segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Calão


- Eu tenho vivido situações que se eu te contasse você não acreditaria.
- Por que você não tenta? Talvez eu acredite...
- Mas talvez, se eu partilhar minha fascinação, posso perdê-la.
- Ou talvez você possa contagiar-me. Seria interessante.
- A curiosidade tenta o casto. Há um tanto de luxúria em dizer mais que o necessário.
- Você já pecou hoje.
- Sim, perdoe-me pelo diálogo impertinente.
- Incômodos à parte, o perdão é arte. Eu só não entendo essa sua resistência em se abrir para os outros...
- Não é questão de me abrir, é questão de banalizar algo sagrado. Eu não sei se eu teria vocabulário para convidá-lo à minha galeria experiencial sem que a visita se tornasse algo tedioso. E a questão não é o que você vai experimentar, mas como a sua experiência afeta a experiência primária. É uma relação ambígua onde causa e efeito diluem-se, perdem suas definições.
- Mas, ao mesmo tempo, você sente esse impulso de querer exibir o belo. Seu belo. Sem saber se ele só o é, realmente, aos olhos dos outros. E o impasse transcende o silêncio, à beira do profano.
- Debruçar sobre o abismo nos suscita as questões relevantes de nossa existência. Por vezes nos deparamos com formas de cruzá-lo sem que deixemos muita da nossa bagagem para trás; outras, no entanto, exigir-nos-ia um sacrifício do qual não nos dispomos a cometer.
- É questão de vocabulário, então?

- Temo que sim.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

IV*

(*) O contexto acabou encorpando-se muito mais do que o esperado, portanto os títulos serão numerações em algarismos romanos. Fascículos anteriores: a conclusão de um capítulo,  passagens de uma história nunca escrita & outras passagens.

E nunca ousaram perguntar-lhe
quais as dores e as delícias
 de se poder fabricar sonhos.
 Mas ele as sabia bem.
 E as enumeraria
 assim que fosse necessário.
 Tudo em seu tempo.
 Estraño.

