quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Mais

Eu quero é mais! Eu não quero pedaços, nem aquela superfície exposta ao mundo, ou seus dados de interação social. Eu não quero ser um turista na frente da vitrine vidrada. Eu quero atravessar as fronteiras, ir no íntimo, sentir o que há para ser sentido. Eu quero provocar, desarmar, fascinar.
Chega de desculpas esfarrapadas, termos mal interpretados, indiferença nomeada de desapego. Chega de saber pouco de muito, chega de coleções intermináveis de quebra-cabeças incompletos, e de livros adquiridos e nunca lidos.
*
Eu não quero semi-conhecidos. Nem romances que durem uma única noite. Eu já estou farto de percorrer estes caminhos comuns, mediocridade sem limites. E que me limita. Eu quero é te vasculhar por completa por que você, simplesmente, me intriga. Eu não estou interessado em nenhum dos cento e cinqüenta canais da tevê a cabo, mas sim em cada um dos seus pensamentos, na diversidade dos sorrisos que você esboça quando eu sussurro o que você quer ouvir. E quero saber também dos sorrisos que você força quando eu digo o que você não quer ouvir. E eu não quero te testar, eu quero te sentir! Eu estou interessado na forma como suas mãos criam gestos novos enquanto você me dirige a palavra, na cor da toalha que você vai usar depois do banho de hoje e no modo como você vai atender o telefone às 19:43. Mas eu quero saber das toalhas e dos telefonemas de amanhã também e vou prestar atenção nestes detalhes, ainda que eu não diga nada. Eu me distraio contigo, mesmo estando tão ocupado em te captar. E fico leve, leve, leve. E mesmo que chamem-me obsessivo, eu respondo que a inveja é não ter sido tomado do que nos abate. Só assim para aprender a amar amando!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Pequeno Descuido

Ela desce as escadas de mármore sem olhar para trás. A porta azul de vidro está aberta e sem hesitar ela passa por ela. Eu assisto tudo escondido por trás da fresta da porta de carvalho que ela deixou entreaberta quando saiu. Levantou-se, vestiu a roupa e chamou um taxi.
Os ventos assobiam alto e fazem a chuva colidir com a janela da sala escura, e fora isso, tudo no silêncio em que deixamos: intocável. Eu estive quieto, esperando por um beijo. Depois esperei por palavras e então por qualquer gesto. De olhos bem abertos, com o rosto apertado contra o travesseiro macio e o corpo ainda quente e suado debaixo dos lençóis brancos, eu me mantenho paralisado enquanto ela procura na gaveta o número do taxi.
Dois minutos de atuação: estátua! Cento e vinte segundos suportando um coração acelerado, a garganta seca e as suas palavras distribuídas para os outros gratuitamente [no telefone].
Contive-me sufocando gritos que sairiam roucos, se escapassem. Mas com tanta sutileza, seus passos quase que não ecoaram pelos tacos de madeira da casa e, se eu não estivesse tão desperto, não conseguiria acompanhar a distancia crescente que eles tricotavam de mim. No entanto, antes que minha voz a alcançasse, a porta de carvalho o faz e a leva de mim. E ela leva minhas palavras que não saíram, as lágrimas que não caíram e o coração que não parou de bater um segundo sequer. Leva meu humor escada abaixo logo pela manhã e deixa-me, enquanto a espreito inquieto, apenas seus olhos de menina como lembrança. A surpresa que desponta no olhar de quem confere o que deixa pra trás e se vê sendo assistida, mas se vai... por que o taxi já arrancou e, apesar de cedo, é tarde demais.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Impessoal


Amontoam-se inevitáveis.
Como vermes infestando páginas e desuniformizando-as com os diversos formatos que assumem.
Tombam ou espremem-se & acomodam-se sobre linhas: tão espaçosos que roubam o olhar!
Pensamentos registrados; sinônimos – como palavras-muletas – gravados ao lado do original; explicações de contexto; setas que se cruzam & confundem-se, e desembaraçadas são uma linha de raciocínio explícita. Termos quase ilegíveis, ou mesmo em letras bordadas! Cada um que consumiu aquele calhamaço deixa uma forma de acessar suas ideias, abrir o cadeado da mente que porta.
E as páginas, inocentes & ingênuas, parecem não se importar com o abuso dos leitores. Pelo contrário! Conforme envelhecem e dobram-se em amassos sentem falta do toque, de dedos as apreciando, o calor das mãos que transmitem o afinco de um fim de capítulo e o afrouxo do abraço do término & recomeço.
Acho charmoso o tempo que se instala tão característico em teu amarelar. Convidativos teus rabiscos, interessantes tuas expressões que te habitam tão fiéis, resistentes ao manejo. E eu até poderia te amar! Confesso ciúmes às tuas marcas, teus giros pelo mundo... Além de tudo, sou complicado! De um amor cheio de pormenores, intenso & exigente. Mas o tanto que sou detalhista daria certo contigo, com todas estas inscrições sobre ti!
O que não suporto é limitar-me! Ter data para amar-te, saber certa a despedida...
Sou, portanto, sutil. E deixo-te registrada a minha obsessão. Pública.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Gatunos não amam

Roubo rosas e as levo comigo.
Levo lembranças embrulhadas na mente, olhares da gente e uma cara de “eu não ligo”.
Roubo a cena e tento voltar com ela para o lugar.
Tiro mil fotografias e as faço peças, monto um quebra-cabeça, decoro o lugar.
Roubo as gotas da chuva que cai.
Roubo o ar que respiro, os nomes em que me inspiro, a presença de quem não sai.
Roubo seu tempo lendo asneiras, tantas besteiras de quem não sabe amar.