toques repentinos na porta de madeira.
E a campainha reforça:
A loucura me visita.

Trouxe-nos chá.
Muito agradável, por sinal.
E ao contrário do tempo que evapora diante do conforto, nossa tarde estende-se, iluminada pelo sol.

Gosto das sombras da sala de estar.
Elogio-as.
Estamos a sós.
Aí já são cinco, e meia, e seis, e já escureceu.

Não convidamos palavras, mas eu falo sozinho.
Não convidamos a noite, mas as estrelas nos espiam pelas frestas da persiana mal fechada.
Não convidamos a luz e permanecemos no escuro.
Não convidamos a garota: ela chora no andar de cima.
Ou no quarto ao lado, não sei bem...

Lembranças se exaltam em cada verso da música do rádio...
Mas neste momento já não há estações musicais e, bem, não há do que se lembrar.
Por que a loucura é íntima e temos um pacto:
Presente perpétuo.

Mas pobre de mim que numa distração qualquer pus-me a desenhá-la.
E sem saber como retratá-la, pus-me a escrevê-la.
E sem compreendê-la, acabei por erradica-la
Com tantos pontos e vírgulas e linhas pensadas...

Sobrou chá para mais de uma pessoa.
E a garota num outro cômodo, que não convidei por que não assumo compromissos quando estou de luto.


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Sonhos

Logo eu que vivo com a cabeça tão alta, nas nuvens, tenho estes pés tão firmes no chão.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Apoteose

ao som de Spacemen 3



Começa escuro.
Eu andava apreensivo, sem muita paciência para ver filmes inteiros. Andei deixando a cama pela madrugada e o sono pela metade; os cafés-da-manhã intactos e os da tarde mordiscados levemente; as piadas no silêncio, completo. Os pensamentos longe disso, num monólogo insistente. Andei abandonando ideias na lixeira do meu cubículo, dando voltas mais longas com meu cachorro como pretexto para a ausência, esquecendo-me de carregar o celular; esquecendo de carregá-lo comigo.
Um amigo havia indicado. Amigo? Estive a perambular pelas noites até eventualmente deparar-me com um alguém que parecia tão ou mais perdido do que eu. Acho que isto é motivo para considerá-lo um amigo, faz com que a gente se sinta melhor, ainda que o interesse fosse tão pouco.
Nesses casos, quando se foge de casa para tomar um ar, opta-se por respirar, não existe nenhuma semelhança entre você e qualquer coisa ao seu redor; não há ligações com o mundo exterior! Nesses casos a indiferença reina e ela não diz uma palavra sequer, pois ela serve ao silêncio. No entanto aquela praça era o local da cidade que eu mais gostava e eu não pretendia estragar uma noite por ali por conta de meu humor egoísta.
Com a boca seca eu assistia a fonte desligada. Se fosse dia, com certeza eu me lembraria das garotas com as quais já havia me sentado nos bancos que cercam chafariz, tempos alegres em um repouso distante. Mas no estado em que me encontrava aquele lugar não me remetia a nada, exceto a solidão dos monólogos confortantes e a insônia do precavido, que não dorme para não ter pesadelos.
Eu pensava em alguma loja de conveniência que pudesse me oferecer um trago. Um conhaque é sempre sinônimo de alívio, mas me parecia impossível conseguir qualquer coisa naquela madrugada; a vida parecia limitada àquela praça! Buscava então um número de telefone qualquer, algum que tivesse escapado da agenda de contatos e penetrado em minha memória, sobrevivido à modernidade cômoda que nos diminui, mas nada. Estava eu ali: só e diminuto.
De passos medidos e respiração contida, vagueando pela noite fria, cheio de tudo, mas de cabeça vazia. E por isso eu aproveitava para capturar todos os detalhes, buscando longe as luzes da cidade e projetando curtas-metragens na paisagem urbana. Misturava ficção com aquela noite que também não me parecia nada real, a não ser pelo orvalho que justificava tudo: o sereno afogava-me em memórias, e de olhos cerrados eu tinha à voz de minha mãe os dizeres a respeito da madrugada.
A desobediência na infância é curiosidade, no amadurecimento é persistência e na velhice é cisma. No meu caso específico é um atrator estranho e quando se tem um universo privado de uma única noite é difícil definir os acontecimentos como acausais.
Eis que se aproxima um alguém em busca de fogo e o diálogo desenvolveu-se mais ou menos assim:
“Desculpe-me a interrupção. Eu sei o quanto é indelicado proferir palavras a um desconhecido em meio a uma madrugada dessas... mas você teria fogo?”
“Nunca se é inconveniente quando usa-se de simpatia! Mas não, eu não fumo...”
“Eu também não, mas o calor me acalma. As coisas andam bem estranhas ultimamente...”
Assenti num gesto simples. Estava aliviado de não ser o único a perceber as coisas daquela forma, mas o fato de deparar-me com pensamentos parecidos aos meus no auge de minha solidão era algo ainda mais inusitado.
“Que lhe aflige? Algo lhe passou?”
“Meu relógio de bolso. Ele parou.”
“O tempo degrada mesmo aquilo que o marca. Aliás, principalmente.”
“O problema é esse: o tempo, parado. Percebe?”
Calei-me. A ênfase que ele dera e a forma como ele pontuara sua fala me deixara sem reações, então rendi-me ao silêncio numa postura contemplativa. Ele continuou e eu o acompanhava, ainda confuso:
““Deus me abandonou no meio de uma orgia entre uma baiana e uma egípcia. Estou perdido. Sem olhos, sem boca, sem dimensões.””.[1]
“Deus?”
“Não, Carlos Drummond.”
“Ah, sim. Que carnaval!”
“Sim, “Um Homem e seu Carnaval”[2] – ou parte dele.”
Agora eu podia perceber o quão velho o homem era. O tempo já carimbara sua face, seu rosto, suas manias, versos, objetos... Justificava muita coisa e fazia com que eu o reconsiderasse: ele me soava um tanto desobediente, mas de cisma ali não havia nada. Pertencia também à outra categoria, estava além de conceitos pré-definidos.
O fim da noite interrompeu meus pensamentos, não pude deixar de comentar:
“O dia clareia sobre nós. Tão cinza...”
“Mas que me diz de alongarmos um pouco mais a noite?”
“Soa bem. Para onde vamos?”
“Para lugar nenhum. A noite se vai, nós permanecemos.”
Já não havia aurora. Cessara o alvorecer e o céu ostentava novamente uma lua torta e nuvens opacas que a encobriam e ofuscavam. Temeroso e imponente, desafiava-nos o olhar. E começava a chuviscar.
Chuviscava em minha televisão.



