domingo, 28 de julho de 2013

Oratória



Os homens usam de palavras bonitas
para ilustrarem seus caprichos
contrários às leis da natureza,

mas calam-se ao depararem-se
com o silêncio universal,
que é a linguagem dos anjos -

tão bela quanto irrefutável.


segunda-feira, 22 de julho de 2013

Ritmo


- Houve uma época em que eu achava que tudo isso era um grande desperdício...
- Tudo isso o quê? A feira?
- Não só a feira, a vida como um todo. As pessoas, as artes, o trabalho, tudo. Houve um tempo em que eu não via sentido nas coisas senão em fazer exatamente o que eu quisesse, da maneira como eu quisesse e no tempo em que eu bem entendesse. Achava que a vida era muito curta e a última coisa que eu queria ser era um mártir.
- A inconsequência é o combustível da juventude. Isso é normal, as grandes personalidades passam por essas turbulências...
- As grandes personalidades são apenas mais um desdobramento dessa mesma mediocridade. Aliás, só o fato de serem grandes personalidades já é o suficiente para ridicularizá-las, quando a expressão ingenuamente nos diminui! Penso eu que quem é grande não subjuga ninguém, muito pelo contrário.
- Eu só quis ser gentil. Você sabe, não há neste mundo que justifique o remorso...
- De fato. Mas já parou para pensar o quão engraçada a vergonha é? Cumpre seu papel tanto, por oras, restringindo-nos, quanto, por outras, impelindo-nos a reviravoltas.
- E os tímidos nunca experimentaram um vexame, isso que é ironia!
- Pois nessa época eu pensava que as personalidades deviam ser equilibradas, quase como num comunismo emocional. E hoje vejo o quanto isso nos tornaria impessoais e, consequentemente, estáticos.
- Então me conta o destino do garoto niilista com seus desvairos hedônicos e qual a vergonha que marcou a reviravolta em sua vida.
- Bem, eu era apenas um rapaz que havia se deixado mimar pela vida. Não que eu tivesse condições de possuir muitas coisas, não foi no sentido material em que fui mimado, mas no filosófico estritamente. Eu me chamaria de idiota sem muitos rodeios. Sustentando uma espécie de arrogância universal, coletiva, um antropocentrismo maquiado de descaso. Eu vivia a minha existência limitada sem me dar conta de que a mesquinhez amargava o fruto que tanto me apetecia e do qual eu bem dizia sem de nada desconfiar.
- Mas o amadurecimento é inevitável. E faz com que provemos novos sabores.
- Ou pelo menos refina nosso gosto. Sim, isso era o que eu ignorava. Infeliz de mim naquela imobilidade que é superficialmente confortável. E eu não sabia, não enxergava a evolução inexorável, e por isso me deleitava vegetativamente. Sabe? A transformação é uma fatalidade cuja resultante é a liberdade. Mesmo os paradoxos respeitam a impermanência, quem dirá um verme pretensioso.
- Ei! Não seja tão rude consigo. Agredir o seu passado é amaldiçoar o seu porvir.
- Perdão, acho que eu me exaltei um pouco! Pois bem, talvez fosse radical a minha posição e talvez eu soubesse que era diferente dos demais. Eu me importava com o aproveitamento, eu cultuava o meu livre-arbítrio e eu não achava que as pessoas comuns pudessem entender a minha posição, até me dar conta de que a grande maioria da população partilhava das minhas ideias. À medida que isso se confirmava, o fruto que me era tão prazeroso apodrecia e já não me deleitava. Foi a primeira vergonha que me fez rever meus hábitos.
- E aqui temos a reviravolta?
- Sim, a primeira delas. Foi quando eu conheci o significado de responsabilidade social. Ainda muito teórica, mas já distante do dicionário e dos livros que tentam decodificar o termo, eu senti o primeiro sabor daquilo que nada mais era do que uma ramificação da compaixão simples e pura.
- Compaixão diz muito sobre evolução.
- Também sobre grandes personalidades.
- Acho que eu estou começando a entender a sua história. Continue, por favor.
- O antropocentrismo coletivo ao qual eu havia me referido foi começando a se diluir a medida que eu vislumbrava que a evolução tinha seu ritmo próprio e que eu começava a marchar em sinergia à ela. Eu começava a entender que a humanidade, em sua maioria, era arrastada por esse desenvolvimento que era a média entre quem se esforçava e quem se deixava levar. Finalmente eu começava a me sentir útil, pensando em como eu poderia auxiliar a sociedade do meu jeito.
- Aí vem a raiz da palavra política, não é? Relacionamentos, organização, administração...
- Sim. E eu comecei a me envolver tanto com a tal responsabilidade social que eu julgava conhece-la demasiadamente. Aí vem a época em que eu deixava de ser um arrogante passivo para me tornar um arrogante ativo, descriminando aqueles que eu não acreditava acrescentarem à evolução do mundo. Nesses anos, mais precisamente, foi que eu desacreditei nos demais. Foi a época em que eu era amargo e desgostava da feira, do trabalho, dos estilos de vida diferentes dos meus e, principalmente, das ideias opostas.
- Um “revolucionário”.
- Com ênfase nas aspas.
- Claro, só para ser simpático.
- Pois se antes eu era um idiota, agora eu era um chato. E essas descriminações atuais já deviam ter sido superadas, mas eu as coloco aqui apenas a título de ilustração da minha pessoa. De forma alguma eu gostaria de causar algum mal-entendido!
- Sim, eu lhe entendo! Só me dói que você criticasse a feira!
- A feira tinha lá seu papel social, e era um meio dos proletários sub-existirem, mas era uma atração estritamente burguesa. Falo no passado, por que essas seriam as minhas palavras da época. Eu não deixei de pensar isso, apenas não manifesto minha opinião com desgosto, com o descaso característico.
- E o que houve com o pseudo revolucionário materialista e prepotente?
- Esbarrou-se com a postura. Foi quando eu percebi que a responsabilidade social que eu venerava estava imposta a todo cidadão e participava de todo ato construtivo, seja no âmbito público ou privado. Foi quando eu percebi que o cidadão que eu chamava analfabeto político e que era inconsciente de sua exploração poderia contribuir mais à aclamada evolução do que um mero militante verborrágico, por que ele fazia jus à sua essência. É claro que eu vi que a grande maioria estava preocupada apenas consigo mesma e que não havia uma intenção de revolução ou ao menos de fazer algo pelos demais, mas eu vi que o desenvolvimento regia seus atos organicamente, mesmo que essa força não fosse do conhecimento deles.
- Como assim? Agora você está colocando Deus na história e atribuindo-Lhe méritos pela sua redenção? Você se converteu e agora vê propósito em tudo, aquele fatalismo do qual falávamos há pouco?
- De forma alguma. Quando deparei-me com a postura, eu senti vergonha de tentar ser o que eu não era. De fato eu me preocupava com os demais mais do que eles próprios, mas eu fazia um esforço descomunal para manter ideais e eu não estava me sentindo sincero comigo mesmo. A segunda reviravolta me fez perceber que há outras formas de atuar na mudança de concepção das pessoas e contribuir com a evolução sem precisar ser rude, prepotente ou preconceituoso. Foi quando eu percebi que havia algo que eu podia fazer que se encaixava perfeitamente nas minhas necessidades e vontades.
- Mas você atribui essa descoberta à providência divina? Você acha que isso é um sinal de Deus para você e essas coisas?
- Nós não estamos aqui para discutir crenças, e isso foi uma das coisas que eu aprendi quando deparei-me com a postura, mas como estamos apenas os dois aqui e já nutrimos, eu presumo, de uma certa intimidade, deixe-me esclarecer-lhe alguns pontos?
- Eu ficaria feliz.
- Se cada uma dessas pessoas da feira se encontrassem no exato estado de espírito em que eu me sinto, e talvez ele seja indescritível, mas você pode tentar imaginá-lo, você não acha que a convicção delas em estar movimentando harmonicamente a engrenagem do desenvolvimento é o suficiente para supormos que isso é realidade? Eu quero dizer: imagine que nada disso é real e que a única coisa que importa é o estado de espírito delas. Se todas elas vibrassem satisfação acho que isso seria o que a gente chamou de responsabilidade social, não é?
- Sem dúvida alguma.

