segunda-feira, 26 de abril de 2010

Borrão

Foge do mundo.
Mas volta arrependido, cabisbaixo e sem palavras de consolo.
-Mas não trouxe nenhuma?! Não vistes tanta coisa?!
E segue com as bochechas rosadas e com a voz lhe escapando. Segue por seguir porque não sabe aonde ir.
Memória fraca. Talvez tudo gravado, mas, sendo assim, então, era péssimo em transpor!
E transpirava cenas de filmes envelhecidos. Filmes mudos, música clássica!
Ah! E suava a realidade para fora de si e fazia a multidão confundi-lo com uma ilusão.
Provocava o público só de subir no palco! – trabalhava, para deleito geral, nas vinte quatro horas que tinha o dia e nos sete dias que tinha a semana.
Afinal, era só uma atração. Uma atração à parte, mas não deixava de compor o espetáculo.
E vivia a questionar a ironia de lágrimas escorrerem pela face de um palhaço.
Devia parar: estava borrando a maquiagem.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Liberdade Condicional

Acordou ainda exausto, de boca seca, dor de cabeça e sem saber o que pensar. Cheirou a camisa, desabotoou-a e livrou-se dela. Depois dos sapatos, que já o incomodavam. Ele sempre ficava intrigado quando dormia completamente desconfortável como daquela forma, pois normalmente o sono lhe faltava e era um suplício fechar os olhos.
Apenas de cueca, manuseou suas roupas procurando vestígios de batom, bebida ou os furos de cigarro dos seus amigos, mas nem cheiro tinha. A noite anterior era-lhe vaga e os sinais do dia seguinte que costumavam dar-lhe pistas de por onde andara hoje estavam tão escassos que ele se pôs a meditar no que poderia ter acontecido.
Sua primeira reação racional foi checar seu bloco de notas, e num ímpeto buscou-o no bolso traseiro esquerdo de sua calça. Era o lugar mais seguro que poderia ter encontrado para guardar aquelas folhas que valiam ouro e o alívio transpassou em seu rosto quando tateou-as em seu lugar habitual. O mundo já podia cair lá fora, pois tudo estava em ordem. Até então.
Ele nunca estivera à venda. Talvez este fosse o principal motivo por ser tão mal visto na vizinha e por ter adquirido diversos rivais em tão pouco tempo. Nunca fora um novato nem imigrante, mas sempre vivera à margem dos ciclos sociais tradicionais e tinha acesso à informações almejadas por "gente de bem". Logo, isso se tornou um problema.
Levantou-se de seu colchão e deu alguns passos até o banheiro. Seu lar consistia em um aposento apenas e o lavabo anexado, portanto o banheiro era seu cômodo ritualístico e era ali aonde costumava virar as noites pensando quando tinha preocupações a serem resolvidas. A lista de telefones ainda estava sobre a pia e deu-lhe uma leve ideia do que fizera na noite anterior.
Talvez tivesse saído atrás daquele nome, talvez apenas encarara-o incerto do que sentia por aquela entidade. Dentro da lista, um papel cheio de rabiscos aleatórios que apenas indicavam surtos de alucinação e não davam qualquer prova mais concreta.
Ele se cercava de atos subliminares a fim de mascarar o que sabia, até que pudesse agir e ele mesmo se perdia nessa confusão, mas estava acostumado a viver em meio ao caos. Sempre que estava próximo à concluir alguma linha de raciocínio ele se deparava com a elucidação dos mistérios, como se sua mente revisasse cada amnesia e noite perdida e lhe desse uma síntese de suas aventuras inconscientes. Não era o método mais eficaz, mas era o menos dogmático que ele conhecia e por ser tão cifrado agradava-o, já que, em sua paranoia, vivia sob os olhos do Grande Irmão. Sua liberdade, ainda que nunca tivesse sido preso, sempre fora condicional.