[1] Trecho do poema “Um homem e seu Carnaval” de Carlos Drummond de Andrade. (N. do A.)
[2] Referência ao poema citado acima. (N. do A.)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Oração à lua


Oração à lua

Ó lua, dar-te-ei fermento para que cresças rapidamente. Que pule de fases, torne-te plena, cheia, como estas pupilas que ocupam todos meus olhos. Que teu despertar cega-me, ofusca esta visão embriagada, faz-me ansioso, homem de cinco sentidos, incompleto.
Lua, dar-te-ei fermento pela luz. Que de perdido vou a crente na imagem de São Jorge. Que sinto-me capaz quando reconheço o dragão ajoelhado.
Dar-te-ei fermento, lua, para estar iluminado, para ser gênio. Distancia-me, pois, de confrarias, mais ávidas do que herméticas. Faz-me, portanto, detentor do conhecimento, confidencia-me segredos, ergue-me diante aos demais, “homens de bem”.
Fermento, pelo instinto. Que me põe frente a frente à minha sombra como nem o espelho. Coloca-me diante do lobo, que tanto temo.
E no entanto, lua, lobo sou eu. Sou eu quem uivo noite afora. Por ti.

sábado, 10 de julho de 2010

De verão

Tinha uma flor nos cabelos e as roupas imundas.
Era verão e isto justificava tudo: o vestido leve, a alegria presente no cotidiano, as brincadeiras e a correria das crianças.
As nuvens se apresentavam como zoológico e a grama como berço para a imaginação: que se deitava ali e passava as tardes a observar o céu e sentir a brisa apalpar-lhe o corpo. E se perdia em pensamentos que quase se esquecia de olhar de hora em hora os meninos: serenos em seu mundo à parte.
O pé às vezes molhado pelas fontes que espirravam água repentinamente ou pelo bebedouro que era quase como uma atração turística. As mãos sujas, assim como as roupas, tudo bem, isso já era rotina. Mas a flor não combinava.
Não adiantava, a flor era muito radical! Os cabelos que a sustentava eram rebeldes, se lançavam ao vento junto ao vestido. E os olhos se fechavam numa expressão quase sublime, mas a flor permanecia intacta.
Talvez fosse medo. É, medo de ser só mais um amor de verão, medo da chegada do outono. E se a flor caísse murcha? Então a ostentava ali, quase despretensiosa, como uma coroa.

E se dissessem que foi ela quem catou, tudo bem, era mesmo menininha para esse tipo de coisa. Mas seu olhar não resistia a acompanhá-lo quando ele atravessava a praça e vinha, mais uma vez, em sua direção.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Reflexões Tardias

Tenho me tornado cada vez mais livre e, no entanto, menos libertário.
Eu quero voltar atrás.
Só consigo perceber agora que o câncer que tanto te aflige, este que te faz tão mal, não é contagioso, mas, pelo contrário, sempre esteve presente em mim.
Só consigo perceber agora que tua presença era o alívio e que agora ele cresce solto, em ritmo acelerado, e eu tenho me transformado mais em você do que você própria.
Eu, que antes renegava analistas por me gabar da auto-compreensão, agora os suplico em cada cidadão comum que me cerca com algum tempo disponível. Sorvo seus poucos segundos e me embriago de palavras vazias buscando apenas a mim mesmo.
A medida de que me liberto de pudores, regras e pensamentos limitantes me vejo cada vez mais abandonando a ética e um senso social o qual eu acreditava possuir. Vejo-me um híbrido a optar por sua ruína: a escolher o selvagem, o lobo!, e deixá-lo solto na floresta; a ignorar a consistência dessas árvores cinzas cimentadas.
Perco-me cada vez mais e me desespero por sabê-lo e por tentar compreender-me sem sucesso: ou o racional me abandonou, agora por completo, ou se supera e prega-me uma peça; uma dessas inimagináveis.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Dois minutos de conversa

uns dois minutos de conversa viriam a calhar.
claro que para uma conversa de esquina está muito bom: um assunto rápido, comum, público.
mas se as palavras se emendam e vão puxando outros temas, tantos que nem cabem no imaginário por serem espontâneos demais, daí eu sugeriria uma cafeteria onde as almas se acalmam.
penso se tratarem de alívios e simplesmente isso. Que garçons são charmosos a carregarem uma xícaras de café e as cadeiras são poltronas em um fim de tarde. E, ah! qualquer papo-furado é poesia por aquelas bandas.
E nos chamam de poetas quando escolhemos nossa mesa...

domingo, 27 de junho de 2010

De mãos vazias

Recebeu-me em seu quarto vazio no meio da noite. Vivi de visitas inesperadas ao longo desses últimos meses. E ainda que, agora, de volta ao lar – devo acrescentar, por tempo indefinido – minha cama me estranha e se murcha ao receber meu corpo encolhido na madrugada gelada.
Sussurrou-me algumas palavras confortantes entrecortadas pela boca apoiada nos joelhos. Sentava-se no encontro das paredes, ao lado do espelho, mas o evitava com certo repulso. A cabeça baixa já não era novidade e as histórias que um dia se fizeram de sonífero agora, todas esquecidas. Resolveu se desfazer delas por completo. E ali estavam, nas páginas amareladas, rasgadas no chão do quarto.
Quase nem fico. Que o passado bate forte e se perco o controle sou eu o dominado. Mas o tenho, meu anfitrião, de volta à origem, rendido, como um garotinho em plena prenda no canto da sala de aula. Que devaneios o devoram e o tempo o humilha, por castigo ou simples prazer.
Apesar de aflito, mantenho-me calado: sei que o Deus do Tempo é imune a desesperos prolixos e que sou só mais um tolo embriagado posto na fralda da noite. Mas sou todo perguntas em meu recordar: desde a ligação surpreendida pela insônia de meu companheiro ao meu auto-convite. Quem me respondera diante ao telefone?
E quem era mais próximo de mim? Aquela criança resmungona e teimosa ou o indivíduo que possuía meu respeito? E, afinal, não eram os mesmos, idênticos, embalados no mesmo corpo magrelo e de baixa estatura?
O espelho, ignorado, gritava as respostas e me expulsava: que com a consciência há de se lidar sozinho e minha presença era, além de ineficaz, constrangedora.
Que o silêncio permaneça. Peço licença apenas com o ranger da maçaneta e meus passos tortos, cambaleantes quase como os pensamentos, nos tacos de madeira.
Deixo-o em paz e volto-me para a rua imaginando a reação de meu amigo no dia seguinte. Estive lá, mas ele: recordar-se-á de quem?