- Acho que o livre-arbítrio se refere muito mais às suas crenças do que aos seus atos. Sabe? Você pode chamar do que quiser e mesmo as palavras são limitadas. Só não subjugue ninguém por que isso é colocar-se abaixo dos seus próprios conceitos.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Sugestivo

Carlos havia se cansado da timidez. Eram companheiros, ele bem sabia, e honrava a dádiva da invisibilidade como podia, mas quando viu-se passar desapercebido até pelos seus próprios pais, viu o fardo que carregava.
Era um garoto bastante observador e não ser notado nos ambientes era um benefício, porém ele estava certo de que não queria ser uma sombra pelo resto da vida. O voyeurismo até tinha suas vantagens, mas Carlos buscava interação, algo mais dinâmico. E foi pensando em como poderia socializar-se mais facilmente que encontrou uma solução bem-humorada: incluiria o mundo que o cercava num jogo de esconde-esconde.
A decisão de Carlos não o fez mais perceptível, mas estimulou-o a lidar com as pessoas que só o notavam tardiamente no mesmo local que elas. Por vezes, ele já dividia o ambiente com alguém há horas e só então vinha o susto de estarem em sua presença: “Ó! Você está aí?!”.
A surpresa das pessoas o divertia e ele imaginava como elas podiam se distrair tão facilmente ao ponto de não o notarem de nenhum jeito. Havia quem entrasse e saísse de uma sala sem sequer vê-lo e estes ele tomava por perdedores. Quanto aos outros, os que se davam conta do garoto, considerava-os bons jogadores e respondia comicamente às suas interjeições: “Não há nada que se possa fazer, eu sou onipresente!”.
Dessa forma, Carlos, apesar de desapercebido, já era figura notável e comentada entre os frequentadores de bibliotecas, cafés, lojas e outros ambientes em que os olhos pudessem pregar peças e fazer estes truques de ilusões de ótica que são as distrações em geral. O garoto ganhou um tom desinibido e passava a expressar sua irreverência, sem se preocupar com sua timidez. Enfim, já não havia espaços para ser anônimo.

Foi em um belo dia, no entanto, desses em que as ironias se confundem com convicções, que Carlos acordou um tanto estranho. Alegava sentir-se em muitos lugares ao mesmo tempo.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Conduto

Quem foi que se perdeu em meio à minha selva e acabou emaranhado em meus galhos tortuosos? Fez-se mais selvagem que o mais estranho personagem e aderiu ao jogo perigoso.

Quem foi que, atordoado com a frase bem tecida, recriou a sua vida em detalhes rigorosos? E acabou por ver-se pontuado com esmero, e no que achava leviano viu o quão laborioso.