quinta-feira, 25 de março de 2010

Vênus

Não pude me conter. Ao seu lado eu era inquieto e meus pensamentos se enrolavam.
De olhos nus, a me observar com certo apreço e contendo suas palavras com vírgulas cuidadosas e leve sonoridade. Falava perto de meu ouvido, quase como uma confissão, sem se importar com a multidão ao redor.
E, de tão próximos, eventualmente nossos corpos se encontravam e o contraste de sua delicadeza a meu lado ressaltava-se.
Seus lábios tremiam. Os meus, provavelmente, também.
Alguém me dissera ser a manifestação do desejo. Talvez fosse, eu não tinha por que duvidar. As minhas dúvidas eram de curiosidade, de ansiedade em conhecê-la, de decifrar os detalhes de seu corpo que gritavam, que se manifestavam em resposta às minhas caras.
Seu sorriso discreto era indescritível; Calava-me as questões do viver por uma fração de segundo, saciava todas as necessidades que eu poderia ter, exceto a de poder chamá-la de minha.
Mas, em meio à multidão, seu sorriso se desfez e ela recolocou seus óculos. Encarou-me por algum tempo e me deixou, com seu nome ecoando em minha mente durante toda uma noite pela frente.

terça-feira, 16 de março de 2010

HALLOWEEN

Estive exausto. E então me pego sozinho em casa, numa noite nublada em que as estrelas se escondem e a lua foge dos olhos de algum amante-vagante. Vim pelas ruas, desacompanhado da claridade prateada, e a pensar no que tinha feito. A princípio o tempo passou devagar: as sirenes eram para mim e os vultos me perseguiam. Mas então resolvi me sentar no meio fio de uma avenida qualquer e assistir os carros e o tempo passarem enquanto esperava pelo peso da consciência. Enquanto esperava pela atuação policial, a justiça, o destino.
Mas a paciência me faltou. E a viatura, confusa, rodava noite a fora, mas bem longe do local. Atrapalhados, homens da lei, em busca de saciar um desejo sádico que os motiva a profissão. Confesso que até me mantive sóbrio e intacto como uma prova deve estar:
As mãos sujas do sangue já seco o qual eu não tinha coragem de limpar – Na verdade a coragem que faltava era o fascínio pela obra de arte que eu havia criado ao acaso. – E me apreciava de cima a baixo. Esticava meu corpo para poder ver cada detalhe de meus músculos e as marcas que ela havia me deixado. Procurava-me em deus, meio que o julgando por não me possuir em sua caracterização; meio que o rebaixando por não me ter como associação primária e única.
Quis, assim que cheguei, um copo de uísque. Servido com bastante gelo e acompanhado da música clássica. Então pude me recostar na poltrona sob a meia luz da sala. Estive comigo mesmo durante toda aquela madrugada a reviver os detalhes lividamente: Excitado com os gritos, suas faces, e a me perguntar se ela sabia quão convincentes foram suas expressões durante o espetáculo. Aplaudi, inevitavelmente, de pé. E a dúvida persiste no fato de não saber se ela chegou a me ver, mas a certeza de tê-la feita sorrir para as fotos Polaroid me acalmou. - Insisti em capturar o momento, pois quando se planeja uma noite, espera-se a perfeição. Mesmo que alguns imprevistos venham a ocorrer, uma bela noite nunca deve deixar de ser bela!
As rosas, românticas, fizeram minha apresentação usual. Aceitou-as surpresa e as quis logo colocar num vaso de água, mas eu a impedi dizendo que tinha outras idéias para elas. Em sussurros entrecortados ao pé de seu ouvido fui logo sendo dispensado e abandonado na sala de estar enquanto ela se retirou para o quarto por alguns minutos.
A volta, marcada pela sensualidade em suas vestes e o suspense do caminho até o aposento, me levou direto ao perfume desesperado das quatro paredes; de um agradar necessário e da vontade de ser lembrada e celebrada como mulher ideal. Espalhadas ao redor da cama, as rosas tiveram suas sombras ampliadas pelas velas distribuídas pelo chão.Velas ansiosas, aguardando a presença do amante. E as paredes! Ah! No fim, tão vermelhas quanto as pétalas, deram um tom impecável para a fotografia da noite.
Quis ter seu corpo ali para sempre. Não cabiam outras linhas naquela história, não havia um porquê para o futuro, não havia mais vida para a sua personagem. Era rua sem saída, querida. Sempre foi, desde o momento em que abriu a porta. Apartamento de quinta, decorado com a luxúria de quem se preza. Seus olhos pintados, e as suas rugas maquiadas, e o seu sorriso retocado com a cor excessiva.
E teus lábios vermelhos nunca foram como aqueles que me tocaram num halloween passado. Bastou-me as fotos para comprovar.

