segunda-feira, 31 de maio de 2010

Rodeios


O aborto da voz,
O nó na garganta,
A queda da caneta,
O risco, a rasura.
A adoção de reticências...

Aos impetuosos o rasgar do papel, calar-se de súbito.
Aos tímidos o enrubescer;
Aos colecionadores mais uma peça, causo!

Quantas cartas já não chegaram aos seus destinatários?
Releio as palavras, agrupo meus deslizes, passo tudo a limpo.
Preocupo-me com a legibilidade: perco minutos analisando-a com olhares de estrangeiro...

“Já posso trancá-la na gaveta.”

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Habitual


Eu sou suas unhas ruídas e o arrependimento ao olhar o esmalte colorido.
Sou toda a ansiedade pelo dia de amanhã, a indecisão da roupa e o relógio implacável.
Sou essas pupilas cheias, transbordantes, que querem se derramar sobre ponteiros para que se deitem mais rápido.
Sou a última, penúltima, antepenúltima... Sou as páginas do seu caderno rabiscado na madrugada.
Sou bocejo e a incapacidade de dormir. Sou insônia e serei olheiras.
Sou eu quem atende o telefone às quatro, quatro e meia da manhã...
Do outro lado da linha só há o respirar. O velho timbre do desespero.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Da sala ao lado


Estive tão distraído que nem vi quando ela sentou-se ao meu lado. Puxou um fone da minha orelha e colocou em seu ouvido, sem a menor cerimônia. E acrescentou ao seu ato:
“Eu sempre quis saber o que você escuta, sempre quis ouvir sua voz.”
Não tive uma palavra para saciá-la, então continuou:
“Você... acredita em destino?”
“Não.”
“Por quê?”
“Seria muita pretensão acreditar em destino depois de ter forjado tantos acasos.”
“E sonhos?”
“Se eu acredito em sonhos? Sim. Que eles se realizam, talvez. Mas logo eu, tão cético, estou tendo meus conceitos desconstruídos neste exato momento...”
Foi quando ela me beliscou e sussurrou em minha orelha nua:
“Eu sou real.”
E depois de dito isso ela olhou para frente, parecendo prestar atenção na palestra que ocorria em uma dimensão completamente distinta da nossa. Eu estava tão distante do mundo que tive de ser censurado por um olhar que ela me lançou para que eu voltasse ao auditório. Uma multidão de alunos tentava assistir a palestra, mas eu já não tinha o menor interesse pelo que o palestrante tinha a dizer. Ao invés disso eu só queria escutar suas palavras. Foi quando eu arrisquei uma pergunta em voz velada:
 “Quando foi que te vi pela primeira vez?”
“No corredor.”
“Provavelmente, é onde tudo acontece.”
“Um mundo de semi-conhecidos em convergências de intimidades.”
“E cada vez somos mais impessoais.”
“Mas por falar naquele dia, eu achei que nossos olhos nunca se desgrudariam.”
“Eu hesitei para falar com você. E achei que te veria nos dias seguintes.”
“Eu te procurei! Não sabia sua sala, seu curso e nem os lugares que você frequentava. É claro que depois de um tempo a gente vai descobrindo tudo, mas havia a ansiedade e tudo soa tão demorado...”
“Eu já sabia tudo sobre você, mas a verdade é que eu tive receio de te ver de novo. Pela primeira vez eu não soube como agir, estive tímido.”
“E a sua solução foi tentar me evitar? Muito bom saber como você lida com conflitos!”
“Nunca foi uma solução.”
“Eu culpei fins de semana e feriados. Quis modificar o calendário, adiar recessos e excluir dias vermelhos, tudo para que minhas chances de te ver aumentassem.”
“Irônico era desviar de minha rota habitual só para te ver passar e não ser notado.”
“Um esforço descomunal para fingir não te ver! E confesso que por vezes valia a pena, mas eu sempre me arrependia depois.E de consciência pesada, passava o dia fantansiando o amanhã.”
“Pensando em como você estaria vestida, no seu humor...”
“Apostava comigo mesma as suas músicas, mesmo não tendo nenhuma dica. E me quedava curiosa, quieta com meus pensamentos, estranha às minhas amigas.”
Sabe, é difícil conciliar a minha euforia com o silêncio que o auditório demanda. Ter um mundo para te falar e um nó na garganta.”
“De fato, estamos atrasados para sair daqui.
“Eu adoraria.”
“Mas antes você tem que me responder novamente...”
“O que?”
“Você acredita em destino?”