Olhou ao redor: seu coturno ao lado do colchão, o suspensório largado no caminho, suas gazes por todo aposento e diversos tipos de garrafas de bebidas, algumas pela metade e outras vazias e tombadas. Apesar da bagunça, seu quarto estava relativamente limpo e abrigava apenas o essencial para que ele pudesse viver ali. A verdade é que não costumava passar muito tempo em casa, mas depois daquele corte que arranjara na altura dos olhos ele passara a se trancar até que o período crítico de cicatrização passasse. Talvez este era outro indício da noite anterior: não havia saído, tinha permanecido em casa na companhia das garrafas.
Sentou-se sobre o vaso sanitário e pôs-se a folhear a lista de endereços, interessado nos nomes circulados e anotações de rodapé. Talvez ele tivesse algumas chaves anotadas em seu caderno de folhas de ouro; talvez não estivesse tão perdido como pensava estar.
Levantou-se do vaso e mirou-se de passagem no espelho: sua cabeça não apresentava um fio de cabelo sequer e sua barba aguentava esperar mais um dia para ser feita. O corte em seu rosto é que não estava em ordem. A marca lhe dava arrepios e ainda doía só de ser olhada, portanto desviou os olhos.
Buscou o caderno no bolso da calça e folheou-o com interesse. Releu suas últimas anotações e de repente deu-se conta de que algo estava muito errado. Ele realmente não saíra e estivera dentro de casa a noite toda, e toda aquela sensação de não se encontrar ao acordar ainda o incomodava, mas era algo além disso: alguma coisa não lhe cheirava bem. Ele pensava ter pulado algum passo, esquecido de checar algum fato e estreitou os olhos procurando qualquer detalhe fora dos conformes em suas próprias coisas, mas não avistou nada de estranho. Quando voltava para o banheiro, entretanto, percebeu uma sombra no vão da porta de entrada do apartamento, do lado de fora de seu quarto.
Talvez, afinal, ele não tivesse saído de casa por que não tinha necessidade de fazê-lo. E se tudo estivesse próximo demais dele?
Foi até a janela grande do apartamento, uma das únicas vantagens e motivo principal de ele gostar do lugar aonde morava. Espreitou o movimento exterior e tudo andava em seu ritmo normal. Seu coração é que estava descompassado e ele precisava tomar alguma atitude.
Vestiu o jeans surrado com toda naturalidade do mundo. Manteve a calma e dobrou a barra da calça e colocou o coturno. Amarrou forte os cadarços vermelhos, abotoou a camisa e levantou seus suspensórios. Foi até o banheiro em passos contidos para não fazer muito barulho e tomou um largo copo d'água. Antes de abrir a porta, voltou-se até o travesseiro e buscou sob ele seu anjo da guarda: tinha em mãos um enorme e reluzente soco inglês, objeto de sorte e "fiel", como ele denominava. Armas de fogo não eram de fácil acesso e ele não era a favor desse tipo de intervenção, portanto usava-se do que ele achava mais justo.
Vestiu a socadeira com um contraditório sorriso sádico e mirou a sombra à sua espera. Dirigiu-se até a porta e girou as chaves devagar: nenhum movimento. Abriu a porta num estrondo preparando-se para se defender quando deparou-se apenas com um livro grosso depositado sobre o tapete de boas vindas. Riu-se da situação e leu o bilhete num garrancho áspero: "quem procura, acha."
Pegou o livro, abrindo-o na primeira página e lendo-o enquanto entrava de volta para seu lar: "Os mistérios solucionam-se sozinhos, mas é sempre preciso um nome para se creditar. Às vezes um homem tem de fazer seu trabalho para sobreviver, e às vezes esse homem é o único obstáculo no trabalho de outros homens. Isso acontece sempre quando algumas pessoas têm fontes de informações que outras não têm e são mesquinhos demais para compartilhar o que possuem. No caso..."
Nem viu a sombra que se aproximou às suas costas. Teria de adiar a leitura, de repente tudo fica escuro.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Imperfeito

