domingo, 27 de março de 2016

Resolução

Nada é Necessário

Mas,
apenas se você puder
compreender
que esta 
espécie de
indiferença
cósmica
é a 
chamada
Liberdade
pela qual
morrem
sem
experimentá-
la.

De outra forma,
tais termos
não se aplicam
e as 
configurações 
de necessidade
permanecem 
inalteradas.

Tivemos que nos ajustar à sua percepção para que você pudesse enxergar além
aos poucos...


quinta-feira, 17 de março de 2016

Um Relato do Espontâneo

Dos Objetos Que Nos São Presenteados


Eram 16:00 horas da tarde de uma quarta feira e eu havia pegado serviço mais cedo. Tinha me preparado para sair de lá e ir ler ou escrever qualquer coisa em uma praça.
No serviço eu vi dois pedaços de corda que a gente não ia usar e decidi levar comigo para fazer alguns artesanatos. Então, ao sair do trabalho eu fui para uma praça, mas não me demorei 20 minutos lá por que o clima não me agradou. A mesma coisa numa segunda praça até que eu decidi ir ao Parque das Mangabeiras já que eu estava do lado e não seria perturbado.
Ao chegar qual a minha surpresa em descobrir que haviam milhões de bambus plantados? Eu já estava procurando por um lugar em que eu os pudesse colher na natureza sem ser incomodado e sem incomodar ninguém. Andando pelo parque eu cheguei num lago em que desaguava uma cachoeira e havia uma mulher vestida de Oxum(!), um ogan com um pequeno atabaque, uma criança que estava sendo abençoada pelo orixá e alguns fotógrafos registrando o ensaio que tinha um quê de ritual. Já achei aquilo tudo maravilhoso por que tenho um grande carinho por Oxum, uma das Mães mais presentes em minha coroa. Para completar eu me deparei com um bambuzal amarelo de exemplares grandiosos que envergavam por cima de outra cachoeira demonstrando toda sua força e seu poder de flexibilidade. Não é preciso dizer que por ali me quedei querendo meditar um pouco e absorver aquela energia maravilhosa que estava se dando naquele momento singular.
Sentei-me num toco de árvore que mais parecia um trono e meu corpo começou automaticamente a responder àquela energia grandiosa pela qual eu estava cercado. Sereno eu ia me entregando à introspecção e incorporava aquele estado de pura contemplação; diluía-me no todo, grato pelo dia que me fora presenteado daquela forma. 
De repente eu olho para o curso de água que se formava da cachoeira - na qual eu estava sozinho(!), diga-se de passagem - e vejo um bambu verdinho, exatamente da espessura que eu procurava e um pouco mais longo do que eu estava imaginando. O bambu simplesmente estava encalhado no curso da água, recebendo toda aquela energia do ambiente e ainda que imerso na água, estava verde!
Assim que eu bati o olho nele eu proferi "esse é meu". Agradeci o presente ao orixá e me dirigi ao riacho. Saudei o lugar, molhei minha cabeça na queda d'Água, lavei minhas mãos, lavei meus Instrumentos que estavam comigo e pedi licença ao bambu para recolhê-lo. Quando o peguei já me antecipei: tenho que fazer alguma coisa para passar despercebido pelos guardas do parque. 
Eu já sabia que aquele era um presente e que, portanto, eu o levaria em segurança, só não sabia se eu teria dores de cabeça, então eu chamei meu Exu e pedi para que ele abrisse os caminhos e chamei alguns guias para cuidarem da minha invisibilidade. Lembrei de uma técnica que eu não usava há muito tempo e a empreguei para diminuir a atenção de mim - um homem grande com um pedaço de dois metros e meio de bambu nas mãos.
Passei pelas ruelas do parque todas vazias e assim que cheguei na guarita do guarda, na entrada do parque, apressei o passo. Nessa hora eu sentia que cada pisada minha era equivalente a um terremoto, então acho que ninguém se colocaria na minha frente, embora eu nem tenha visto sombra do guarda.
Sai do parque um pouco nervoso, andei até a caminhonete e coloquei bambu na caçamba. Por sorte eu tinha pego as cordas mais cedo por que descobri que justamente no dia não tinha nenhuma no carro. Amarrei a vara na caçamba, num improviso rápido e me mandei do lugar, agradecendo pela experiência e pelo presente que me renderá o cajado que eu estava planejando. 
É incrível pensar que alguns objetos nos escolhem e que as situações se administram na inteligência sublime para colocar cada coisa em seu devido lugar. É maravilhoso poder ver com tanta nitidez o universo de manifestando com vida própria e isso nos incluindo beneficamente. Fazia algum tempo que eu não tinha uma experiência de Poder tão singular e é bom poder registrá-la assim, da forma como eu a percebi. Assim Foi & Assim É.