E fico a pensar...

Sobre minha vida boemia que me fez esquizofrênico.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

João

Tens em teu cabelo encaracolado o cheiro da embriaguez e faz parecê-la amável a quem escuta as palavras que ecoam de seus lábios.
Tens em tua voz o timbre da segurança e atormenta tuas amantes quando anuncia suas descobertas – que sabem não ser tão dono assim de si.
Tens em teu olhar o brilho de um menino que tudo pode. E só eu mesmo para saber o quanto podes. Que és livre e belo, mais que qualquer outro, para poder se lançar ao mundo sem pés atrás ou planos B.
Tens em teus passos o mundo a desmoronar; e tudo depende do seu humor. Que às vezes é você quem causa o estrago, e se orgulha e sorri com a sinceridade que nunca presenciei em ninguém mais. Mas às vezes, quando dias cinzas, encara o abismo e se lança na fuga. E compensa em horas intermináveis passadas na sua, nossa, realidade paralela.
Aos olhos de uns a inexistência. A outros, mais sensíveis, a insanidade.

Que amar assim nunca foi compreensível a ninguém. No entanto, dentro de uma casa, pintamos as paredes de verde e espreitamos a normalidade janela afora. É o mundo a correr diante de nós.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Devaneios Tempranos

Quando saio de casa levo comigo apenas o dinheiro do ônibus de volta.
Sei bem sobre retornos: fatigantes.
Há o alívio, claro, de se ter para si só, de volta à sua origem, sem competições com as vozes circundantes ou preocupações com as frivolidades alheias, porém o desânimo.
Que não fui feito para isso não!
De saber aonde é o ponto final, sem surpresas e que se tudo correr bem, se ao meu lado estiver o que chamam de sorte, toda, toda do mundo, será, então, apenas mais um regresso incólume.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Rodeios


O aborto da voz,
O nó na garganta,
A queda da caneta,
O risco, a rasura.
A adoção de reticências...

Aos impetuosos o rasgar do papel, calar-se de súbito.
Aos tímidos o enrubescer;
Aos colecionadores mais uma peça, causo!

Quantas cartas já não chegaram aos seus destinatários?
Releio as palavras, agrupo meus deslizes, passo tudo a limpo.
Preocupo-me com a legibilidade: perco minutos analisando-a com olhares de estrangeiro...

“Já posso trancá-la na gaveta.”

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Habitual


Eu sou suas unhas ruídas e o arrependimento ao olhar o esmalte colorido.
Sou toda a ansiedade pelo dia de amanhã, a indecisão da roupa e o relógio implacável.
Sou essas pupilas cheias, transbordantes, que querem se derramar sobre ponteiros para que se deitem mais rápido.
Sou a última, penúltima, antepenúltima... Sou as páginas do seu caderno rabiscado na madrugada.
Sou bocejo e a incapacidade de dormir. Sou insônia e serei olheiras.
Sou eu quem atende o telefone às quatro, quatro e meia da manhã...
Do outro lado da linha só há o respirar. O velho timbre do desespero.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Da sala ao lado


Estive tão distraído que nem vi quando ela sentou-se ao meu lado. Puxou um fone da minha orelha e colocou em seu ouvido, sem a menor cerimônia. E acrescentou ao seu ato:
“Eu sempre quis saber o que você escuta, sempre quis ouvir sua voz.”
Não tive uma palavra para saciá-la, então continuou:
“Você... acredita em destino?”
“Não.”
“Por quê?”
“Seria muita pretensão acreditar em destino depois de ter forjado tantos acasos.”
“E sonhos?”
“Se eu acredito em sonhos? Sim. Que eles se realizam, talvez. Mas logo eu, tão cético, estou tendo meus conceitos desconstruídos neste exato momento...”
Foi quando ela me beliscou e sussurrou em minha orelha nua:
“Eu sou real.”
E depois de dito isso ela olhou para frente, parecendo prestar atenção na palestra que ocorria em uma dimensão completamente distinta da nossa. Eu estava tão distante do mundo que tive de ser censurado por um olhar que ela me lançou para que eu voltasse ao auditório. Uma multidão de alunos tentava assistir a palestra, mas eu já não tinha o menor interesse pelo que o palestrante tinha a dizer. Ao invés disso eu só queria escutar suas palavras. Foi quando eu arrisquei uma pergunta em voz velada:
 “Quando foi que te vi pela primeira vez?”
“No corredor.”
“Provavelmente, é onde tudo acontece.”
“Um mundo de semi-conhecidos em convergências de intimidades.”
“E cada vez somos mais impessoais.”
“Mas por falar naquele dia, eu achei que nossos olhos nunca se desgrudariam.”
“Eu hesitei para falar com você. E achei que te veria nos dias seguintes.”
“Eu te procurei! Não sabia sua sala, seu curso e nem os lugares que você frequentava. É claro que depois de um tempo a gente vai descobrindo tudo, mas havia a ansiedade e tudo soa tão demorado...”
“Eu já sabia tudo sobre você, mas a verdade é que eu tive receio de te ver de novo. Pela primeira vez eu não soube como agir, estive tímido.”
“E a sua solução foi tentar me evitar? Muito bom saber como você lida com conflitos!”
“Nunca foi uma solução.”
“Eu culpei fins de semana e feriados. Quis modificar o calendário, adiar recessos e excluir dias vermelhos, tudo para que minhas chances de te ver aumentassem.”
“Irônico era desviar de minha rota habitual só para te ver passar e não ser notado.”
“Um esforço descomunal para fingir não te ver! E confesso que por vezes valia a pena, mas eu sempre me arrependia depois.E de consciência pesada, passava o dia fantansiando o amanhã.”
“Pensando em como você estaria vestida, no seu humor...”
“Apostava comigo mesma as suas músicas, mesmo não tendo nenhuma dica. E me quedava curiosa, quieta com meus pensamentos, estranha às minhas amigas.”
Sabe, é difícil conciliar a minha euforia com o silêncio que o auditório demanda. Ter um mundo para te falar e um nó na garganta.”
“De fato, estamos atrasados para sair daqui.
“Eu adoraria.”
“Mas antes você tem que me responder novamente...”
“O que?”
“Você acredita em destino?”

