quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Outras Passagens

mais retalhos de uma história nunca escrita.


- Pois então, posso lhe pagar com uma oração?
- Minha querida, eu não sei por onde você tem andado, mas nessa terra orações não enchem barriga.
- Mas enchem a alma, e eu vejo que você está precisando.
- Pois o propósito da oração não é o altruísmo? A dedicação ao mundo? Ore por mim sem precedentes ou meios termos! Do contrário, como poderei confiar em suas preces?
- A troca é essencial e compõe a convivência humana, mesmo a relação consigo próprio é pautada na equivalência. Há quem a perverta e atribua-lhe personalidades humanizando um processo natural, mas estes pecam por não aproveitarem as oportunidades que lhe são concedidas
- É engraçado falar de desperdício, pois apenas os dizeres vazios já ilustram o fato. Afinal, você veio até aqui para bater papo? Eu tenho compromissos latentes.
- Mas senhor, eu não tenho mais a oferecer do que eu mesma.
- Mas isso basta! Aliás, quero apenas parte do todo. Estou interessado em suas memórias...
- Minhas memórias? Quer que eu lhe conte casos? Faça resumos de minha longa trajetória de vida?
- Não, isso não dá certo comigo. Eu sou muito disperso, então não conseguiria absorver nada através de suas falas. Eu gostaria de ter contato com o material para poder apreciá-lo...
- Eu não sei se eu entendi, senhor.
- Não se preocupe. Eu venho fazendo isso há um longo tempo – há mais tempo do que você habita este plano - e tem dado certo desde sempre. Em um piscar de olhos tudo se resolve! Então sua cabeça está pronta para viver o sonho puro, sem preocupações vencidas e inoportunas.
- Alivia minha curiosidade e diz-me: memórias têm um prazo de validade?
- Não exatamente. Há quem as cultive e elas permanecem vívidas, como rosas em um jardim bem cuidado. Mas não devo me alongar nesse assunto, mesmo aqui as paredes têm ouvidos e mesmo eu tenho códigos de conduta pelos quais me pauto. O importante é lhe ressaltar que estes que vivem no passado não conseguem conceber bem o presente. E de que lhes serviriam os sonhos que fabrico se não pudessem gozar-lhes plenamente?
- E aí voltamos à natureza das trocas, assunto que já discursamos...
- É... Exatamente... Uma bela troca, não é? O que me diz? Parece-me que tomar-lhe estas memórias é um ato extremamente nobre de minha parte e muito me agrada lidar com estes passados. É um preço justo, não acha?
- Acho... Diz-me, pois, apenas mais uma coisa: e o senhor? Vive destas memórias?
- Não estamos aqui para falar de mim. Além disso, um Fabricante de Sonhos vê o tempo de uma forma distinta. Agora concentre-se no seu desejo, está bem claro em sua mente? É o que você quer, não é?
- Sim. Todos os detalhes, exatamente como lhe contei. É o que eu sempre quis e nunca pensei que se concretizaria...
- Chamamos de eterno a decisão que tomamos no último minuto. Fazemo-nos decisivos apenas para ostentar-nos, iludir nossa insegurança. Distorcemos o sempre para sempre. Mas não pense nisso! Eu sou da opinião de que quanto mais pensamos, mais infelizes somos. E isso torna caro o nosso contrato... Mas não é o que queremos, certo?
- Certo... Estou ansiosa, como há muito não me sentia!
- Muito bem! Eu só preciso que você assine nessa linha.
- E só?!
- Só. Isso basta.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Salvaguarda


Quando condições são estabelecidas
um desfavorecido o é por conta própria.
O jogo está sujeito a mudanças de regras imediatas:
joga quem quer.

A PREMISSA COMO PAUTA: a delimitação das intenções confecciona um perímetro comportamental. Sendo assim:


~
Para cada pronúncia de meu nome em vão,
Um espinho que atravesse o teu coração
&
Para cada pensamento que não condiz à minha essência
A inflação de tua pestilência
&
Em cada ato do qual eu for alvo
A certeza, amarga, de que estarei salvo
~


CAOS & EFEITO: aqui, eu dito o cacife.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Perséfone


O céu me beija em gotas.
E enquanto desmorona violento ao meu redor, comigo se faz suave.
A chuva me envolve tão sutil que provoca ciúmes, me desvia de compromissos & me afasta de meu lar. Os deuses andam enamorados & não há abrigos para a obsessão divina.
Não me oculto, portanto. A insensibilidade da ligeireza se desfaz à medida que freio-me & logo me quedo estático. Esculpido sob a tempestade sou obra do desejo & a garoa me alisa mansa.
Encoberto por véus cinzas, sou mistério inefável.
Monumento embebido em meio a um Éden.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Polar


Grafava imagens com gravidade e gravava as de seu agrado. Graduado pelo humor:
agridoce.