terça-feira, 28 de setembro de 2010

À mostra

E se eu sou tão fechado assim, o que são, então, essas frases aqui dispostas, abertas para o mundo?

Ah, sim, agora eu me lembro: exposição de fatos.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Exílio


Seu coração precipitou-se ao passar pela porta. Já não era o bêbado alegre do bar. Depois de horas na companhia das intermináveis doses de tudo o que tinha direito, conseguira descontrair-se e ensaiar um sorriso para os passantes que o encaravam com uma mistura de piedade e desprezo. Não adiantava enganar-se, estava murcho: no lugar do sorriso sustentava um peso na face, e no lugar do copo, as mãos vazias, que ilustravam o que ele pensava da vida àquela altura –  e era um homem de meia-idade ainda. Apoiou-se no umbral e encarou o cômodo à sua frente com uma mão sobre o estômago. Talvez o álcool não tivesse caído bem ou talvez ele já estivesse sóbrio o suficiente para encarar sua realidade.
Havia alguns dias ele prorrogava o destino sabendo sê-lo inevitável. A angústia que havia se apoderado dele trazia consigo o silêncio perturbador. Já não era capaz de pronunciar palavras e sentia-se um vegetal. Tinha largado o emprego, as contas venceram e desfez-se do celular estridente arremessando-o contra o solo.
Empilhou a mobília da casa atrás da porta da frente tentando esquecer-se do mundo externo, mas era impossível. Pelas frestas as sombras dançavam durante todo o dia e sugeriam uma multidão que o desaprovava. Em seu mundo silencioso o barulho de pregos perfurando a madeira da entrada de sua casa o torturava. Sua porta estava preenchida com ameaças e apelos, como ele bem imaginava, assim como alguns dos vidros de suas janelas haviam sido quebrados, provocando-o um arrepio o som cortante do estilhaçar. Ele, sobretudo, tinha os nervos frágeis e tinha de se encolher para conseguir dormir. Quando conseguia.
O desespero vinha então lhe encerrar a noite precocemente e coroar-lhe com as olheiras que lhe envelheciam alguns anos e ilustravam seu estado de vigília involuntário. Desfeito de rigor e de horários, alguns poderiam tomar-lhe como o sonho realizado das férias instantâneas; de jogar tudo para o alto e viver conforme sua vontade, mas a verdade é que aquele homem estava passando por maus bocados.
Tédio é luxo. Quem sente tédio é, no mínimo, mimado. Quem sente tédio tem tempo livre de sobra para não fazer nada por muito até que sinta-se cansado disso. Quem sente tédio está maldisposto de estar bem-disposto! Ou melhor, está maldisposto por não conseguir conviver consigo, por que quem aproveita-se em sua companhia não se sente entediado. Nosso homem não tinha tempo livre para se sentir entediado, pois passava o dia em uma patrulha neurótica à qual ele denominava sobrevivência. Mas, decerto, ele nunca soube tolerar-se e toda aquela solidão agravava seus sintomas. E foi quando as suposições começaram a ganhar vida e ele imaginava um mundo no exterior de seu labirinto.
Pois talvez as fofocas já tenham tomado suas devidas proporções. E talvez os vizinhos já tenham se reunido extraordinariamente, quiçá o bairro. A própria polícia podia já estar a par da situação e pode ser que hajam homens a postos esperando um deslize seu para lhe tomarem a guarda de sua vida.
Ele visualizava as expressões faciais dos moradores do prédio ao passarem por sua porta. Previa as mentiras que estavam sendo ditas, os falsos testemunhos e a injustiça que estava sendo cometida diante dele e quanto mais assistia o rumo distópico que as coisas tomavam, mais impotente sentia-se.
Por isso decidira isolar a janela. Também por que os vidros estavam sendo quebrados cada vez com maior frequência. Reorganizara os móveis que seguravam a porta de entrada a fim de que tapassem qualquer fresta que pudesse revelar-lhe um vestígio de sombra. O pobre Minotauro cercava-se em seu labirinto, acuado nos limites que lhe restavam e indeciso sobre suas possibilidades. O desespero era tão mordaz que vez ou outra ele encarnava uma fúria cega, colocando-o a andar desnorteado pelos aposentos do apartamento em passos estrondosos e punhos cerrados à procura de respostas inexistentes.
Estes surtos duravam uma média de meia hora e durante estes momentos ele esquecia-se de todo o silêncio que conservava sagrado. Batia portas, esmurrava móveis e deteriorava o que restava de sua casa, até terminar em um choro convulsivo que começava por um gemido agudo e terminava, geralmente num sono aliviado, encharcado em meio às próprias lágrimas.
Contavam-se duas semanas desde o encolhimento. Cinco dias, então, desde o início das crises e estas eram cada vez mais comuns. Os poucos momentos de lucidez que lhe restavam ele os empregava tentando obter informações reais do que acontecia do lado de fora. Tinha consciência de suas alucinações e daquela síndrome de perseguição que vinha se instalando nele, mas ao mesmo tempo não sabia discernir o quanto daquilo era apenas fruto de sua mente, já que aquelas consequências lhe pareciam bastante plausíveis.
O som sereno da rua abaixo de suas janelas lhe deixava ainda mais confuso e as ventanas vedadas o impediam de ter alguma certeza sobre o que quer que fosse. De fato, ele conseguia imaginar que poderiam terem o tomado apenas como um excêntrico e toda aquela tragédia era um tanto cômica deste ponto de vista. E doía-lhe ver que suas fantasias acabavam por traduzirem-se num egocentrismo exacerbado e que sua solidão era capaz de ter gerado todo o tumulto. E talvez estes espasmos de lucidez fossem mais dolorosos do que as crises coléricas, mas por sorte, ou não, eram ligeiros.