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Borrão

Foge do mundo.
Mas volta arrependido, cabisbaixo e sem palavras de consolo.
-Mas não trouxe nenhuma?! Não vistes tanta coisa?!
E segue com as bochechas rosadas e com a voz lhe escapando. Segue por seguir porque não sabe aonde ir.
Memória fraca. Talvez tudo gravado, mas, sendo assim, então, era péssimo em transpor!
E transpirava cenas de filmes envelhecidos. Filmes mudos, música clássica!
Ah! E suava a realidade para fora de si e fazia a multidão confundi-lo com uma ilusão.
Provocava o público só de subir no palco! – trabalhava, para deleito geral, nas vinte quatro horas que tinha o dia e nos sete dias que tinha a semana.
Afinal, era só uma atração. Uma atração à parte, mas não deixava de compor o espetáculo.
E vivia a questionar a ironia de lágrimas escorrerem pela face de um palhaço.
Devia parar: estava borrando a maquiagem.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Liberdade Condicional

Acordou ainda exausto, de boca seca, dor de cabeça e sem saber o que pensar. Cheirou a camisa, desabotoou-a e livrou-se dela. Depois dos sapatos, que já o incomodavam. Ele sempre ficava intrigado quando dormia completamente desconfortável como daquela forma, pois normalmente o sono lhe faltava e era um suplício fechar os olhos.
Apenas de cueca, manuseou suas roupas procurando vestígios de batom, bebida ou os furos de cigarro dos seus amigos, mas nem cheiro tinha. A noite anterior era-lhe vaga e os sinais do dia seguinte que costumavam dar-lhe pistas de por onde andara hoje estavam tão escassos que ele se pôs a meditar no que poderia ter acontecido.
Sua primeira reação racional foi checar seu bloco de notas, e num ímpeto buscou-o no bolso traseiro esquerdo de sua calça. Era o lugar mais seguro que poderia ter encontrado para guardar aquelas folhas que valiam ouro e o alívio transpassou em seu rosto quando tateou-as em seu lugar habitual. O mundo já podia cair lá fora, pois tudo estava em ordem. Até então.
Ele nunca estivera à venda. Talvez este fosse o principal motivo por ser tão mal visto na vizinha e por ter adquirido diversos rivais em tão pouco tempo. Nunca fora um novato nem imigrante, mas sempre vivera à margem dos ciclos sociais tradicionais e tinha acesso à informações almejadas por "gente de bem". Logo, isso se tornou um problema.
Levantou-se de seu colchão e deu alguns passos até o banheiro. Seu lar consistia em um aposento apenas e o lavabo anexado, portanto o banheiro era seu cômodo ritualístico e era ali aonde costumava virar as noites pensando quando tinha preocupações a serem resolvidas. A lista de telefones ainda estava sobre a pia e deu-lhe uma leve ideia do que fizera na noite anterior.
Talvez tivesse saído atrás daquele nome, talvez apenas encarara-o incerto do que sentia por aquela entidade. Dentro da lista, um papel cheio de rabiscos aleatórios que apenas indicavam surtos de alucinação e não davam qualquer prova mais concreta.
Ele se cercava de atos subliminares a fim de mascarar o que sabia, até que pudesse agir e ele mesmo se perdia nessa confusão, mas estava acostumado a viver em meio ao caos. Sempre que estava próximo à concluir alguma linha de raciocínio ele se deparava com a elucidação dos mistérios, como se sua mente revisasse cada amnesia e noite perdida e lhe desse uma síntese de suas aventuras inconscientes. Não era o método mais eficaz, mas era o menos dogmático que ele conhecia e por ser tão cifrado agradava-o, já que, em sua paranoia, vivia sob os olhos do Grande Irmão. Sua liberdade, ainda que nunca tivesse sido preso, sempre fora condicional.
Olhou ao redor: seu coturno ao lado do colchão, o suspensório largado no caminho, suas gazes por todo aposento e diversos tipos de garrafas de bebidas, algumas pela metade e outras vazias e tombadas. Apesar da bagunça, seu quarto estava relativamente limpo e abrigava apenas o essencial para que ele pudesse viver ali. A verdade é que não costumava passar muito tempo em casa, mas depois daquele corte que arranjara na altura dos olhos ele passara a se trancar até que o período crítico de cicatrização passasse. Talvez este era outro indício da noite anterior: não havia saído, tinha permanecido em casa na companhia das garrafas.
Sentou-se sobre o vaso sanitário e pôs-se a folhear a lista de endereços, interessado nos nomes circulados e anotações de rodapé. Talvez ele tivesse algumas chaves anotadas em seu caderno de folhas de ouro; talvez não estivesse tão perdido como pensava estar.
Levantou-se do vaso e mirou-se de passagem no espelho: sua cabeça não apresentava um fio de cabelo sequer e sua barba aguentava esperar mais um dia para ser feita. O corte em seu rosto é que não estava em ordem. A marca lhe dava arrepios e ainda doía só de ser olhada, portanto desviou os olhos.
Buscou o caderno no bolso da calça e folheou-o com interesse. Releu suas últimas anotações e de repente deu-se conta de que algo estava muito errado. Ele realmente não saíra e estivera dentro de casa a noite toda, e toda aquela sensação de não se encontrar ao acordar ainda o incomodava, mas era algo além disso: alguma coisa não lhe cheirava bem. Ele pensava ter pulado algum passo, esquecido de checar algum fato e estreitou os olhos procurando qualquer detalhe fora dos conformes em suas próprias coisas, mas não avistou nada de estranho. Quando voltava para o banheiro, entretanto, percebeu uma sombra no vão da porta de entrada do apartamento, do lado de fora de seu quarto.
Talvez, afinal, ele não tivesse saído de casa por que não tinha necessidade de fazê-lo. E se tudo estivesse próximo demais dele?
Foi até a janela grande do apartamento, uma das únicas vantagens e motivo principal de ele gostar do lugar aonde morava. Espreitou o movimento exterior e tudo andava em seu ritmo normal. Seu coração é que estava descompassado e ele precisava tomar alguma atitude.
Vestiu o jeans surrado com toda naturalidade do mundo. Manteve a calma e dobrou a barra da calça e colocou o coturno. Amarrou forte os cadarços vermelhos, abotoou a camisa e levantou seus suspensórios. Foi até o banheiro em passos contidos para não fazer muito barulho e tomou um largo copo d'água. Antes de abrir a porta, voltou-se até o travesseiro e buscou sob ele seu anjo da guarda: tinha em mãos um enorme e reluzente soco inglês, objeto de sorte e "fiel", como ele denominava. Armas de fogo não eram de fácil acesso e ele não era a favor desse tipo de intervenção, portanto usava-se do que ele achava mais justo.
Vestiu a socadeira com um contraditório sorriso sádico e mirou a sombra à sua espera. Dirigiu-se até a porta e girou as chaves devagar: nenhum movimento. Abriu a porta num estrondo preparando-se para se defender quando deparou-se apenas com um livro grosso depositado sobre o tapete de boas vindas. Riu-se da situação e leu o bilhete num garrancho áspero: "quem procura, acha."
Pegou o livro, abrindo-o na primeira página e lendo-o enquanto entrava de volta para seu lar: "Os mistérios solucionam-se sozinhos, mas é sempre preciso um nome para se creditar. Às vezes um homem tem de fazer seu trabalho para sobreviver, e às vezes esse homem é o único obstáculo no trabalho de outros homens. Isso acontece sempre quando algumas pessoas têm fontes de informações que outras não têm e são mesquinhos demais para compartilhar o que possuem. No caso..."
Nem viu a sombra que se aproximou às suas costas. Teria de adiar a leitura, de repente tudo fica escuro.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Imperfeito

