sexta-feira, 29 de junho de 2012

Fome de Algo Mais



Se poesia enxesse barriga, enxia bem mais que isso!
O peito cheio, de orgulho mesmo!, de ler em voz alta os versos escolhidos!
Mas, pelo contrário, a mais nua vergonha!
E não é vergonha estar nu!
Vergonha é estar disperso:
PERDEU A OPORTUNIDADE DE FICAR CALADO, RAPAZ!
E agora perdeu a frase anterior!
E só se faz mais BURRO, BURRO, BURRO!
BURRO!
E vai xingar o prefeito, cantar uns raps, fazer-nos rir!
Eu não sei o que tá na moda por aí...
Eu sei que o respeito tá em baixa!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

terça-feira, 19 de junho de 2012

Extraordinário


Dentro de toda ampulheta há um grão de areia negro. E se os grãos, todos, já são negros, há nesta outra ampulheta um branco, claro como a neve. Sobre este grão excepcional duas coisas têm de ser ditas. Começo pela confecção do objeto que intriga a tantos.
Aquele pequeno grão do oposto não é colocado ali propositalmente, pois não há uma finalidade ou motivo místico para a inserção desta peça destoante e tanto trabalho gratuito é descompensado.
O mistério, portanto, está na forma como este princípio de ironia se manifesta, pois mesmo que o artesão selecionasse cuidadosamente cada grão de areia, após o envasamento final fatalmente o grão se revelaria.
Há quem explique o fato como um processo de seleção natural em que o grão mais apto destaque-se dos demais adquirindo uma tonalidade contrastante. No entanto há lacunas nesta teoria, pois a característica saliente não é especificada, dando possibilidade ao acaso como solução.
Há outros que acreditem na materialização simples do grão, como se ele fosse inerente à ampulheta. Desta forma, o grão diferente não faria parte da composição original da areia colocada ali, mas seria, portanto, um grão extra na contagem do tempo e que parece não interferir, pelo menos significativamente.
Outro ponto a ser esclarecido é sobre a forma como o grão em destaque é percebido. Há muitos relatos de pessoas incapazes de verem o grão e outros tantos de pessoas fascinadas com sua existência. Isso é explicado pela insensibilidade visual de alguns, decorrente de seu enclausuramento mental. Em Portas da Percepção Huxkley soluciona o aspecto do indivíduo “conformado”, mas não a dúvida que aqui se apresenta. O dilema posto em jogo confere personalidade ao grão: são as pessoas incapazes de enxerga-lo ou é ele quem se esquiva dos olhares dos insensíveis? É uma postulação bastante coerente coloca-lo como simpático a quem enxerga além, visto seu simbolismo ser desnecessário aos demais.
Houve um rei, certa vez, que tendo descoberto o segredo do grão destoante dedicou-se à dilatação de seus sentidos até comprovar com os próprios olhos sua existência. Exigiu algum esforço do monarca, pois seus vícios eram uma venda de primeira-mão e este não estava acostumado à lapidação de sua consciência nem a constituir relações de intimidade com objetos. No entanto, houve o dia em que o grão revelou-se ao rei e este quedou-se maravilhado com o segredo desvendado.
Aficionado com a peça, o chefe de estado reuniu seus alquimistas ao redor da ampulheta selecionando um grupo de pessoas que podiam ver o grão. Os alquimistas todos já sabiam da lenda oculta, porém, algumas outras pessoas que ocupavam cargos de confiança do rei ficaram perplexos com o que se expunha. O rei, exaltado, ordenou que fosse extraído o grão contrastante da ampulheta e levado até ele, pois ele queria manusear aquela preciosidade.
Os alquimistas protestaram de imediato afirmando que o grão não podia ser extraído, pois era o contexto que o compunha e que fora dali ele não existia. No entanto o rei, fora de seu juízo, persistiu em sua ordem e, ignorando o aviso dos alquimistas, fez com que seus outros súditos assumissem a tarefa manual e trouxessem-no o grão.
Após a milésima tentativa frustrada os súditos voltavam ao rei dizendo que inexplicavelmente o grão evaporava-se quando o vidro da ampulheta era quebrado. Incapaz de compreender a mecânica extraordinária do objeto, o rei entrou em colapso, numa crise atordoante que durou algum tempo até, enfim, suicidar-se. Relatos posteriores à sua morte revelavam que nos últimos tempos o rei já não era mais capaz de ver o grão incomum da ampulheta e que isto contribuiu para seu trágico fim.
Após este acontecimento a população passou a maldizer a história e a lenda caiu no esquecimento sendo mantida apenas verbalmente, numa tradição oculta daqueles que realmente se aproveitariam dela. Os lábios da sabedoria só devem ser abertos aos ouvidos do entendimento. É assim que os alquimistas entendem o conhecimento e esta é a proposta de ensino mais coerente e eficaz.
Com pesar, eu reconheço ter quebrado esta regra. Mas transpassando-a, vou além citando o axioma revelado a mim quando pude ver o grão-de-ouro pela primeira vez. O sábio me disse:
“TODO E CADA DIA POSSUI UM MOMENTO MÁGICO”
e rematou:
“NÃO DEIXE-O MAIS PASSAR DESPERCEBIDO”
e eu entendi: se você se esquece dele, ele se esquece de você.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

"Impasse" ou "72"



aos indisciplinados

Conta a lenda que um jovem discípulo, perturbado com os acontecimentos do mundo que o cercava, foi ter com seu mestre a buscar soluções para erradicar o que tanto lhe afligia.


