quinta-feira, 19 de setembro de 2013

IV*

(*) O contexto acabou encorpando-se muito mais do que o esperado, portanto os títulos serão numerações em algarismos romanos. Fascículos anteriores: a conclusão de um capítulo,  passagens de uma história nunca escrita & outras passagens.

E nunca ousaram perguntar-lhe
quais as dores e as delícias
 de se poder fabricar sonhos.
 Mas ele as sabia bem.
 E as enumeraria
 assim que fosse necessário.
 Tudo em seu tempo.
 Estraño.

Dúvidas deixam sombras marcadas. Da mesma forma que o sol do meio dia o faz sobre a pele do trabalhador rural. E o imaginário popular inquieta-se diante das questões levantadas em voz baixa. Por que, nas vilas, gritam-se apenas os preços da feira, que já não interessam a ninguém. E quanto às fofocas, o alvoroço de uma cidade ávida por compartilhar aquilo que não lhes pertence. Afinal, de fato, o que é seu é meu, e esta é a lei da selva.
Quando adentrou à cidadezinha aquela figura inusitada a curiosidade se manifestou instantaneamente em olhares surpresos e línguas que não podiam ser contidas.  Os trapos surrados revelavam o rosto de um homem velho, de barba grisalha já comprida, e um modo de andar arrastado que tornava-o ainda mais excêntrico. Ele evitou a multidão e, sem sequer levantar o olhar, contornou os estabelecimentos para longe dos feirantes. O burburinho característico recomeçava e agora já tinha um novo assunto.
Passaram-se dois dias desde que o homem havia chegado à cidadela e a dúvida persistia: a quê viera tal figura? A população inquietava-se e especulava suas maldades enquanto outros, mais audaciosos, sondavam o que podiam. O dono da pequena estalagem que abrigava os viajantes menos abonados recebera o hóspede e com ele, as perguntas acerca de seus hábitos. Mas homem honesto que era não revelou qualquer segredo, pois prezava a ética acima de tudo e não se misturava com os porcos hábitos comuns, como dizia. Foi alvo de ofensas e ameaças, mas estava acostumado e não se deixou intimidar.
A cidade seguia em seu ritmo normal em que as pessoas sempre se ocupavam do nada e levavam sua vida lenta e desprovida de propósitos práticos. As preocupações não lhes pertenciam e talvez fosse isso que tornasse aquele ambiente amiúde tão agradável, mas, em essência, inquietantemente estagnado. O viajante recém-chegado, e permaneceria com esse título por algum tempo, já que a cidade não contava com muitas novidades, havia perdido alguma popularidade devido ao seu desaparecimento. Já havia mais de um mês desde sua única aparição pública e muitos já não davam tanta importância ao caso, querendo fofocar sobre quem se podia ver pelas ruas.  Mas também havia sempre quem suscitasse a questão e promovesse suas lembranças e estórias, dizendo que ele havia ido embora pela madrugada ou que ele havia morrido no quarto da hospedaria e que o velho dono não se pronunciou para não espantar a freguesia. Apesar de todas as maledicências o viajante permanecia hospedado na estalagem, e com o passar do tempo o povo o foi se esquecendo e suas memórias acabaram por se tornarem uma espécie de lenda urbana, se muito.
Certo dia uma moça com uma larga mala de mão cruzou os limites da cidade, despertando a atenção de quem estava na rua. Muito simpática e ligeiramente desinformada perguntou ao primeiro que viu ter uma feição prestativa onde se localizava o antiquário pelo qual aquele lugar era famoso na região. O caso era que o antiquário em questão havia encerrado suas atividades havia alguns meses e o dono da loja mudara-se da cidade, deixando apenas um estabelecimento vazio para ser ocupado por quem quisesse. A moça, desanimada, perguntou por sugestões de lugares em que ela poderia se hospedar e foi dessa forma que ela acabou por se instalar no quarto vizinho ao do velho viajante que já mofava na pequena estalagem.
O lugar era inspirador. Apesar do tamanho dos quartos, a casa possuía um corredor que os reunia e desembocava numa sala de convívio onde apenas os hóspedes podiam frequentar. No outro canto havia um pequeno refeitório e uma cozinha, livre para o uso de todos, e a recepção num cômodo ao lado que tinha as portas para a rua. A moça logo se sentiu encantada com o lugar e preencheu a última vaga disponível. De tão satisfeita chegou até a bendizer, em voz alta, o acaso por tê-la levado até ali. E o velho escutou. E foi quando começaram a conversa que embaralharia algo mais do que apenas os rumos dos dois.
- A senhorita quer um conselho?
- Eu?
- É.
- Bem... Claro... Acho que não seria polido recusar.
- Pois não fique atribuindo vida às suas escolhas. Você pode acabar perdendo o controle dos eventos que te acontecem.
- Perdão, eu não sei se eu te entendi...
- Entendeu. Não chame de acaso o que é decisão sua. Tínhamos um encontro marcado, essa conversa não é fruto de meras desventuras.
- Então o senhor está me dizendo que eu já sabia da falência do antiquário e que vim à cidade exclusivamente para vê-lo?
- É.
- Com todo o respeito, eu não sairia de minha cidade só para que o senhor me advertisse sobre acasos e contratempos.
- Mas não é sobre isso que vamos conversar. Esse foi só um ponto que me pareceu interessante adverti-la.
- Pois então, qual o assunto tão importante que me trouxe até aqui?
- O objeto que você veio buscar. De fato você não sabia do fechamento do antiquário, mas veio buscar algo e sabia que ia encontrar pistas por aqui. Pois então, eu tenho algumas direções para você.
- Desculpe-me por todas essas perguntas e, sim, alguma dose de descrença que possa ter transparecido, mas como o senhor sabe o que estou buscando?
- Não se desculpe, a gente demora mesmo para se acostumar com essas situações. Eu não vou me alongar, serei direto: sei que você não busca um objeto, mas sim uma pessoa. E sei o por quê de não ter perguntado informações quando soube do fechamento da loja. O interessante é que eu não vejo tanta decepção em sua feição, mas mais um contentamento, como se já esperasse por isso.
- Não... Eu não sabia... Mas...
- Talvez você não se desse conta. Mas, enfim, não me sonde, atenha-se ao necessário, devemos ser sucintos ao tratar sobre isso. Ele saiu da cidade pouco antes da loja fechar. Parece que ele sabia das complicações vindouras, voltou para a cidade onde a mãe foi velada.
- E a loja?
- Fechou. A curiosidade é traiçoeira. E as paredes por aqui parecem ter mais do que apenas ouvidos.
- Perdão.
- Mas você ainda não está satisfeita, há algo mais...
- As paredes...
- Entendo.
- Mas acho que te encontrei.
- Sim.
- Eu tenho um sonho.
- Eu sei, falaremos sobre isso.
- Quando?
- Em breve.


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