chamo à este "clássico" por eufemismo.
mas eis a versão mais condizente:
“Que queres?”
“Que me tomes por completa!”
“Já não és mais nada! Já não mais existes! Podes me entender?”
“Não, não posso! Que te fiz?”
“Não fez! Nunca existiu!”
“E que faço em tua fronte?!”
“Perturbas-me! Somente isto! Pare de me atormentar, me seguir pelos cantos, que já não consigo mais vê-la em cada esquina!”
“E me vês tanto assim?! Que nem mais consigo sair de casa se não em tua presença! Que minhas expectativas são encontrar-te aonde quer que eu vá! Que a Lua vem me escutando dia e noite!”
“Contas tudo a todos! A cidade chora pelos teus arrependimentos! E, com tanta maquiagem, faz até parecê-los sinceros! Lua! Que Lua?! Que esta já não me visita há muito!”
“E a noite deixou de aparecer por aqui?”
“Desde você.”
“Desde mim? Para que complicas tanto assim?”
“Por que eu sou assim: complexo – por natureza.”
“A complexidade pertence ao ser humano! E há de se gostar de si próprio do modo como és! Do modo como eu te gosto, amo!”
“Amas? A tantos! Que te culpas a vida pela crueldade da dúvida, da escolha!”
“De estar confusa!”
“Sempre! E consigo própria!”
“E tuas outras mulheres?!”
“Que têm?”
“Quantas já não adoeceram de tanto pensar em ti?! Quantas já não passaram cabisbaixas por mim e eu não soube que aquilo era você?! Que o caos é teu sobrenome e te orgulhas disso!”
“Que o caos é meu sobrenome e me afeta também! Que me distancio do mundo para não afetá-lo com minhas lamúrias, para não levar problemas a quem me tem ao lado! E é por isso que nem te enxergo mais!”
“Tens, então, piedade de mim?! Juras que não me queres para me poupar?! Que me evitas para me ter sorrindo?!”
“JURO!”
“E sabes que não sorrio mais por ti?! Que tanto te esperei! De boca fechada; e olhos também! Para poder imaginá-lo ao meu lado nos instantes em que eu sabia que nem te lembravas de mim!”
“Sempre te tive comigo!”
“E agora não tem mais!”
“Que sua espera terminou! E, então, a escolha lhe coube!”
“Te orgulhas, Clementine?! Clementine Kruczynski! A apagar o que lhe convém! A assassinar as marcas ao seu redor por ser mimada demais! Que não sabes se domar, que se droga de tecnologias, ou mesmo do álcool, bem sei, para realizar o que, por si só, és incapaz!”
“E ainda assim falhar.”
“Porque me pertences! Porque não deves desperdiçar o amor! Porque sabes que teu orgulho contradiz teu coração!”
“Despedaçado.”
“Não mais.”
“Como?”
“Nada.”
“Nada?”
“Esqueças... Esqueças! Esqueças, entendeu? Esqueças o mundo! Esqueças o pudor, esqueças o amanhã! Esqueças teu orgulho, teu choro, não, nada disso existiu! Esqueças da hora e de qualquer compromisso se não este que tens comigo! Esqueças de tudo e só te lembres de meu rosto e de meu corpo. Esqueças que tanto me perguntou e esqueças de te preocupares com a forma como isto acaba!” Esqueças que leu estas linhas e esqueças de tudo o que tu tens a comentar! Esqueçam das vírgulas que pontuam sua mente e do blog em que viu todas essas frases entre aspas! Esqueçam meu nome, minha assinatura, a foto! Esqueçam da data, até mesmo da hora, do que está escrito embaixo...

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Loucura

Falávamos de sonhos na noite escura.
Falávamos de sonhos sem ter sonhado noite passada.
Falávamos, despertos, de sonhos que sonhávamos ter.
Falávamos nós dois, mas sozinhos em cada um.

