quinta-feira, 31 de julho de 2014

Conciso

Já rabisquei linhas por acaso, textos rasos, páginas sob prazo
cartas para os casos & descasos & atrasos – mesmo os propositais.
Vali-me de palavras para quebrar mais do que vasos
amores fatais embasados em argumentos decimais
frascos & fractais espalhados pelos quintais
quinto de qualquer canto, canto de qualquer conto
margem à margem, ponto a ponto
quintessência em evidência: veja, tudo é harmonia
hoje em dia não tem mais jeito,

tudo o que escrevo é poesia.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Anímico

Cítrico como quem proclama distância
Místico como o livro da estante
Última instância como apelo
Cabelo desgrenhado, espelho destronado
Estética autônoma irremediável
Crítico imediável feito obra prima inédita
Compositor composto
Sujeito oculto

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Nem Isso


Que as línguas se dobrem
Pois palavras sobram
Mas faltam pontos.
Qual homem acusa-me
– E, para isso, “homem” –
Com a boca cheia de pecados
Que cospe como o faz
Quando fala de putas
Empregando sujeira
Onde há apenas
Sua reles ignorância

Abaixo da mediocridade há o pomposo
Membro de enfeite & apático social
Não reduzo meu sorriso largo
Por que não roubo a alegria ao mundo.
Aliás, gargalho!
À que homem concedi
Qualquer intimidade que fosse
Para poder subtrair minha paz de espírito?!
Ter-me severo mais me parece um elogio!
Mas minhas mesuras se restringem
Às ironias bem tecidas.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Indulto Herético


- Com quantas frases se faz uma paz sólida?
- Depende de quem se engana.
- Com uma carta impecável?
- Quem mais peca: quem provoca ou quem cede?
- Eu provoco só de falar...
- Então como hás de querer paz?
- Em redenção, penso. Se me assumo e me retrato?
- Em retrato ou paisagem, nítido como maldirias. Nem de palavras sinceras tu te assemelharias ao que és.
- Ora! Descrevo-me com maestria!
- Poupe-me. A lábia é esmola; teu amor, esmero.
- Sinto menos então? Quisera inteirar-me do que sentem os que sentem bem!
- Sonhar sentir ou sentir sonhar? Realidades avessas, jogos de palavras incompreensíveis. Eu já nem me lembro do que é ser profano e desentender, desinteressar-me de tudo...
- Eu me interesso!
- Tem cautela com teu rei flácido: de casa em casa a casa cai!  Da Torre ao tabuleiro, da mesa ao chão.
- Eu só quero me desculpar.
- E querer é o problema, meu filho.
- Como assim?
- Sem querer você se desculpa.
- Sem palavras?
- Sem.



- ... mas e ela?
- O silêncio cessa quando alguém cede.
- Não é questão de orgulho...
- Não, eu sei, é a sua inquietude.
- Ela me deixa assim...
- Quem mais peca: quem provoca ou quem cede?
- Ambos.
- Não, quem cede peca em dobro, pois se desperdiça. Os caprichos dos outros são sempre mais caros. Custam-nos a resignação, o abandono da nossa Vontade.
- O que quer dizer com isso?
- Que o perdão é inexistente àquele que o busca incessante. O que não é sincero é estéril.
- E uma carta é um ensaio?
- Suas rasuras te comprometem, meu filho.
- Eu não posso apagá-las?
- Tu não buscas Perdão, senão alívio à tua consciência.
- Você me acusa demais.
- Ninguém mais o faz, é por isso que vens me ver.
- É verdade.
- Entende filho, que o Perdão é fruto do desinteresse. É um parto, um fim por si, e não um meio. Se a absolvição é um subterfúgio para reaproximar os opostos então não há Perdão, senão apenas palavras vãs e de honra quebradiça.
- Os opostos chegam a reconciliarem-se?
- O tempo todo! De outra forma cá não estaríamos...



- O que é preciso para a reconciliação?
- Comprometimento. É o que faz o adverso ser complementar.
- Explica-me o desinteresse.
- Fazer o que tem de ser feito por saber ter de ser feito.
- Como sei o que tem de ser feito?
- Há dúvidas que quanto mais alto enunciadas mais ofuscam suas respostas.
- Mais um eufemismo elaborado para o suntuoso silêncio.
- Filho, a vida é simples: dedica ao que sabes ser certo e tenha fé nos seus valores. Interessa-te por tudo, mas não a ponto de intervires quando te convir! As coisas convergem junto àquele que trabalha em comunhão!
- Mas e o Perdão?
- Permita-te, meu filho! Têm a consciência tranquila e teus nós se desatarão! Descansa tua pena e não aborreça a moça. Há justiça, sobretudo! Sê íntegro e conceda ao Tempo a paciência que Ele tanto lhes roga!
- A espera aflige o homem.
- Quando a balança verte não há sono que reste. As dívidas saldam-se e os comerciantes saúdam-se.
- Devo inquietar-me?
- Ônus é luxo. Assossega, nada deves!
- O que é o querer?
- Minúsculo assim é simples extravagância.
- Mas há excesso que se justifique?
- Há aqueles que precisam ser conduzidos ao Palácio da Sabedoria, demasiado tolos por violarem-se de antemão. A consolação do idiota é saber sê-lo, mas só o sabe quando o é.
- Há quem saiba-se e conserve-se sábio?
- Não, quem sabe de si conserva-se em silêncio.