terça-feira, 9 de março de 2010

Valsa

Feita de areia. Com movimentos leves, poéticos, que, em sua altura, em seu equilíbrio nos braços de outros, alcançava o infinito com os olhos erguidos.
Pálida de tão clara, com a expressão quase indecifrável da profundeza que levava cada gesto e cada passo. Livre por todos os sentidos. E em palavras ou não, perplexa pela beleza.
O encanto do segundo que se passa no toque. Em seu corpo o depreciar do tempo no ritmo impecável. Mas, indiferente ao relógio, a coreografia espontânea. Como versos, por assim dizer, lançados ao ar.
Uma noite que corre apressada para quem dança sem o amanhã.
A tempestade, bem além do tempo, para castigar os despertos. E na solidão, então na ousadia, a nudez de quem desafia os olhos do nada.
As notas musicais, mudas, roçam suas curvas sem nada dizerem e o silêncio sempre foi propício à dança. Ela procura por quadros que a assistam, paredes que a ouçam. Procura por poetas que a imagine.
Eu acho que nunca vou dormir esta noite.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Sinfonia de uma Manhã Nublada

É manhã. Mas de tão cinza quase que ainda é madrugada. E eu me desperto tão sonolento que, sem convicções de realidade, tudo que acontece é automático. A mesa de café já posta, me esperando desde a noite anterior, recebe os frios que distribuo aleatoriamente sobre ela. Resolvo presentear os vizinhos e, no velho rádio da sala, Yann Tiersen bate os dedos nas teclas do piano iniciando L’autre Valse d’Amelie. A televisão quase pulsa para reviver Amelie revirando páginas e páginas de fotografias 3x4 de rostos desconhecidos.
A música refresca minha memória e agora eu estou deitado junto a ela no chão desta mesma sala. Cortinas fechadas, luzes desligadas e o som a nos envolver. Seu cheiro volta tão intenso que esqueço propositalmente o perfume para tê-lo mais tempos em lembranças.
O sair de casa é quase doloroso, mas o cheiro da chuva me instiga a ver a rua. A vontade é de ir a pé sentindo as gotas na cara lavando o sonho lúcido da música. E, talvez eu resista e coloque o fone nos ouvidos para prolongar meus pensamentos dançantes. Talvez eu resista ao horário e me permita chegar atrasado.
E ao pegar a chave do carro já está tudo decidido por que ela me lembra da promessa que tinha feito a ela de passar em sua casa e dar carona para a fuga que arquitetamos juntos. Me lembra de ligações corajosas terminadas em “estou indo aí” e da falta de compromisso: que sempre me perdia no caminho em labirintos de confusão mental, que minha hesitação me limita, que a brincadeira sempre me causou medo e o medo de ser brincadeira.
Deixo as chaves em casa, coloco meu casaco xadrez e saio na garoa com um sorriso pequeno de quem se diverte com seus pensamentos calados. Piso em galhos, chuto pedras, sigo distraído da rotina, mas atento a cada detalhe da manhã nublada. Borboletas escondidas, carros enfileirados, caras fechadas e olhos também. Guarda chuvas empinados e do alto da passarela um mar deles. Um arco-íris de cores vivas e, ao mesmo tempo, artificiais. Alguns em luto, sérios, pretos, que se camuflam no cinza e passam despercebidos. Gosto de observá-los. Geralmente senhores com a vida marcada nas rugas do rosto, mas, em momentos, emprestados a jovens e garotos que seguem a caminho de seus compromissos.
E de tanto criar histórias para a vida destes passantes anônimos acabo eu mesmo virando um personagem. Quando me dou conta sou um vagante apaixonado pela menina do outro lado da rua e torço para ela vir pro lado de cá; e penso se sou eu quem deve atravessar; e aumento meu passo para alcançá-la em seu ritmo. E me lanço em gestos para alcançar sua atenção, seus olhos tão focados no passeio trincado.
Ela pára, levanta o guarda-chuva triste que tampava seu rosto e me despe com os olhos. Me vasculha friamente e solta um sussurro no ar. Leio seus lábios com afinco e a pronúncia de meu nome e me sinto atado ao descobrir que já estou quase na casa dela, que meus pés me guiaram para cá e que ela me espera do lado de lá.
Eu hesito novamente, penso nas promessas e a vejo esperando. De súbito sou tomado pela vontade e sigo meus passos sobre o asfalto. Ela me acolhe sob seu guarda chuva e eu coloco um fone em seu ouvido e ficamos em silêncio olhando em direções diferentes. De repente nossos olhos se encontram e acontece um beijo.
As palavras vêm me cobrando um passado “e a nossa fuga?” e deste momento já não estamos mais naquela rua e já não somos mais história.