domingo, 31 de agosto de 2014

Aurora


- Chovem flores e nem assim...
- Como?
- Me desculpe senhor, acho que eu pensei alto!
- Às vezes não podemos nos conter, não é?
- Eu me distraio facilmente...
- Por isso ser tão amena, menina!
- Já nos conhecemos?
- Acredito que não, mas os seus olhos me são tão familiares que me dão dúvidas.
- Que têm meus olhos?
- Você sorri com eles. De uma simpatia tão transparente que me transporta para outras épocas. Ah, que bela forma de se ver o mundo!
- Obrigada, eu acho...
- São bonitas, não são?
- Você também vê as flores?
- Sim filha, eu vejo.
- Então não é tão mal quanto eu pensava.
- Eu?
- Não! Você é muito gentil, senhor.
- O quê é então?
- A minha vista. Quero dizer, outras pessoas também veem o que eu vejo, então isso é bom.
- As pessoas olham. Ver é diferente.
- Como assim?
- Filha, existem dois tipos de palavras: as que nos fogem à memória e as que nos escapam pela boca.
- E?
- Em ambos os casos queremos dizer algo avidamente.
- Eu acho que eu nunca parei para pensar nisso.
- Pois você falava sobre as flores quando eu te interrompi pela primeira vez...
- O senhor já parou para pensar no que seria do inverno sem a florescência dos ipês? Como é que as pessoas podem passar pela praça sem se deterem a admirar o espetáculo que é a vida? Eu não consigo lidar com a ideia de ter que viver rápido, eu preciso sentir o mundo e para isso eu levo tempo. Eu desdobro cada camada e a sinto junto a mim, você entende?
- Assim é o Ver.
- Eu sou uma. Como poderiam indicar-me, narrarem-me o que há para ser visto se eu não vejo distinção entre as partes? Eu não consigo enxergar a observação senão como um processo de autoanálise. Eis o ipê a florescer, toda a maternidade e maturação. Eis-me então: menina, mãe e anciã, una mas não única; plural como me couber, até que eu me estenda e me entenda como Todo. Eu, que gesto o mundo, minha morada iluminada.
- A união como ápice da percepção. Ver é participar do êxtase divino. Um Sol para cada ventre, e cada mãe é uma constelação. O universo desdobrado em cada átomo resplandece aos olhos de quem se permite.
- E como pode haver desinteresse? Apatia é rigidez. Todo ato de resistência é uma demonstração de entropia existencial. Da mesma forma, todo estímulo externo que nos conduza a estados de consciência, prazerosos ou não, aparta-nos de nós mesmos e amputa-nos do mundo.
- Às vezes, filha, elegemos as vias mais difíceis por não podermos compreender a simplicidade da vida.
- Quando o que nos resta é permitirmo-nos e ainda assim falseamos em verdades unilaterais... Quantos são os que têm como dogma a própria liberdade e reafirmam-na ao mundo presos a tal ilusão? O exterior ilustra o interior, o liberto é notável!
- E não por que demonstre apenas beleza – pois a possui, em todos os parâmetros e com toda a subjetividade que lhe é devida –, mas por desmerecer as comparações a ponto de ser único e assim reconciliar-se com Deus. Esta é a estética da qual tratamos aqui: a luminosidade sobre a cabeça dos deserdados, a canonização do simples, pois é íntegro.
- O Belo como resultado palpável da sutilização dos sentidos. Transpessoal, intransferível e inefável; mas reconhecível e evidente.
- Eis o véu. Há o Abismo. E por trás das cortinas não há tragédia ou comédia, senão o espetáculo indistinto e indefinido ao infinito.
- É como a flor que cai da árvore.
- A tarde se estende por toda a eternidade. E as pessoas vêm e vão...

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Costelas IX


Solução sem soluços
Solidão sem mágoa
Meus impulsos, firme pulso
Eu avulsa
Verto água

Corpo leve, alma densa
Vida breve, bença vó!
Vim só vou
Numa sentença
De herança deixo a dó

Curvo o corpo ao espelho
Sou eu própria o vidro turvo
Frágil e frio, eu me assemelho
Em conselho com o vazio
Pois o atrofio ágil

Mal me tenho, dou-me tanto
Dôo em prantos, qual empenho
Aos engenhos do destino
Eis meu hino - o desencanto
Tal o divino ferrenho.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Despacho

Quanto mais sou, menos sei
Amor como Lei
E, por mim, o rei impera.