Falávamos de garotas, falávamos de nós mesmos.
E do contentar-se com a companhia – de si próprio.
E da insônia que se arrastava mais uma noite.
E só não falávamos de tempo por que já havíamos o apostado.

Falávamos de guerra, da loucura que vinha vindo, do vinho que se esgotou.
Tudo para não pensar no tédio que nos assombrava.
Dois garotos trancados no escuro.
E de repente são três batidas na porta de madeira.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Vênus

Não pude me conter. Ao seu lado eu era inquieto e meus pensamentos se enrolavam.
De olhos nus, a me observar com certo apreço e contendo suas palavras com vírgulas cuidadosas e leve sonoridade. Falava perto de meu ouvido, quase como uma confissão, sem se importar com a multidão ao redor.
E, de tão próximos, eventualmente nossos corpos se encontravam e o contraste de sua delicadeza a meu lado ressaltava-se.
Seus lábios tremiam. Os meus, provavelmente, também.
Alguém me dissera ser a manifestação do desejo. Talvez fosse, eu não tinha por que duvidar. As minhas dúvidas eram de curiosidade, de ansiedade em conhecê-la, de decifrar os detalhes de seu corpo que gritavam, que se manifestavam em resposta às minhas caras.
Seu sorriso discreto era indescritível; Calava-me as questões do viver por uma fração de segundo, saciava todas as necessidades que eu poderia ter, exceto a de poder chamá-la de minha.
Mas, em meio à multidão, seu sorriso se desfez e ela recolocou seus óculos. Encarou-me por algum tempo e me deixou, com seu nome ecoando em minha mente durante toda uma noite pela frente.

terça-feira, 16 de março de 2010

HALLOWEEN

Estive exausto. E então me pego sozinho em casa, numa noite nublada em que as estrelas se escondem e a lua foge dos olhos de algum amante-vagante. Vim pelas ruas, desacompanhado da claridade prateada, e a pensar no que tinha feito. A princípio o tempo passou devagar: as sirenes eram para mim e os vultos me perseguiam. Mas então resolvi me sentar no meio fio de uma avenida qualquer e assistir os carros e o tempo passarem enquanto esperava pelo peso da consciência. Enquanto esperava pela atuação policial, a justiça, o destino.
Mas a paciência me faltou. E a viatura, confusa, rodava noite a fora, mas bem longe do local. Atrapalhados, homens da lei, em busca de saciar um desejo sádico que os motiva a profissão. Confesso que até me mantive sóbrio e intacto como uma prova deve estar:
As mãos sujas do sangue já seco o qual eu não tinha coragem de limpar – Na verdade a coragem que faltava era o fascínio pela obra de arte que eu havia criado ao acaso. – E me apreciava de cima a baixo. Esticava meu corpo para poder ver cada detalhe de meus músculos e as marcas que ela havia me deixado. Procurava-me em deus, meio que o julgando por não me possuir em sua caracterização; meio que o rebaixando por não me ter como associação primária e única.
Quis, assim que cheguei, um copo de uísque. Servido com bastante gelo e acompanhado da música clássica. Então pude me recostar na poltrona sob a meia luz da sala. Estive comigo mesmo durante toda aquela madrugada a reviver os detalhes lividamente: Excitado com os gritos, suas faces, e a me perguntar se ela sabia quão convincentes foram suas expressões durante o espetáculo. Aplaudi, inevitavelmente, de pé. E a dúvida persiste no fato de não saber se ela chegou a me ver, mas a certeza de tê-la feita sorrir para as fotos Polaroid me acalmou. - Insisti em capturar o momento, pois quando se planeja uma noite, espera-se a perfeição. Mesmo que alguns imprevistos venham a ocorrer, uma bela noite nunca deve deixar de ser bela!
As rosas, românticas, fizeram minha apresentação usual. Aceitou-as surpresa e as quis logo colocar num vaso de água, mas eu a impedi dizendo que tinha outras idéias para elas. Em sussurros entrecortados ao pé de seu ouvido fui logo sendo dispensado e abandonado na sala de estar enquanto ela se retirou para o quarto por alguns minutos.
A volta, marcada pela sensualidade em suas vestes e o suspense do caminho até o aposento, me levou direto ao perfume desesperado das quatro paredes; de um agradar necessário e da vontade de ser lembrada e celebrada como mulher ideal. Espalhadas ao redor da cama, as rosas tiveram suas sombras ampliadas pelas velas distribuídas pelo chão.Velas ansiosas, aguardando a presença do amante. E as paredes! Ah! No fim, tão vermelhas quanto as pétalas, deram um tom impecável para a fotografia da noite.
Quis ter seu corpo ali para sempre. Não cabiam outras linhas naquela história, não havia um porquê para o futuro, não havia mais vida para a sua personagem. Era rua sem saída, querida. Sempre foi, desde o momento em que abriu a porta. Apartamento de quinta, decorado com a luxúria de quem se preza. Seus olhos pintados, e as suas rugas maquiadas, e o seu sorriso retocado com a cor excessiva.
E teus lábios vermelhos nunca foram como aqueles que me tocaram num halloween passado. Bastou-me as fotos para comprovar.

terça-feira, 9 de março de 2010

Valsa

Feita de areia. Com movimentos leves, poéticos, que, em sua altura, em seu equilíbrio nos braços de outros, alcançava o infinito com os olhos erguidos.
Pálida de tão clara, com a expressão quase indecifrável da profundeza que levava cada gesto e cada passo. Livre por todos os sentidos. E em palavras ou não, perplexa pela beleza.
O encanto do segundo que se passa no toque. Em seu corpo o depreciar do tempo no ritmo impecável. Mas, indiferente ao relógio, a coreografia espontânea. Como versos, por assim dizer, lançados ao ar.
Uma noite que corre apressada para quem dança sem o amanhã.
A tempestade, bem além do tempo, para castigar os despertos. E na solidão, então na ousadia, a nudez de quem desafia os olhos do nada.
As notas musicais, mudas, roçam suas curvas sem nada dizerem e o silêncio sempre foi propício à dança. Ela procura por quadros que a assistam, paredes que a ouçam. Procura por poetas que a imagine.
Eu acho que nunca vou dormir esta noite.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Sinfonia de uma Manhã Nublada