Dúvidas deixam sombras marcadas. Da mesma forma que o sol do meio dia o faz sobre a pele do trabalhador rural. E o imaginário popular inquieta-se diante das questões levantadas em voz baixa. Por que, nas vilas, gritam-se apenas os preços da feira, que já não interessam a ninguém. E quanto às fofocas, o alvoroço de uma cidade ávida por compartilhar aquilo que não lhes pertence. Afinal, de fato, o que é seu é meu, e esta é a lei da selva.
Quando adentrou à cidadezinha aquela figura inusitada a curiosidade se manifestou instantaneamente em olhares surpresos e línguas que não podiam ser contidas.  Os trapos surrados revelavam o rosto de um homem velho, de barba grisalha já comprida, e um modo de andar arrastado que tornava-o ainda mais excêntrico. Ele evitou a multidão e, sem sequer levantar o olhar, contornou os estabelecimentos para longe dos feirantes. O burburinho característico recomeçava e agora já tinha um novo assunto.
Passaram-se dois dias desde que o homem havia chegado à cidadela e a dúvida persistia: a quê viera tal figura? A população inquietava-se e especulava suas maldades enquanto outros, mais audaciosos, sondavam o que podiam. O dono da pequena estalagem que abrigava os viajantes menos abonados recebera o hóspede e com ele, as perguntas acerca de seus hábitos. Mas homem honesto que era não revelou qualquer segredo, pois prezava a ética acima de tudo e não se misturava com os porcos hábitos comuns, como dizia. Foi alvo de ofensas e ameaças, mas estava acostumado e não se deixou intimidar.
A cidade seguia em seu ritmo normal em que as pessoas sempre se ocupavam do nada e levavam sua vida lenta e desprovida de propósitos práticos. As preocupações não lhes pertenciam e talvez fosse isso que tornasse aquele ambiente amiúde tão agradável, mas, em essência, inquietantemente estagnado. O viajante recém-chegado, e permaneceria com esse título por algum tempo, já que a cidade não contava com muitas novidades, havia perdido alguma popularidade devido ao seu desaparecimento. Já havia mais de um mês desde sua única aparição pública e muitos já não davam tanta importância ao caso, querendo fofocar sobre quem se podia ver pelas ruas.  Mas também havia sempre quem suscitasse a questão e promovesse suas lembranças e estórias, dizendo que ele havia ido embora pela madrugada ou que ele havia morrido no quarto da hospedaria e que o velho dono não se pronunciou para não espantar a freguesia. Apesar de todas as maledicências o viajante permanecia hospedado na estalagem, e com o passar do tempo o povo o foi se esquecendo e suas memórias acabaram por se tornarem uma espécie de lenda urbana, se muito.
Certo dia uma moça com uma larga mala de mão cruzou os limites da cidade, despertando a atenção de quem estava na rua. Muito simpática e ligeiramente desinformada perguntou ao primeiro que viu ter uma feição prestativa onde se localizava o antiquário pelo qual aquele lugar era famoso na região. O caso era que o antiquário em questão havia encerrado suas atividades havia alguns meses e o dono da loja mudara-se da cidade, deixando apenas um estabelecimento vazio para ser ocupado por quem quisesse. A moça, desanimada, perguntou por sugestões de lugares em que ela poderia se hospedar e foi dessa forma que ela acabou por se instalar no quarto vizinho ao do velho viajante que já mofava na pequena estalagem.
O lugar era inspirador. Apesar do tamanho dos quartos, a casa possuía um corredor que os reunia e desembocava numa sala de convívio onde apenas os hóspedes podiam frequentar. No outro canto havia um pequeno refeitório e uma cozinha, livre para o uso de todos, e a recepção num cômodo ao lado que tinha as portas para a rua. A moça logo se sentiu encantada com o lugar e preencheu a última vaga disponível. De tão satisfeita chegou até a bendizer, em voz alta, o acaso por tê-la levado até ali. E o velho escutou. E foi quando começaram a conversa que embaralharia algo mais do que apenas os rumos dos dois.
- A senhorita quer um conselho?
- Eu?
- É.
- Bem... Claro... Acho que não seria polido recusar.
- Pois não fique atribuindo vida às suas escolhas. Você pode acabar perdendo o controle dos eventos que te acontecem.
- Perdão, eu não sei se eu te entendi...
- Entendeu. Não chame de acaso o que é decisão sua. Tínhamos um encontro marcado, essa conversa não é fruto de meras desventuras.
- Então o senhor está me dizendo que eu já sabia da falência do antiquário e que vim à cidade exclusivamente para vê-lo?
- É.
- Com todo o respeito, eu não sairia de minha cidade só para que o senhor me advertisse sobre acasos e contratempos.
- Mas não é sobre isso que vamos conversar. Esse foi só um ponto que me pareceu interessante adverti-la.
- Pois então, qual o assunto tão importante que me trouxe até aqui?
- O objeto que você veio buscar. De fato você não sabia do fechamento do antiquário, mas veio buscar algo e sabia que ia encontrar pistas por aqui. Pois então, eu tenho algumas direções para você.
- Desculpe-me por todas essas perguntas e, sim, alguma dose de descrença que possa ter transparecido, mas como o senhor sabe o que estou buscando?
- Não se desculpe, a gente demora mesmo para se acostumar com essas situações. Eu não vou me alongar, serei direto: sei que você não busca um objeto, mas sim uma pessoa. E sei o por quê de não ter perguntado informações quando soube do fechamento da loja. O interessante é que eu não vejo tanta decepção em sua feição, mas mais um contentamento, como se já esperasse por isso.
- Não... Eu não sabia... Mas...
- Talvez você não se desse conta. Mas, enfim, não me sonde, atenha-se ao necessário, devemos ser sucintos ao tratar sobre isso. Ele saiu da cidade pouco antes da loja fechar. Parece que ele sabia das complicações vindouras, voltou para a cidade onde a mãe foi velada.
- E a loja?
- Fechou. A curiosidade é traiçoeira. E as paredes por aqui parecem ter mais do que apenas ouvidos.
- Perdão.
- Mas você ainda não está satisfeita, há algo mais...
- As paredes...
- Entendo.
- Mas acho que te encontrei.
- Sim.
- Eu tenho um sonho.
- Eu sei, falaremos sobre isso.
- Quando?
- Em breve.


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Informalidade

Amores de corredores passageiros como as cores do arco-íris quando cessa a tempestade

O céu aberto, límpido, revela a majestade; a moça um sorriso de quase-intimidade.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Emenda

Ponto em que duas peças se juntam.

As palavras que escrevo ondulam na folha branca.

Resolvi rascunhar como prova para posteridade. Acho a caligrafia mais sincera e romântica, então achei oportuno. Não garanto que seja mais bonito, mesmo por que as rasuras você não verá, mas as palavras ajuntadas na tinta azul, em meus traços tortuosos, me enchem os olhos e preenchem este vazio que as poesias de hoje possuem.

Tomo cautela com o simples, pois o sei voraz: síntese de tanto, palatável apenas ao apreço, custa caro. Assim se faz o Amor ao leigo de muitas palavras, inexprimível.
Mas eu tinha de rabiscar o papel.

Deixei marcado o seu nome nas entrelinhas, e só esta frase atestada – dispensável, eu acho.