domingo, 26 de fevereiro de 2017

Violentamente Só

As pessoas irritadas nos provocam para que compartilhemos de seu veneno.
Parece que a raiva acentua sua solidão...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Comunhão em meio ao caos minúsculo

Calar é a quarta virtude porque resguardar a palavra significa gestar a oportunidade.


O silêncio não omite, ele apenas não revela: é um reflexo de quem o observa e o eco de quem o contempla. Eis pois por que dizem que o calar é consentir: insensíveis! não enxergam além de si e em seu incômodo julgam o vazio...

O lábio cerrado é o pleroma inefável.


É da imprevisibilidade do cão que não ladra que o incauto busca respostas num oráculo vão. O silêncio é essa entrelinha inescrita num pretensioso destino que acreditam os lunáticos;

é a sutil lacuna no convencional, a possibilidade pura que precede a linguagem. A seta retesada e pontual.


O silêncio é de ouro, como dizem.

E quem diz é de prata...


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Das Posturas


Aos 16 anos de idade eu treinava artes marciais. O treino começava às 19:00 horas em ponto e se você chegasse atrasado você tinha que dar 50 voltas correndo em torno do tatame. Meu pai quem me levava, eu sempre chegava atrasado, o mestre sempre cobrava da gente essa disciplina , então duas vezes por semana eu corria e corria e corria, até cansar. O que estava em jogo não era a vaidade do mestre, a pontualidade para com a aula dele, mas sim o compromisso com aquilo pelo qual ele devia zelar. Aquela Arte era o sagrado, e como seu representante, a ele cabia o papel de nos cobrar essa percepção do mundo. O mestre sempre foi perfeito em sua postura.

Hoje, aos 26, eu trabalho num templo. O horário é o mesmo, 19:00 horas em ponto, mas eu já não dependo de ninguém para me locomover. Independente de qualquer imprevisto, às 19:00 horas a mestra está na sala, no templo. Mas ela não quer saber se você chegou 18:00 ou 20:00, não há nenhuma cobrança, advertência ou punição, nenhuma palavra é proferida. O compromisso continua sendo o mesmo, o ambiente é tão sagrado quanto, mas cada um administra os seus horários e a forma como encara suas obrigações. É claro que uma pessoa que não tem uma postura  condizente com o ambiente mais cedo ou mais tarde é afastada, mas não há qualquer preocupação em controlar diretamente a disciplina dos adeptos. A mestra é perfeita em sua postura.

A diferença entre a mão esquerda e a mão direita está na rigidez e na complacência. Uma orienta o discípulo a enxergar o que precisa ser trabalhado e lhe faz encarar de frente os seus erros até que ele seja apto a administrar a si mesmo. A disciplina é cobrada a cada passo e o sucesso só vem por meio do esforço contínuo. 

A outra exige a mesma disciplina e o mesmo esforço, mas a cobrança é implícita e sutil. O indivíduo tem uma maior ilusão de liberdade, mas ele precisa ser perspicaz e auto-centrado, pois parte-se do princípio que o adepto é passível de gerir-se e de lidar com suas obrigações. E se a incapacidade é atestada ele simplesmente deixa de integrar a tradição.

Ambos os sistemas se complementam e são interdependentes, de tal maneira que é preciso equilibrar confiança e disciplina na busca da qualidade do compromisso. O mesmo se dá no caminho solitário em que os mestres são as circunstâncias da vida e o discípulo inapto alterna entre inércia e aprendizados dolorosos até ser capaz de gerir a sua vida de maneira aceitável. E é somente com alguma dedicação que é possível qualquer progresso  e isso se faz nítido e lógico ao passo que se adquire maturidade.

Imprevisto e acaso são como o profano nomeia sua miopia, são termos para amenizar a incompetência que sua própria consciência tenta lhe fazer ver. Mas assim é o caminho, e ele é perfeito em sua postura.

domingo, 5 de fevereiro de 2017