Passou-se um tempo e sua última reflexão havia se provado benéfica, pois desde então estivera bem mais calmo e aliviado e pôde sentar-se em um canto da sala de estar em silêncio consigo até que o Sol se pusesse. Caía a noite e as luzes do apartamento, já cortadas pela companhia elétrica, sugeriam-no que fosse dormir. Era muito cedo para isso. Ele estava num estado de excitação fora do comum de forma que não conseguiria pregar os olhos, então reiniciou suas andanças sem rumo pela casa. Já havia se perdido em si há muito e agora buscava-se em qualquer canto, sob qualquer hipótese, algo que tivesse o poder remetê-lo à si, despertá-lo do torpor e pô-lo de volta ao que costumava ser. Buscava transpor o abismo que vivia, e nem consciente desta busca estava: apenas zanzava pela casa, fatigado. E eis que em suas andanças adentra ao banheiro e depara-se com o grande espelho que refletia os vestígios do que aquele homem fora um dia.
 A princípio assustou-se e exaltado, encarou-se com extrema aversão. Estático mas irritadiço. Então seus punhos se dissolveram em dedos e seus pés descalços puderam sentir o mármore frio acalmando-lhe os nervos. Seu corpo se descontraía e o silêncio reinava como era de costume: diante de nós mesmos sempre há perplexidade. Por fim constatou os destroços que era e uma tristeza lhe abateu. Aí soube que o que sentia era saudades de si, mesmo que de certa forma nunca tivesse se dedicado realmente a compreender-se.
Por saudades, soube-se humano. Nostálgico, soube-se sensível. Espelhado, soube-se enamorado. Mas não como Narciso, e sim como Sidarta! Não pelo espelho, mas pelas possibilidades que via florescer diante de si! Admirava o campo de oportunidades desabrochando-se epificanicamente e sentiu-se inspirado para tentar algo novo. Quem sabe um passeio pelo bairro, visitar lugares que lhe agradavam, ou mesmo visitar lugares que ele nunca havia visto. Não importava, queria se ver longe dali.
Tateou por um traje no guarda-roupa que agora também guardava a porta de entrada. Fez-se vaidoso, pensou até na possibilidade de tomar um banho e arriscou a água gelada, ainda que por poucos minutos. Revirou armários e gavetas e conseguiu perfumar-se e encontrar alguns trocados perdidos para investir em sua empreitada. Analisou-se mais uma vez no espelho e sorriu feliz, concluindo com um beijo na superfície fria. Estava radiante!
Nosso homem, que há pouco tempo atrás era bicho – do mato, ainda por cima – agora empurrava e relocava os móveis liberando a passagem para a rua. E na operação teve uma ideia: por que não visitar seu bar predileto onde ele costumava ir com bastante frequência? E de lá, quem sabe, visitar alguma velha amiga ou o que quer que fosse que homens normais faziam quando estavam bêbados. Era uma ótima ideia, ia seguir o plano. Era um “homem normal”.
Ao deixar seu covil abafado respirou aliviado. Tomou um fôlego e deu seu jeito de sair das imediações do edifício, pois não queria ser julgado, encarado, questionado ou ter qualquer tipo de contato com os moradores que o cercavam. Voltara a imaginar a inquisição e estes pensamentos lhe davam arrepios, portanto fez-se ligeiro e imperceptível e passou pela portaria sem deixar rastros.
Andou até a esquina e dobrou-a ainda com a mão no rosto, como se fosse um fugitivo não querendo ser reconhecido. De fato o era, mas assim que chegou à uma distância segura de seu cárcere se pôs a andar leve e tranquilo, assobiando enquanto rumava ao bar predileto. Era um final de tarde e ele imaginava que a ocasião era perfeita para comemorações, a julgar pelo seu estado de espírito. Já os vizinhos o julgavam insano, e os leitores, no mínimo, bipolar.
Chegou ao bar e fora logo notado. Virou assunto das conversas alheias e por isso sentou-se no balcão e não na mesa habitual. Apesar de tudo, não se sentia intimidado e foi logo pedindo uma, duas, três doses. Bebia e ia se divertindo só, observando a movimentação do local. Ninguém havia arriscado uma aproximação e as únicas palavras que trocara fora com o atendente que não quis lhe dar muito papo.
Bebia, e quanto mais bebia mais se deparava com a solidão. Havia trocado seu invejável bom humor por uma ordinária embriaguez, que até lhe garantia uma “alegriazinha”, mas era só gíria para explicar o quão bêbado estava. Descobrira que não encontraria alegria ali. Pensou-se no lugar errado, na hora errada. E nem admitira seu fracasso: apenas levantou-se, pagou a conta e retirou-se sob as gargalhadas de tantos e críticas de outros que nem lhe atingiram de tão absorto que estava.
Não teve ânimo para passeios longínquos. Apesar da hora e da rua mais vazia, ainda era uma celebridade mal falada e não queria ser perturbado, portanto tomou o caminho mais rápido para o que ele chamava vulgarmente de casa. Já não sabia se era aonde ele desejava estar, mas não tinha muitas opções.
O passo acelerado ilustrava o ritmo dos pensamentos deteriorantes que desfiguravam uma organização mental muito displicente. O homem se martirizava, assistindo com agrura seus fracassos de toda a vida passarem diante de si em imagens vívidas que produzia e projetava na tão sofrida volta para casa.
O pesar abatera-o e seu passo pesou. Com esforço, arrastou-se escadas acima até o andar que lhe era próprio, lutando contra as ilusões que o assombravam, obstáculos quase que intransponíveis. E quando chegou diante da porta deu um longo respiro e esperava recuperar o fôlego. O coração acelerado, irregular, anunciava a tragédia.
Inseriu a chave na fechadura e girou-a. Escancarou a porta rude e desastrosamente, num ímpeto que o denunciava. Pousou a mão sobre a barriga e encarou a sala uma última vez: sua visão escureceu de súbito. Morrera de desgosto.
E excessos.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Manifesto