Após interrogar o ancião este lhe aconselhou que se quisesse ajudar ao próximo que começasse próximo à si. Poderia buscar a água da fonte para repor as reservas da casa já que o outro discípulo, encarregado desta tarefa, estivera enfermo.

O jovem se propôs a fazê-lo prontamente, afinal a água também servia à ele. Armado dos baldes saiu em busca do caminho que nunca havia trilhado, debaixo de um sol escaldante que castigava a região. Andou por horas até deparar-se com uma bifurcação sem qualquer placa que pudesse indicá-lo a direção para cumprir sua tarefa. Não havia cruzado com ninguém desde que partira em sua jornada e também não vira nenhuma moradia durante sua peregrinação, então se sentou diante da divergência e pôs-se a meditar.

O tempo passou e o discípulo não viu solução senão tentar um dos dois caminhos que se demonstravam diante dele. Sem saber qual escolher e já tendo perdido tempo demais optou pelo caminho da Direita.

Andou bastante tempo até cansar-se, mas persistiu na busca que terminou em outra bifurcação. Indeciso, cumpriu um instante de impaciência e esta o conduziu de volta ao primeiro entroncamento. Ia tentar o caminho da Esquerda, apesar da insegurança que lhe tomava nesta altura. Sua intuição lhe dizia que aqueles caminhos não eram fiéis e a sensação de estar andando em círculos já havia o dominado.

A expectativa de outra divisória de trilhas lhe acompanhava e quando este fato se confirmou o jovem se deu por vencido e resolveu retornar ao lar com os baldes vazios e a boca cheia de palavras para justificar sua ineficácia ao mestre.

Já era noite quando o jovem retornou exausto ao lar e deparou-se com o velho ancião com um sorriso contido no canto do rosto. Após informar ao mestre seu insucesso este lhe ordenou que descansasse, pois seu dia havia sido longo e que no dia seguinte ele o levaria trilha adentro, demonstrando-lhe as direções corretas. O jovem, intrigado, conteve sua curiosidade e teve um sono longo e duradouro.

Ao levantar-se pela manhã o mestre estava equipado com os dois baldes, e os estendendeu ao jovem num sinal de que o acompanhasse. O caminho permanecia familiar ao discípulo, no entanto demoraram apenas um quarto de hora para chegar àquela bifurcação que o marcara tão desagradavelmente. Não entendia como o tempo havia os atravessado, porém de fato estavam ali sem qualquer atalho ou veículo.

O mestre então indicou a divisão na estrada e perguntou ao jovem se este a enxergava. O jovem assentiu com uma certeza dúbia, sem saber se realmente a via. O mestre então ensaiou algumas palavras sobre como os caminhos se dispunham às pessoas e como as pessoas deviam dispor-se a eles. No decorrer da conversa o jovem percebia que aquele local não se tratava de uma bifurcação, mas de uma encruzilhada, pois percebia agora um caminho entre aquele que tomara primeiro e aquele que tomara por último no dia anterior.

Escutava as palavras do mestre com bastante atenção, deslumbrado com a descoberta que desabrochava a cada respingo de compreensão. Então o mestre indicou o local e perguntou novamente ao jovem se este era capaz de vê-lo. O jovem podia ver o que o mestre lhe mostrava. O mestre então lhe indagou sobre quantos caminhos aquele caminho do meio desembocaria se alguém se atrevesse a contar as bifurcações nele contidas.

O jovem quedara-se confuso pois não imaginava a existência de bifurcações também naquele caminho do meio que acabara de ver. Em sua crença aquele seria o caminho correto para chegar-se até a fonte de água e encher os baldes e um caminho correto haveria de ser simples e direto. O silêncio, portanto, instalou-se e permaneceu até a elucidação do mestre.

Havia ali, metaforicamente, setenta e dois caminhos. Aqueles que o jovem havia trilhado no dia anterior eram EXTREMOS e podiam ser vistos por qualquer pessoa de sã consciência, pois não exigiam qualquer sensibilidade para serem tomados. O mestre explicou que da mesma forma que qualquer outro, aqueles caminhos também levariam ao local desejado quem quer que os trilhasse, porém exigiriam bastante esforço por se tratar de caminhos inflexíveis, ou seja, só poderiam ser vencidos na base da persistência.

“O caminho do meio consiste não no contrapeso dos extremos, mas na postura do andarilho. Aquele que se identifica com seus meios sabe conhecer seus fins: uns chamam de atalho a simplicidade, outros só não vêm motivo para tanta cerimônia. O pátio central, portanto, destina-se àqueles sensíveis o suficiente para distinguirem sua Vontade do desejo. Além disso, optar pelo essencial exige um tanto de sinceridade para consigo. E são nessas bifurcações que os restantes se perdem.”

Dito isso o mestre ia se retirando quando o pupilo lhe perguntou sobre a água e os outros tantos problemas do mundo. O mestre tirou um balde da mão do rapaz, avançou pelo caminho central, desapareceu por trás da primeira árvore e voltou com o balde transbordando. Nisso, acrescentou serenamente:

“Há problemas por que há quem os enxergue. A água está bem ali. Talvez não atrás do primeiro ou do segundo arbusto, mas logo adiante...” e concluiu: “Não há mapas para a Vontade, não há guias para desvios, não há rotas para o indolente”.