quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

NOVAS DIRETRIZES


Tempo Estraño sempre foi um presságio, um anúncio, uma profecia. "A eternidade anda enamorada dos frutos do tempo" - mas a maneira de amar do eterno é rude, eu acrescentaria. As realidades começam a convergir e a se sobreporem e os que têm olhos para ver admiram o CAOS PRIMORDIAL espreitando pelas frestas que somos incapazes de preencher com estas nossas crenças condicionadas. 
Vivemos em um tempo interessante em que tudo é extremamente flexível & que pequenas ilusões tomam grandes proporções e consistência de forma abrupta. A incapacidade de moldar nossas próprias vidas acaba por nos conduzir por uma distopia coletiva que dissemelha-se progressivamente de qualquer ideal longínquo que pudemos almejar algum dia. Abster-nos da forja do que somos imputa-nos à essa paranoia programada que cocria uma espécie de apocalipse para findar com os entendidos & com os covardes, ambos já vegetativos & desesperançosos em si.
O desinteresse - ou nem isso, a incapacidade de compreensão - para com a literatura presente neste blog somado com as experiências transcendentais que eu tenho vivenciado e intento em compartilhar acabaram por fazer-me anunciar a mudança que pode vir a ocorrer neste espaço. Eu, que não tenho compromisso com qualquer leitor que por aqui se aventure & que deixo bem claro que este é um exercício pessoal meu que está aberto às visitações, agora assumo alguma responsabilidade pela elucidação das consciências por meio de alguns relatos e elementos ocultistas um pouco mais explícitos do que os que já vêm se apresentando ao longo dos textos. Eu sempre me vali de uma linguagem refinada e hermética e não espero perder a poesia ao tratar do verbo impresso, mas creio que daqui pra frente as cenas serão menos romanceadas & hipotéticas, abordando a realização das ficções & o encantamento do cotidiano até que ele perca esta estética plastificada. Eu acredito que algumas das linhas que eu venha a compartilhar por aqui possam ser úteis na solução do estrañhamento e na dissipação das tempestades, estabilizando o tempo & confortando as consciências que não desistiram & nem se desvirtuaram.
A fertilidade é uma benção, mas castiga aos indecisos & aos desdenhosos. Também o descuido é um capricho. O caos é para todos, que assim seja.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Muito se Ladra às Sombras


A palavra é chave, é o acesso às inúmeras possibilidades. Evitamos o velho ditame "peça e lhe será concedido" pelo descaso conosco mesmos que nos fez céticos, mudos e adestrados às falsas percepções.

Todo comando desencadeia uma reação e mesmo a frivolidade partilha das conseqüências de sua pequenez. "Saber, Ousar, Querer, Calar". Pois aquele que se desperdiça em ladainhas acumula-se em irrelevâncias e nem mesmo o ingênuo escapa ao eco do que é.

Quem não se desafia constantemente, embota-se; em boa hora: a cegueira do gume é o medo que desponta qualquer assertividade. Palavra sem pontualidade é a verborragia que nos atrasa rumo ao essencial. A língua sela compromissos que um aperto de mão não poderia.

As ameaças, portanto, são confissões de impotência. É o manejo amador da substância literária: frases insossas e inconcretas, o inofensivo travestido em vociferações, o desespero cuspido. A falta de classe descaracteriza o perigo.
Quem quer que seja audaz para interromper o Silêncio deve ter o timbre da moderação ou imola-se ao ridículo. 

O dito certeiro é um deslumbre cantado, cuja precisão ressoa-nos eternamente em contraste com a indecisão mundana que temos como referência. A palavra imbuída de poder é sonora mesmo quando sussurrada e ressalta-se às demais pois incorpora a Voz da Razão. Adentra ao terreno do Belo pelo deslumbre que causa, mas é incorpórea ao papel, posto ser intransferível sua Presença.

É a garganta que externa a Vontade, modula a realidade e pelo Verbo anima, conduz e coordena. É a poesia a tradução da fertilidade e da espontaneidade dos diálogos da Natureza. É a alegria o resultado da compreensão de fragmentos do Monólogo Maior e é a fé a capacidade de manifestá-lo e disseminá-lo.

A harmonia é a lei. Não há o que quer que seja dissonante, tudo está em conformidade. Esta é a chave da Arte. Que cantemos, pois. Mas antes, que saibamos dançar.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Espuma


Dos respingos, excessos
Dos restos, descaso
Dos transbordamentos, a têmpera 
para lidar com o descabido.
Teu vazio contido não se compara ao
Meu Vazio contém.
Alvo feito o Nada,
Tecido cru & corpo nu
Tanto cor como vestígio,
Alquimia da extravagância:
toda sobra é matéria prima
os bons modos da Gula &
a Avareza póstuma que rege a rigidez de quem nunca riu de si.
Espelho límpido, reflexo imundo
Eu oceano, diluo o desaguar.
Uma puta maré de ressaca
& as oferendas debochadas de volta à beira de areia.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015