quarta-feira, 27 de março de 2013

Imemorável



Ao orador que não decorou o que havia de ser dito.

Logo eu, que não aprendo por repetências, mas na análise do conjunto. E quiseram fazer de mim o astro principal, com palavras anexadas à boca que deveriam ressoar mais do que minha própria voz.
Logo eu, que não abro mão de reticências, e em conformidade com minha essência, digo o que quero sem palavras de outrem! E ai de mim, das palavras minhas, que mesmo compostas, hão de ser mutantes: adaptam-se aos públicos.
Não, não sou eufêmico! Não me leve a mal, mas não me parece justa a proposta de amenizar a dor de quem escuta uma verdade. O que faço é aliar a vibração das letras com o que o ambiente pede. Não lido com estes discursos prontos, não sirvo de intérprete, nem sou mediador da experiência de uma plateia que não teve competência para chegar às suas próprias conclusões.
Exalto-me em altos e baixos e encaixo-me nas lacunas que vão chamar de silêncio, mas que vibram mais do que as curvas dos esses ao denominarem plurais e pecarem pelo excesso.
Deram-me parágrafos rígidos; falas falsas, dessas que falseiam mesmo no papel, quem dirá nos ouvidos de um público xoxo.
E eu nem sei quem são os convidados, mas descarto-os de antemão por que vim para fazer estardalhaço: não sou seu representante! Votem em si próprios! Eu vou dizer tudo, tim tim por tim tim, e com minhas palavras! Aguardem!

quarta-feira, 20 de março de 2013

A Conclusão de um Capítulo



Quando a história escreve-se a si própria.