chamo à este "clássico" por eufemismo.
mas eis a versão mais condizente:
“Que queres?”
“Que me tomes por completa!”
“Já não és mais nada! Já não mais existes! Podes me entender?”
“Não, não posso! Que te fiz?”
“Não fez! Nunca existiu!”
“E que faço em tua fronte?!”
“Perturbas-me! Somente isto! Pare de me atormentar, me seguir pelos cantos, que já não consigo mais vê-la em cada esquina!”
“E me vês tanto assim?! Que nem mais consigo sair de casa se não em tua presença! Que minhas expectativas são encontrar-te aonde quer que eu vá! Que a Lua vem me escutando dia e noite!”
“Contas tudo a todos! A cidade chora pelos teus arrependimentos! E, com tanta maquiagem, faz até parecê-los sinceros! Lua! Que Lua?! Que esta já não me visita há muito!”
“E a noite deixou de aparecer por aqui?”
“Desde você.”
“Desde mim? Para que complicas tanto assim?”
“Por que eu sou assim: complexo – por natureza.”
“A complexidade pertence ao ser humano! E há de se gostar de si próprio do modo como és! Do modo como eu te gosto, amo!”
“Amas? A tantos! Que te culpas a vida pela crueldade da dúvida, da escolha!”
“De estar confusa!”
“Sempre! E consigo própria!”
“E tuas outras mulheres?!”
“Que têm?”
“Quantas já não adoeceram de tanto pensar em ti?! Quantas já não passaram cabisbaixas por mim e eu não soube que aquilo era você?! Que o caos é teu sobrenome e te orgulhas disso!”
“Que o caos é meu sobrenome e me afeta também! Que me distancio do mundo para não afetá-lo com minhas lamúrias, para não levar problemas a quem me tem ao lado! E é por isso que nem te enxergo mais!”
“Tens, então, piedade de mim?! Juras que não me queres para me poupar?! Que me evitas para me ter sorrindo?!”
“JURO!”
“E sabes que não sorrio mais por ti?! Que tanto te esperei! De boca fechada; e olhos também! Para poder imaginá-lo ao meu lado nos instantes em que eu sabia que nem te lembravas de mim!”
“Sempre te tive comigo!”
“E agora não tem mais!”
“Que sua espera terminou! E, então, a escolha lhe coube!”
“Te orgulhas, Clementine?! Clementine Kruczynski! A apagar o que lhe convém! A assassinar as marcas ao seu redor por ser mimada demais! Que não sabes se domar, que se droga de tecnologias, ou mesmo do álcool, bem sei, para realizar o que, por si só, és incapaz!”
“E ainda assim falhar.”
“Porque me pertences! Porque não deves desperdiçar o amor! Porque sabes que teu orgulho contradiz teu coração!”
“Despedaçado.”
“Não mais.”
“Como?”
“Nada.”
“Nada?”
“Esqueças... Esqueças! Esqueças, entendeu? Esqueças o mundo! Esqueças o pudor, esqueças o amanhã! Esqueças teu orgulho, teu choro, não, nada disso existiu! Esqueças da hora e de qualquer compromisso se não este que tens comigo! Esqueças de tudo e só te lembres de meu rosto e de meu corpo. Esqueças que tanto me perguntou e esqueças de te preocupares com a forma como isto acaba!” Esqueças que leu estas linhas e esqueças de tudo o que tu tens a comentar! Esqueçam das vírgulas que pontuam sua mente e do blog em que viu todas essas frases entre aspas! Esqueçam meu nome, minha assinatura, a foto! Esqueçam da data, até mesmo da hora, do que está escrito embaixo...

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Loucura

Falávamos de sonhos na noite escura.
Falávamos de sonhos sem ter sonhado noite passada.
Falávamos, despertos, de sonhos que sonhávamos ter.
Falávamos nós dois, mas sozinhos em cada um.

Falávamos de garotas, falávamos de nós mesmos.
E do contentar-se com a companhia – de si próprio.
E da insônia que se arrastava mais uma noite.
E só não falávamos de tempo por que já havíamos o apostado.

Falávamos de guerra, da loucura que vinha vindo, do vinho que se esgotou.
Tudo para não pensar no tédio que nos assombrava.
Dois garotos trancados no escuro.
E de repente são três batidas na porta de madeira.