É manhã. Mas de tão cinza quase que ainda é madrugada. E eu me desperto tão sonolento que, sem convicções de realidade, tudo que acontece é automático. A mesa de café já posta, me esperando desde a noite anterior, recebe os frios que distribuo aleatoriamente sobre ela. Resolvo presentear os vizinhos e, no velho rádio da sala, Yann Tiersen bate os dedos nas teclas do piano iniciando L’autre Valse d’Amelie. A televisão quase pulsa para reviver Amelie revirando páginas e páginas de fotografias 3x4 de rostos desconhecidos.
A música refresca minha memória e agora eu estou deitado junto a ela no chão desta mesma sala. Cortinas fechadas, luzes desligadas e o som a nos envolver. Seu cheiro volta tão intenso que esqueço propositalmente o perfume para tê-lo mais tempos em lembranças.
O sair de casa é quase doloroso, mas o cheiro da chuva me instiga a ver a rua. A vontade é de ir a pé sentindo as gotas na cara lavando o sonho lúcido da música. E, talvez eu resista e coloque o fone nos ouvidos para prolongar meus pensamentos dançantes. Talvez eu resista ao horário e me permita chegar atrasado.
E ao pegar a chave do carro já está tudo decidido por que ela me lembra da promessa que tinha feito a ela de passar em sua casa e dar carona para a fuga que arquitetamos juntos. Me lembra de ligações corajosas terminadas em “estou indo aí” e da falta de compromisso: que sempre me perdia no caminho em labirintos de confusão mental, que minha hesitação me limita, que a brincadeira sempre me causou medo e o medo de ser brincadeira.
Deixo as chaves em casa, coloco meu casaco xadrez e saio na garoa com um sorriso pequeno de quem se diverte com seus pensamentos calados. Piso em galhos, chuto pedras, sigo distraído da rotina, mas atento a cada detalhe da manhã nublada. Borboletas escondidas, carros enfileirados, caras fechadas e olhos também. Guarda chuvas empinados e do alto da passarela um mar deles. Um arco-íris de cores vivas e, ao mesmo tempo, artificiais. Alguns em luto, sérios, pretos, que se camuflam no cinza e passam despercebidos. Gosto de observá-los. Geralmente senhores com a vida marcada nas rugas do rosto, mas, em momentos, emprestados a jovens e garotos que seguem a caminho de seus compromissos.
E de tanto criar histórias para a vida destes passantes anônimos acabo eu mesmo virando um personagem. Quando me dou conta sou um vagante apaixonado pela menina do outro lado da rua e torço para ela vir pro lado de cá; e penso se sou eu quem deve atravessar; e aumento meu passo para alcançá-la em seu ritmo. E me lanço em gestos para alcançar sua atenção, seus olhos tão focados no passeio trincado.
Ela pára, levanta o guarda-chuva triste que tampava seu rosto e me despe com os olhos. Me vasculha friamente e solta um sussurro no ar. Leio seus lábios com afinco e a pronúncia de meu nome e me sinto atado ao descobrir que já estou quase na casa dela, que meus pés me guiaram para cá e que ela me espera do lado de lá.
Eu hesito novamente, penso nas promessas e a vejo esperando. De súbito sou tomado pela vontade e sigo meus passos sobre o asfalto. Ela me acolhe sob seu guarda chuva e eu coloco um fone em seu ouvido e ficamos em silêncio olhando em direções diferentes. De repente nossos olhos se encontram e acontece um beijo.
As palavras vêm me cobrando um passado “e a nossa fuga?” e deste momento já não estamos mais naquela rua e já não somos mais história.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Minha

Ela é minha.
Toda ela, mas os cílios e as unhas que insistem em se descolar de seu corpo e se juntarem ao chão.
Sem lei-de-três-segundos: a gravidade é ávida e egoísta, e eu também o sou.

A minha posse é um desvairo. E ela é tão minha quanto qualquer outra.
E que fossem todas! Que a vida fosse essa orgia que vivemos numa cegueira voluntária, entoando gritos de "amor livre" para justificar nossos atos que fazem pesar uma consciência de valores tradicionais. Ou que fossemos realmente desprendidos e o desapego nos guiasse: quantos dentes tem a chave que arromba teu segredo e adentra teu íntimo sem que possas intervir? Quem é aquele que depõe contra tua liberdade e te faz atonita?

O mundo urge para os hedonistas e a cobiça desacerbada elimina preliminares.
A miopia do êxtase não deixa espaço para os  detalhes e é o observador que sabe o que é refino.
À estes estão resguardados o prazer;

E é por isso que ela é minha.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Taças Trincadas


Sobrou vinho.
O bastante para levá-lo de volta ao ápice da noite anterior.
Até então a alegria existia e com mais dois goles poderia ser obtida. Era sempre essa dosagem: dois goles.
Que com um se aproxima e no segundo vêm à tona. Porém, em pares de dose a garrafa ia se acabando.

Sobrou vinho. Quase que planejado.
O suficiente para embranquecer as lembranças.
Quão frustrante seria saber que passara alguns quartos de hora a desvendar a madrugada passada?
E para quê? Se não há memória, não há pesar.
Emoções injustificadas devem ser afogadas. Guarde apenas as rolhas consigo.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Pontual

Quatro horas.
E eu consulto, de minuto em minuto, o relógio em meu pulso.
Olho nervoso ao redor. Procuro em cada canto e nem tenho disposição para pousar os olhos tranquilamente e apreciar os detalhes da paisagem.
São carros que me cercam, que passam apressados se revezando no conceder da preferência, indiferentes à minha espera vagarosa.
Mas espero. Não sei se ainda ansioso, mas de pernas bambas e coração acelerado.

Crio hipóteses – será que fui abandonado, esquecido? – e enquanto persisto em minha sina sinto os fios de minha barba crescerem e as rugas se formarem e me deformarem.
Já são cinco, quase seis, e o sol vai se arrastando num céu cor-de-rosa apoiado em flocos de algodão movidos pelo vento da tarde.
Vento este que me arrepia, que sopra e me trás a rosa para colocar em seu cabelo.
Se você chegar.


