quarta-feira, 30 de junho de 2010

Dois minutos de conversa

uns dois minutos de conversa viriam a calhar.
claro que para uma conversa de esquina está muito bom: um assunto rápido, comum, público.
mas se as palavras se emendam e vão puxando outros temas, tantos que nem cabem no imaginário por serem espontâneos demais, daí eu sugeriria uma cafeteria onde as almas se acalmam.
penso se tratarem de alívios e simplesmente isso. Que garçons são charmosos a carregarem uma xícaras de café e as cadeiras são poltronas em um fim de tarde. E, ah! qualquer papo-furado é poesia por aquelas bandas.
E nos chamam de poetas quando escolhemos nossa mesa...

domingo, 27 de junho de 2010

De mãos vazias

Recebeu-me em seu quarto vazio no meio da noite. Vivi de visitas inesperadas ao longo desses últimos meses. E ainda que, agora, de volta ao lar – devo acrescentar, por tempo indefinido – minha cama me estranha e se murcha ao receber meu corpo encolhido na madrugada gelada.
Sussurrou-me algumas palavras confortantes entrecortadas pela boca apoiada nos joelhos. Sentava-se no encontro das paredes, ao lado do espelho, mas o evitava com certo repulso. A cabeça baixa já não era novidade e as histórias que um dia se fizeram de sonífero agora, todas esquecidas. Resolveu se desfazer delas por completo. E ali estavam, nas páginas amareladas, rasgadas no chão do quarto.
Quase nem fico. Que o passado bate forte e se perco o controle sou eu o dominado. Mas o tenho, meu anfitrião, de volta à origem, rendido, como um garotinho em plena prenda no canto da sala de aula. Que devaneios o devoram e o tempo o humilha, por castigo ou simples prazer.
Apesar de aflito, mantenho-me calado: sei que o Deus do Tempo é imune a desesperos prolixos e que sou só mais um tolo embriagado posto na fralda da noite. Mas sou todo perguntas em meu recordar: desde a ligação surpreendida pela insônia de meu companheiro ao meu auto-convite. Quem me respondera diante ao telefone?
E quem era mais próximo de mim? Aquela criança resmungona e teimosa ou o indivíduo que possuía meu respeito? E, afinal, não eram os mesmos, idênticos, embalados no mesmo corpo magrelo e de baixa estatura?
O espelho, ignorado, gritava as respostas e me expulsava: que com a consciência há de se lidar sozinho e minha presença era, além de ineficaz, constrangedora.
Que o silêncio permaneça. Peço licença apenas com o ranger da maçaneta e meus passos tortos, cambaleantes quase como os pensamentos, nos tacos de madeira.
Deixo-o em paz e volto-me para a rua imaginando a reação de meu amigo no dia seguinte. Estive lá, mas ele: recordar-se-á de quem?

E fico a pensar...

Sobre minha vida boemia que me fez esquizofrênico.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

João

Tens em teu cabelo encaracolado o cheiro da embriaguez e faz parecê-la amável a quem escuta as palavras que ecoam de seus lábios.
Tens em tua voz o timbre da segurança e atormenta tuas amantes quando anuncia suas descobertas – que sabem não ser tão dono assim de si.
Tens em teu olhar o brilho de um menino que tudo pode. E só eu mesmo para saber o quanto podes. Que és livre e belo, mais que qualquer outro, para poder se lançar ao mundo sem pés atrás ou planos B.
Tens em teus passos o mundo a desmoronar; e tudo depende do seu humor. Que às vezes é você quem causa o estrago, e se orgulha e sorri com a sinceridade que nunca presenciei em ninguém mais. Mas às vezes, quando dias cinzas, encara o abismo e se lança na fuga. E compensa em horas intermináveis passadas na sua, nossa, realidade paralela.
Aos olhos de uns a inexistência. A outros, mais sensíveis, a insanidade.

Que amar assim nunca foi compreensível a ninguém. No entanto, dentro de uma casa, pintamos as paredes de verde e espreitamos a normalidade janela afora. É o mundo a correr diante de nós.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Devaneios Tempranos

Quando saio de casa levo comigo apenas o dinheiro do ônibus de volta.
Sei bem sobre retornos: fatigantes.
Há o alívio, claro, de se ter para si só, de volta à sua origem, sem competições com as vozes circundantes ou preocupações com as frivolidades alheias, porém o desânimo.
Que não fui feito para isso não!
De saber aonde é o ponto final, sem surpresas e que se tudo correr bem, se ao meu lado estiver o que chamam de sorte, toda, toda do mundo, será, então, apenas mais um regresso incólume.