segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Turista

Pediu-me um cigarro, eu disse que não fumava; Pediu-me um gole, eu disse que era água; Pediu-me, então, um segundo e eu quase disse que não tinha relógio, mas era ser egoísta demais, então me sentei.
Era um banco de madeira, que era para ser branco, mas descascado e imundo não fazia jus às pretensões dos cidadãos. Tudo bem, era só mais uma das inúmeras coisas que não seguiam o ritmo da metrópole: ele, o banco e ele, o turista.
A impaciência estampada em meu rosto logo se desmanchou. Não por que as palavras dele me interessavam – mesmo por que até este momento ele não tinha dito nada – mas pela feição que ele ostentava e que despertou-me alguma curiosidade. Era mais um personagem fruto do cotidiano apressado que se instaura no labirinto de concreto, e aquele fruto, mais do que maduro, jazia ao pé da árvore que eu adoraria dizê-la frondosa, mas a julgar por seus produtos preferi interromper minha caracterização.
"A vida pode ser estranha" foi como ele começou aquele diálogo. E continuou: "sabe, estar à margem da sociedade não significa nada, é apenas uma expressão. Não existe sociedade de fato, não existe um grupo que te exclua do convívio, o que existe é uma convicção comum, é um conceito enlatado e distribuído gratuitamente à quem tem alguma renda. As classes sociais nunca lutaram realmente, os ricos nunca se opuseram aos pobres e toda essa denominação comum, toda esta classificação dos outros simplesmente é fantasiosa por que os outros são uma reunião de projeções suas. Sabe, inevitavelmente está-se sozinho. Aqueles que pensam que esta vida à margem, desapercebido, é mais dolorosa do que a deles muito se engana. Chamam-nos carentes, consideram-nos privados de atenção mas só o fazem por que são eles quem querem a atenção! E nos culpam por não possuí-la! Eu não quero atenção, eu não quero ser classificado por índices e estatísticas, nem por interesses e valores. Eu não faço parte dos seus outros, apesar de que você pode me classificar como quiser. Você pode viver no seu mundo artificial e achar que suas convenções fazem bastante sentido. Você pode achar que alguém realmente tem alguma razão sobre algum assunto e pode até definir peritos para dizer quem é este alguém, mas você apenas está circundado de regras que você criou. Ou pior, apenas dispôs-se a jogar o jogo. Sabe, no fundo somos todos egoístas, radicalmente por possuirmos um ego. E, se dissolvido, nossas ações não poderiam ser classificadas, de forma que um ato meu seria um ato nosso e não haveriam fatos para serem medidos. Veja que a origem da desigualdade está na caracterização e quanto mais prolixos, quanto mais nosso vocabulário se expande, menos conseguimos nos comunicar. Pense que quanto mais grupos de outros você tiver como réus, e isso é um julgamento, maior é a sua terceirização da culpa e mais distante você estará do plural que somos. Eu não preciso do seu trago, eu não preciso do seu gole e eu também não preciso da sua atenção realmente. Eu lhe agradeço a sua pausa, pois sei que ela foi sincera. Agradeço-lhe também o sentimento de condescendência e piedade, mas recuso-o: volto a repetir, não sou dos seus outros. Falta-me algo a ser resolvido, falta-me algum esclarecimento, mas não é sobre as pessoas nem sobre a vida dos homens. Enquanto isso, vago por aqui e por ali."
Acabou seu discurso e eu estava boquiaberto, ainda perdido em suas palavras. Quando eu reparei que ele se preparava para deixar-me à sós comigo," inevitavelmente", como ele diria, passou pela minha cabeça a ideia de que eu não sabia o nome dele. Como que lendo meus pensamentos, deixou-me sua última saudação em forma de surpresa:
"Os homens e seus títulos... sabe, acho que turista é um eufemismo que me agrada."

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Egocêntrica


Saiu do banho e tomou outro. Dessa vez um de perfume. Vestiu o vestido que já estava quase empoeirado, por que passou a semana inteira sobre o sofá esperando por ela. E ela concorda que é uma grande sorte que as roupas não falem, ou pelo menos, que tenham a paciência que só elas possuem por que, de certo, ela não teria sossego ao abrir o armário, mas tudo bem.
Colocou as meias de renda e se olhou no espelho. Perfeito! Subiu no Scarpin e desfilou para si mesma e quase desanimou de continuar: queria se despir! queria se usar! desejava a si mesma – e isso era bom, era sinal de que tudo sairia conforme o planejado – e então foi em frente.
“Toalha posta, mesa arrumada, velas no lugar certo, música? Hmm... ok! bem baixinho...” a campainha toca e “Bem na hora! Acho que posso contratá-lo para esses favores mais vezes...”
Apaga as luzes, destranca a porta da frente, se dirige para a cozinha e então para a porta dos fundos. Sai de casa e para na frente da porta da frente e pergunta ansiosa “pode entrar?!”. Depois de dez segundos ela se permite girar a maçaneta e adentra pela sala de estar trancando a porta atrás dela. Aprecia o cheiro e pensa “Hmm... Velas!” e ao ver a mesa toda preparada para um jantar inesquecível, acaba se delatando:
"Mal pude esperar para estar a sós!"

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

As roupas no varal

-Parece que vai chuvê e num chove!
-E nuvem dessa cor? Cê já viu?
-Trem esquisito...
-Escuta? Né bão tirá as ropa do varal não?
-Sei não, viu? Patrão disse que precisa dessa camisa branca sequinha pra'manhã. Melhó dexá aí no chove-num-chove e tirá na hora da tempestade do que tomá uma bronca depois.
-É memo... E onti? Cê chegô em casa direitin?
-Cheguei mia fia! Mas óia pro'cê vê que já tava escuro quando eu pus os pés em casa.
-E cê saiu daqui umas cinco hora, né?
-Foi, com horário de verão, inda por cima.
-Tempo esquisito, sô...
-Estranho, né Doutor?
-Tens razão... Tempo Estraño.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Desconhecido Íntimo

Te decorei por completa. Já te vejo em todo canto e em cada esquina que decido virar e não sei se sou eu a te seguir ou você quem me acompanha. E justifico meus atrasos por essa competição de ver-te até que se perca no horizonte, longe de mim quando o sol está se pondo. E ter-te sempre tão misteriosa, a significar coisas que eu nem compreendo, coincidências que eu nem desconfio e que projeto em cada um dos teus gestos um sinal mirabolante. Encara-me mas prorroga as palavras para manter o silêncio que me atiça. Ou finge que não me vê, mas copia meus gestos, deixando-me intrigado. E está sempre tão próxima mas tão distante de mim que já não penso em fazer mais nada além de te admirar no seu sempre, e talvez único, traje negro.

Certa vez, meu fascínio compartilhei com um conhecido que disse nos ser um amigo em comum. Confessou encontrar-te também por todos os cantos e disse-me ser encantado contigo. Ah, pobre de nós apaixonados pela própria sombra!