terça-feira, 8 de março de 2016

DHAMMA



Aos poucos eu vou relembrando coisas que eu nunca vivi e vou entendendo melhor este que está além de mim, mas que ainda sou eu. É como se a temporalidade estivesse se fragmentando e também toda a minha visão de mundo, linear & parcial. Brotam novas personalidades complementares & esclarecedoras do composto que animo, já em dúvida do que sei de fato. Ou de como o sei.
É como se as minhas iniciações fossem apenas preliminares; é como se toda a trajetória que vivi, nas diversas passagens por aqui, convergisse neste processo de desconstrução de tudo o que houve até então. 
Uma espécie de lucidez repentina me acomete, vez ou outra, revelando o desdobramento de causa-e-efeito de múltiplas situações que me cercam. Passado & Futuro transparentes, entrelaçados, expostos, desfiando as vendas & desafiando a lógica comum. 
Eu pareço estar desaprendendo meus conceitos enlatados que prezam pela manutenção de um eu-social divergente do que Sou. Este processo de diluição das certezas, este tal desapego dos automatismos, conduz-me a uma retomada de consciência dos cotidianos, integralização das minhas pessoas paralelas & a reforma de hábitos antigos que se tornaram insustentáveis.
De repente a moral pesa, agora nítida e não mais relativa. Eu diria que a maturidade é imune à auto-retórica. Nem persuasões, nem sublimação ou eufemismo. Alívio é fazer o certo acima do dualismo.
Chega um ponto em que livre-arbítrio & fortuna tornam-se a mesma coisa e então não há o que não seja sagrado: é a reconciliação.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Paradoxos da Virtude

Estavam reunidos em torno de um homem que enrabava uma cabra com gosto:
- De sumo sacerdote a pastor convicto.
- A vida é da ordem das ironias. É assim mesmo: os altos e baixos das encarnações...
- Eu não acredito que o véu do esquecimento seja tão espesso assim.
- Isso não é só sobre esquecimento. É mais sobre as disparidades da consciência.
- Não sei se lhe compreendi.
- O ser humano é volátil, seu comportamento é inconstante e por ser facilmente influenciável, torna-se contraditório e cumpre a Impermanência de forma peculiar.
- Isso faz da dualidade seu maior desafio.
- Faz da perseverança a virtude do sábio.
- Como aquele tolo que persiste em seus disparates e ilumina-se.
- Mas o homem, que se entrega à qualquer distração diante do ócio, prova que a insegurança é o instinto que lhe guia, que lucidez alguma compensa a solidão da carne e faz parecer seus acertos mais distintos meras coincidências.
- No entanto não o são. E é isso que os faz incríveis e imprevisíveis, reservando-lhes o direito de a qualquer momento recobrar a consciência do que são e retomar seu progresso, seu ponto mais alto.
- É interessante essa plasticidade da existência. Que ao mesmo tempo que tudo cumpra a ordem mais perfeita, ainda assim pode ser reorganizado para uma ordem ainda mais sutil...
- ... e então compreender ainda maiores aspectos da Unidade.
- E pensar que um dia chamaram essa liberdade de perdão, que condicionaram-se à permissões alheias para poderem exercer suas virtudes...
- É uma pena que a vergonha os iniba de reformarem-se e acabe por lhes imputar uma vida de remorsos recaídas.
- Mas assim são os covardes e esses são os altos e baixos da vida dos quais falávamos. Deixemos que assim seja, a experiência humana de fato constitui-se de paradoxos.
- Bem, suponho que não devamos intervir neste romance, portanto.
- Deixemo-los. Sabe, nós devíamos comemorar.
- O quê exatamente?
- Essa época em que ainda não existe internet. Você já deu uma olhada nos amanhãs?! É tanta gente justificando resignação e aplaudindo a infertilidade que eu fico desconcertado...
- Eu pensei que você estava falando de outra coisa.
- O que?
- Vídeos de homens enrabando cabras.
- AH NÃO!
- Pois é...