quinta-feira, 31 de março de 2011

Indefinível

As nuvens casam-se sobre mim.
Interpõem-se sem qualquer pudor e dão novas formas ao céu.
Minha imaginação, dotada de asas, alcança o paraíso.
E nessa altura meus olhos já foram tomados e encerram-se diante dos raios do sol que cobre minha face.
O céu se desconstrói e eu me faço daltônico: as cores perdem suas individualidades e tornam-se ilimitadas. Tenho, então, o Todo ao meu dispor.
As sombras, extintas, assim como as dúvidas, revelam-me o céu aberto, imponente em sua simplicidade.
E o despertar faz-se segundos antes do abrir das pálpebras.
E a meia constatação define o caos, indefinível:
tempo estrano

Pois nada é verdadeiro; e tudo é permitido.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Delírio

“Quer pouco, terás tudo. Quer nada, serás livre”
Fernando Pessoa


O mundo se delicia em suas entrelinhas.
Enquanto as passagens, transições, fazem-se ligeiras e indelicadas, o eterno permanece intocado.
O apogeu é atemporal. Incompreendido em essência, e relevado em detalhes.
Nem o relevar, nem o revelar.
As frestas aos curiosos, o despertar aos desapercebidos. E os despercebidos contentam-se com o palpável.
A pretensão matou a expectativa.
A palavra, desprendida do papel, difere-se da ovelha desgarrada do pastor, em liberdade. O infinito abomina descrições.
O homem, despido de desejos, depara-se com a vontade, como em um reflexo de si mesmo.
Aquele que atravessa o espelho torna-se, sobretudo, divino.
Aos demais, insuficientes em suas reflexões, sobra o fardo narcisista.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Desencontros

Quis tanto te contar o quanto tua, nossa, cena me marcou que até me esqueci o que ia dizer.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Soneto

Dizeis-me que sou um poema. Que agrado à todos, cada um com suas contentes lembranças que tiram de mim e que, afinal, em essência, não sou nenhuma destas lembranças.
Dizeis-me que sou esta poesia porque trago alegria, mas, por trás de máscaras de palavras, este sim, sou eu, triste.
Dizeis-me que me queres curto, para que possa levar-me contigo no bolso, sem que o vento ameace tirar-me de ti. Mas, querida, esqueces que a poesia é livre; e esqueces que a tristezza é complexa demais para ser curta. E que mesmo o curto não está a salvo do furto.
E dizeis-me que me queres rimado. Que ressôo como eco em teus ouvidos por horas a fio. E lhe desperto calafrios ao som das lembranças dos sussurros. E, posso sim, ser melodioso. Mas não me peças para ser métrico, que sou inconstante demais para isso.
Exigistes de mim o término em reticências, mesmo sabendo-me ser tão definitivo... E sabeis que a minha vaidade não permite um refrão extra após o ponto final.
Que, se afinal sou um poema, sou um soneto de versos contados.
Declamado com ardor
e expirado em um suspiro.