Será que pelo menos a Lua aparece?

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Interrompida

Chegou entoando a voz e a perdeu no meio do caminho.


Rosas não lhe eram dadas todos os dias.
E tinha mais: a chuva nunca esperava por ela para cair.
Havia ainda o detalhe de a chave ter sido destroçada ao enfiá-la com muita força na fechadura e, enfim, ao adentrar seu lar, o caos do banheiro esquecido pelas manhãs e ignorado nas noites de extremo cansaço, ou seja, todas.
Mas as rosas.
Que o café era velho e a dispensa vazia o deixava amargo. Mas era bom que assim ela podia seguir o dia já desperta e atenta.
E, além da chuva, o ônibus também.
Largada para trás no ponto. Seja pela multidão que ocupou o lugar dela ou pelos minutos que ela se permitia a mais na cama sem ressentimentos – a curto prazo.
As nuvens também não ajudavam. Por que tudo cinza? Ela tinha de se perguntar.
E as questões só a assaltavam quando a viam só.
Sem ninguém para perguntar e nenhuma pétala para bem-me-queres-mal-me-queres.
Os passos estrondosos e um sorriso de cabeça para baixo.
Quis chiar.
E estava com a aparência de uma desajeitada: e sem flores.
Mas, garota interrompida.
Perdida em lembranças mofadas e em continuações de sonhos. Fascinada pelas. pétalas. que iam caindo.
de um tempo distante. de um tempo de. Amores Perdidos. de mal-me-queres em abundância. um tempo interrompido. POR PONTOS.
E ainda assim tão presente.


Ficou lá, com o grito entalado na garganta que coçava diante as memórias tão lúcidas e melancólicas.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A Floresta



Os ouvidos, apurados, tateiam o som. Ela o persegue. São passos lentos, mas firmes, que regem um suspense, uma curiosidade que lhe cai bem. E cada vez que nota as notas ela adentra ainda mais àquela floresta. Anda tão distante de si que demora a reparar nas sombras dançantes, a valsa que toma a flora em seu desabrochar. A garota se estupefaz! A vida brota em cada poro e a cor surge de todo canto e tudo sugere-se tão convidativo e contagiante que seus pés que recearam pisar nas silhuetas das árvores não se demoram, adiantam-se.
O gato em seu encalço, busca os fiapos que escapam da bolsa à tiracolo. A costura movimenta-se ao vento e faz com que o animal entretenha-se atrás da garota. A música deixa seu rastro, inclusive no rosto da menina, em um sorriso de fascínio e na determinação em alcançar a origem do sonido
Os raios de sol sobrevivem à cúpula das árvores e clareiam o local. Acima da cabeça da garota, um céu esverdeado formado pelos tantos galhos que se entrosam e se enroscam uns nos outros e suas folhas chiam e também dançam aos ventos. Os pássaros agitam-se e vêm ao encontro da pequena acompanhando-a quando ela passa pelas árvores em que se encontram. Seus cantos complementam a melodia da floresta que comporta-se una em sua ressonância extasiante.
Em um determinado momento ela se permite apenas fechar os olhos e apreciar a sinfonia que a guia quase que instintivamente. O ritmo da música a tomara e a conduzia espontaneamente e só agora, depois de tantos passos sonâmbulos, ela vem a reparar em um ruído ao fundo que lhe é um tanto familiar. Havia ali algo que a remetesse ao piano emocionado que sua avó tocava.
As lembranças de sua velha lhe suscitam imagens vívidas das festas em família e ela descobre que o vinil que tocava nestas ocasiões também está presente na música da floresta, assim como o violino que ela tanto teimara em aprender a tocar, mas nunca conseguira tirar as mesmas notas que seus ídolos. Sua memória entoa exclamações que ilustram seu caminho desenfreado à fonte de todo aquele ruído.
O som progride em seu compasso e os passos já são involuntários. A floresta  torna-se cada vez mais densa e o dia esvai-se diminuindo a visibilidade. Os saptinhos, uma vez vermelhos, agora não se distinguem da cor da terra e o gato que estivera com ela já não podia ser visto. A magia que a encantou, agora a incomodava, e não havia muito que pudesse ser feito, pois ela já não tinha controle sobre seus membros e sentia-se impotente perante a situação.
O desespero de vagar pelo desconhecido em meio à escuridão tomava-a. Os galhos que podiam ser vistos eram deformados e tortuosos o vento uivava anunciando a noite gélida. O piano perverso ditava notas cada vez mais agudas e os instrumentos desafinam-se numa regência descompassada e ardilosa fazendo-a mero joguete, uma marionete dançante.
Ela roda e roda e roda, perdida e solitária e, de repente já não é mais ela a rodar, mas toda a floresta ao seu redor. Eis que as cordas tencionam  e um ruído estalido encerra repentinamente a música desatinada. O silêncio mortal toma conta da pequena clareira em que a menina se encontra, agora desacordada e estatelada no chão.
O vento sopra seus cabelos e seu vestido. Sua respiração demora até se estabilizar, mas quando o faz transmite o alívio do corpo. A paz imponente é decisiva: é o sonho de oito horas ou o crepúsculo da alma.
E por detrás das árvores que cercam o corpo jazido na grama a orquestra se indagava: “E se ela acordar?”

sábado, 23 de janeiro de 2010

Estou morto.

E confesso, foi no terceiro dia longe de ti.

quem diria que a eternidade é composta de setenta e duas horas?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Inconstante

Da meia noite ao meio dia sou narcisista e admiro cada uma de minhas manias.
Do meio dia à meia noite sou persistente em me livrar de todas elas

Lacuna


- Faltando alguma coisa?
Falta, o garçom sabe pela expressão. A princípio falta a coragem para admitir. Depois faltam lembranças que vêm fugindo dele há uma semana, o amor próprio que não foi encontrado nas redondezas do bar, algumas explicações a receber, confissões a fazer e a sobriedade tomada à força pela bebida. Falta a mulher que o colocou ali, os amigos que não o acompanharam e o dinheiro que o tiraria dali. Enfim.
-Falta outra dose.