- Conte-me sobre os vendedores de sonhos.
- Esqueça.
- Por que?
- É querer saber demasiado, jovem. Já não é mais data de falar sobre isso.
- Ouvi histórias de entusiastas pela vida fácil.
- Que seja. Todo mundo quer se livrar das dificuldades, isso não é pecado algum.
- Pois bem. Mas andam se afirmando vendedores de sonhos e eu soube que o senhor mantinha algumas estórias em sua memória. Eu gostaria de ouvi-las...
- Minha memória vai mal. E falam muito por aí, veja só o que você escuta! Considere ainda que vendedores por vendedores, deles o mundo anda cheio.
- O que quer dizer?
- Veja bem, há uma grande diferença entre os Fabricantes de Sonhos e estes vendedores dos quais você me fala. E, a não ser que você tenha escutado errado, vendedor de sonho é qualquer publicitário ou ilusionista, alguém que te estimule as expectativas com uma oratória boa.
- De fato. Constantemente tropeçamos nas palavras e alteramos sentidos.
- E “quem conta um conto aumenta um ponto”. Por isso faço-me mudo.
- Seus pontos me interessam. Por favor, eu tive alguns empecilhos em minha vinda e transpassei-os apenas para vir ter contigo. Quero saber tudo que você puder me dizer sobre, então, os Fabricantes de Sonhos.
- E já não lhe interessam os vendedores? Eu poderia, talvez, lhe ensinar a produzir fortunas apenas com a lábia e um traje chamativo... É mais fácil tornar-te ator do que deixar-te por dentro de assuntos complexos. E eu também me divertiria mais... Afinal, o que ganho perdendo meu tempo contigo?
- Você quer um incentivo?
- Sim.
- Eu não tenho nenhuma quantia significativa...
- E quem falou em moedas? Tampouco lhe exigirei o tempo, que é como os Antigos costumavam tratar suas negociações. Mas quero justificativas plausíveis. Se vou revirar os sigilos e levantar os véus dos mistérios sagrados, que eu saiba pelo quê estou me arriscando. E é bom que você seja plausível por que apenas o fato de estar interessado nesses segredos já é o suficiente para ser alvo de condenações e pragas do vilarejo.
- Mas nossa conversa não sairá daqui, não é?
- A minha discrição é notável, a delimitação desse diálogo só depende de você. Enfim, por que você não começa a me contar sua história e desafogar essa cabeça cheia de pensamentos inquietos?
- A primeira vez que eu ouvi a respeito dos Fabricantes de Sonhos, e até então eu não os conhecia por nenhum nome, eu ainda era pequeno. Na época, nos referíamos a eles como os Outros e eu lembro de sentir um certo medo quando falávamos deles. Meus antepassados tinham muito respeito ao abordar o tema e suas vozes eram sempre mais veladas ao contar os causos de pessoas conhecidas que tiveram algum contato com eles. Lembro-me que as histórias deixavam todos estupefatos e terminavam sempre com os conhecidos se dando muito bem, mas quem contava a história narrava este fato com uma infelicidade terrível em seu tom de voz e isso era o que mais me perturbava.
- Muito bem. E o que mais?
- Eu nunca soube dos detalhes e até pouco tempo atrás essas histórias haviam me caído no esquecimento, de forma que o tema realmente passou bastante tempo apagado de minhas memórias, assim como aconteceu com todas as pessoas com quem tenho tido contato. Mas houve um incidente que me despertou essas lembranças e desde então eu ando um tanto inquieto.
- Diz-me, que foi que lhe passou?
- Eu era vendedor de antiguidades num vilarejo um tanto distante daqui. E sei, sou jovem demais para lidar com antiquários, mas desde novo eu já me interessava por histórias e personalidades do passado. Meu fascínio me levou a colecionar objetos de diversas partes do mundo e das mais variadas épocas e foi assim que acabei nesse ramo. Mas certo dia havia um estranho de passagem pela vizinhança e ele me visitou em minha loja em busca de um determinado objeto o qual ele afirmava com muita convicção que eu o possuía. Tratava-se de um relógio de bolso que pertencera ao pai dele, mas ele não sabia me dar quaisquer detalhes sobre o relógio ou sobre o porquê de ele achar que eu o tinha comigo. Fazia algum tempo que eu não tinha relógios de qualquer tipo em minha loja e sempre que me aparecia algum modelo eles não duravam muito tempo em estoque, então eu me desculpei e disse que ele deveria estar enganado. Eu até poderia ter tido aquele relógio um dia, mas ele já fora vendido há muito tempo.
- Pois bem, relógios... Estamos começando a nos entender. Continue, por favor.
- Eu me interessei pelo homem. Ele não era nada familiar, não tinha nada chamativo em si, nem em simpatia, nem em algum destaque físico; não tinha um jeito de falar interessante e nem cara de ter muitas histórias para contar. Mas tinha o tom de voz que ele tinha usado comigo e que me dera uma impressão de uma sinceridade desesperada. Eu só queria saber de onde ele havia tirado a ideia de que eu possuía o que ele queria de volta. E, confesso, também queria saber a história do relógio... Talvez fosse a única que ele tivesse.
- Engana-se quando diminui os viajantes. Mas piora sua situação quando se envolve com a curiosidade. Nosso atrevimento, afinal, nos leva a caminhos muito estranhos...
- Sim, muito estranhos. Você sabe como termina a história?
- Faço uma ideia do desfecho. Ele conseguiu recuperar as memórias do pai dele?
- Pois aí é que está: o pai dele ainda era vivo, então quando ele voltou de sua empreitada mal sucedida ele se deparou com uma figura que o tratava ternamente, mas que ele não reconhecia. E foi nisso que as memórias foram se clareando e ele pôde eternizar seu pai. Mas o relógio ele havia perdido.
- Isso é bobagem. Memórias uma vez ceifadas não podem ser restituídas.
- Não foi o que ele me disse...
- Ele não lhe contou os fatos de forma específica. Ele não pôde reaver suas memórias, mas pôde reconhecer seu pai e partilhar das histórias que ele lhe contou. Ele não sabe quem foi o pai dele do momento do nascimento dele até o dia em que ele retornou à sua casa e foi apresentado a ele novamente.
- Mas por que apenas as memórias do pai?
- Por que era a pessoa por quem ele mais sentia afeto.
- Mas se ele não chegou a consumar o trato...
- Mas ele chegou a ter contato com o Fabricante de Sonhos e voltar atrás em seu desejo é provar indecisão. O Fabricante de Sonhos, cuja moeda é o tempo, não o perde em vão. Os Antigos, seus Outros, não costumam nem manifestarem-se para pessoas frívolas, mas este viajante do qual você me diz devia ter alguma excentricidade.
- O pai morrera dez anos antes da ocasião em que eu o conheci. Havia deixado um relógio de herança para ele e em uma de suas viagens posteriores ele perdera o objeto. Afirmou-me que a viagem em questão tinha sido a uma cidade próxima do vilarejo em que minha loja estava localizada e que o relógio poderia ter passado por minhas mãos, mas ele não soube nem me precisar a data em que isso ocorrera. Desde então vagava em busca daqueles ponteiros que carregavam o rosto de seu pai.
- E desde então ele nunca mais fora o mesmo.
- O que quer dizer com isso? Suas colocações são sempre muito vagas, eu fico perdido em suas palavras.
- Refiro-me ao modo como ele falava... Não era estranho? Como se ele vivesse em uma ilusão?
- Ele gaguejava demasiadamente e falava num nervosismo fora do comum. Possuía alguns tiques nervosos, mas nada muito alarmante. Eu não pude desconfiar como ele poderia ser antes da morte do pai.
- Não falo da morte do pai, falo da perda do relógio. E você sabe como são essas particularidades que adquirimos: passamos a conviver com elas tão costumeiramente que nos adaptamos a elas e as tornamos parte de nosso ser.
- E o sujeito era um trauma ambulante?
- Exatamente. Mas você tem um último pormenor que lhe aborrece demais. Qual é?
- Bem... Antes de sair da loja o homem se virou para trás e me confessou, em uma voz severa, que ele sonha com esse relógio todos os dias. E isso, ele ainda acrescentou, desde que ele se encontrou com o Fabricante de Sonhos... Muito, muito antes de o pai dele morrer.

quinta-feira, 7 de março de 2013

TOQUE


Contato é o que estabelece ligação.
Toda relação nasce de um contato peculiar; um toque que transpassou os dedos, estendeu-se para além das palavras e alcançou uma fronteira, impactando-a irremediavelmente.
Viemos tratar de experiências. Viemos transcender o touch-screen e a automatização de sentimentos, discursos, métodos.
Não estamos aqui apenas para dar toques. Viemos para desenvolver ideias completas e, ao extinguirmos nosso fôlego, podermos acrescentar o toque final.
Viemos no intuito de tornar sonhos palpáveis. Experiências, mais do que memoráveis, vívidas! Aproximar pensamentos, convergir caminhos, estimular crenças no sentido de reinventarmos o mundo.
Um toque provoca muito mais do que um arrepio. Provoca inspirações.

Inspire seu mundo.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Mais do que Polidez


Bom Dia porque todo o dia é dia, e é agradável, e é sutil.
Bom Dia por que mais do que uma expressão, é uma oração e a prece é o discurso que toca as alturas. Porque não o coração dos homens?
Bom dia porque é uma convergência. E que mesmo em competições, onde há interesses em conflito, é uma forma de saudar que demonstra a nobreza de espírito: faz-nos mais tangíveis, palpáveis, aproxima-nos.
Bom Dia é o canto da experiência. É o que o sábio profere e que marca o início.
E por que não começar o dia bem? 

- Bom dia!