quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Chuva

Abre o vidro por que precisa de ar. Está abafado e seu coração está disparado, portanto nada melhor do que deixar o ar fresco invadir aquele cubículo minúsculo, porém ele abre pouco para não molhar o estofado – chove lá fora.

Chuva fina, mas constante. Coreografia milenar! E apresentações espontâneas por todos esses dias de outubro. A graça do espetáculo sempre foi essa: pegar o público desprevenido e aí que se confere o que é arte de verdade! Apenas alguns sabem apreciar o espetáculo de ver o céu cair e se renovar em sua plenitude inatingível.

A brisa vem suave e envolve o corpo suado. Trás o frio da noite para dentro e em poucos instantes arromba os pensamentos acelerados e desperta o instinto humano. Ele precisa de uma blusa de frio, então se contorce no banco e estica a mão para pegar o agasalho no banco de trás. É uma blusa cinza e macia, uma de suas preferidas e, normalmente, em seu estado normal, ele ficaria em êxtase de usá-la, porém nesta noite ele prefere passar frio a vesti-la. É que o cheiro daquela mulher está impregnado na roupa dele.

No colo a carta. Ele a pega novamente e levanta na altura do olho contra a luz procurando algum vestígio de ilusão no papel. Ou isso ou qualquer outro detalhe que pudesse indicar que aquilo fosse uma brincadeira, um modo da vida lhe dar suas lições ou algo do gênero, porém, decepcionado, ele abaixa a carta e passa os olhos rapidamente nas linhas recém escritas à caneta:

A primavera trás as flores. Trás consigo a vontade. Vem curar minha abstinência e logo posso dançar.

A primavera tem suas cores. Tem suas extensões da tarde. Tem suas manias e essências e o charme do refrescar


Seus olhos terminam a releitura daquelas linhas bruscas e não têm onde pousar. As lembranças preenchem o pensamento e a nostalgia toma conta dele. Perdido em seus devaneios larga a carta sobre o banco do passageiro e procura um lugar para recostar os olhos na rua molhada sem que tenha que a assistir passar, mas nada: esta noite vai chover até o sol raiar.

E o que pode se fazer pelo homem que se apaixonou pela tempestade?

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Imprevisível

atualizado em 06/08/2012,
Raquel Guimarães.

De tanto te ler textos não escritos eles se vão, por que, antes deles, esvaem-se as possibilidades de concebê-los: perco a vontade.
Peco em adiantar-me! Tantas cenas que não serão filmadas por que eu li o roteiro para saciar tua ansiedade... ou seria eu o ansioso? Com a inquietação de quem sai à rua sempre como se fosse a primeira vez e faz com que contos clássicos soem inéditos, na avidez de ver o mundo com olhos diferentes. Renovar-me e ao redor! Ter mil possibilidades de personagens, pontos de vista, mil sensações para serem encarnadas!
Eu que abandono livros, filmes, músicas, até o velho lápis repousado sobre o abismo branco, apenas por que me escutas atenta e entretida. Ingênua, tomas meu tempo sem cerimônias e faz com que eu esqueça o papel. E meu papel, principal. Saibas: O lápis sente ciúmes de ti...
Há histórias em gestação eterna; um vazio não proposital que lamenta suas lacunas; um silêncio clamando reinar, como antes quando a criação era sagrada, ritualística. Há um mundo que deixei em espera quando simplesmente sumi.
Eu, que já era um universo tão vasto, estendido em linhas ilimitadas, numa facilidade de ir-e-vir, quase esquizofrênico, deparo-me, no fim do caminho que tomei buscando recompor meu fôlego, contigo.
É improvável que meus pés toquem novamente o solo do comum. Já não fito aqui ou ali...
E até tenho previsões do que está por vir, mas não mais me antecipo: se marco as cartas a vitória demora-se.

Sobre Escritores


É muita pretensão para um autor querer ser lido além da obra. Essa necessidade que os domina, permanece inescrita e morre com eles, sem que o leitor tenha uma noção sequer do tamanho da angústia com que este parágrafo foi escrito.

domingo, 18 de outubro de 2009

Sumidouro

Foi.
Eu não sei bem pra onde. Sem tempo, nem me despedi. O relógio parado, mas os ponteiros sempre em movimento. E me hipnotizam, e eu perco a hora, esqueço de despedir. Os olhos não fazem companhia à água que se vai no sumidouro - quem dirá ao barco. Esqueço até do último beijo, deixo passar, assim, distraído!

Marinheiro no cais, largado pra trás. A mão hasteada é a nova flâmula que dança pedindo atenção. Os olhos acompanham a água que por eles desce. No meio dos rios deste corpo, um dia cada gotinha desaguará no oceano sob seus pés e levará em líquido as palavras que não saíram pela boca. Gota por gota aumentando o rastro que deixa o meu barquinho de papel à caminho da valeta: rastro de tinta, tinta de uma carta de despedida. E despedida, ah! despedida que se faz dolorosa!
Tudo indo ralo abaixo.