Solúvel, no entanto íntegro: sou substância volátil.
Sou o universo em flor, a se abrir e abrir e abrir - sou o abismo sem fundo.
Veneno aos que se embriagam do comum e levitam, e se cercam, se têm seguros: sou a insegurança.
A peça de teatro que nunca se repete, a peça que nunca sai de cartaz. Sou o improviso e o sorriso da plateia, provocado.
Sou o manifesto: espontâneo da boca de um. Um, qualquer.
Mas se sou linhas, versos, tenho lá minhas partes ilegíveis. Se chego a ser melodia, se chego a tocar seus ouvidos, sou um sopro mais demorado...
Sou as reticências que seus olhos exclamam, o silêncio que permanece quando tudo mais se encerra.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Releituras

Ando revirando o passado; revirando os olhos.


Ando por aí, pelas ruas, a me desculpar com o vento que passou por mim e nem o cumprimentei.
Ando por aí, esses dias, dando bola demais aos vizinhos: acenando pra quem não me interessa, dando ouvidos em um excesso de simpatia... Ando com tempo demais.
E hora que me falta, relógio que nunca se dispôs a fazer reverências, hoje me espera atravessar a avenida com os ponteiros a me acompanhar gentilmente.
Dou esmola até. Não dinheiro que nunca tive, mas sorrio e digo um “boa tarde” que é pra ver se a sorte consegue acompanhar mesmo meu passo.


E não é bom-humor por que este eu só reconheço quando já não estou são, mas é que, nas páginas amarelas a nostalgia se faz tão viva que, definitivamente, alegria é o que eu não tenho – mais.