segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Véspera


Você sorri.

Diz que o ano que vem vai ser bonito. Diz que vai ser bonito como o meu sorriso, e eu nem estou sorrindo. Diz que belas palavras selam compromissos e que você pode lê-las em meus lábios, mas eu estou calado. Diz que meus olhos te encantam, e eu os mantenho cerrados.

Estamos nus, deitados numa cama, deliciando o escuro, e eu estou refletindo: ou se intimida ou se intimida.

O escuro é assim: diante dele, ou estreitamos laços num ímpeto decisivo que nos põe à parte de quem somos, e aí há intimidade; ou os afrouxamos e nos esgueiramos por paredes, encurralados pela fatalidade que criamos no outro, e aí a timidez.

Eu, que levo metas a sério, já não me encosto em canto algum. Mas ai de mim que prometi ser mais paciente, quando disfarçava minha intolerância de introspecção. E eis que me disponho a compartilhar-me, ainda que inseguro destas decisões abruptas que me são cobradas pelo reflexo de minh’alma.

E nem preciso de luz para encantar-me com sua silhueta quando abro meus olhos. Ensaio algumas palavras que vão terminar num sorriso. Pois bem, é desnecessário mais do que isso. 


domingo, 23 de dezembro de 2012

Iniciação Lógica ao Nonsense


 ou Convergência de Paradoxos

Dizem que só se pode ser ofendido se nos permitirmos sê-lo. Pois a discórdia que nos é oferecida, descascada qualquer ofensa e o possível intuito de insulto, é um presente dos deuses.
Quando toda afirmativa é plural¹ e o racional nos impõe a lógica, a discórdia que nos faz entrar em conflito e superar as explicações automáticas é uma libertação e tem finalidade mediúnica, ao passo que nos faz enxergar outras possibilidades.
Se todos os caminhos levam ao mesmo lugar e apenas “o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”², que nos embebamos de causas e com efeito nos transcenderemos.
Pois proponho a discórdia, em todas as suas concepções!
E uma longa noite ao lado de Eris!
Brindemos?

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¹ “Todas afirmações são verdadeiras em algum sentido, falsas em outro sentido, sem sentido em alguns sentidos, verdadeiro e falso em outros sentidos, falsas e absurdas em outros sentidos e verdadeiras e falsas e absurdas em alguns sentidos.” –  Principia Discordia
² Frase de William Blake em “O casamento do céu e do inferno.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Minha Teia De Inscrições



Minha Teia De Inscrições

Desde que eu era apenas um garoto minha mãe já acompanhava meus estudos impondo-me disciplina e cobrando-me ser ao menos semelhante à ela: uma verdadeira caxias. Eu nunca levei muito jeito para fazer o que não queria e confesso que nessa idade me era muito mais interessante sentir o mundo comportando-se diante de mim do que imergir-me em papéis e estudar o que a escola me propunha. É dessa época singular que provém os relatos e reflexões aqui contidos.
As redações da escola eram algo que me exigiam um certo esforço. Eu não sabia lidar com aquele tanto de regras de pontuações, apesar de ter me submetido bem aos tratos pavlovianos da ortografia e desde aqueles tempos já não errava uma palavra sequer. Quando sobravam-me respostas e parágrafos para serem elaborados em casa o fardo acompanhava-me e eu sentia-me na obrigação de desdobrar-me no idioma para conseguir uma tarefa satisfatória.
Até então tudo bem. O problema era realmente a redação. Minha mãe sempre insistiu comigo que se deve ter todo o texto planejado antes de se colocar a primeira palavra no papel. Eu não conseguia compreender o que era ter início, meio e fim já prontos sem que eu nem tivesse alcançado a minha linha de raciocínio.
O leitor pode considerar-me uma pessoa um tanto preguiçosa, desorganizada, ou até mesmo confiante demais por deixar-me desenrolar a história na medida em que ela vai acontecendo. Engana-se portanto: sou demasiado metódico e muito me agrada remoer-me em pensamentos buscando soluções para manutenção de algo antes de empenhar-me a realizar meu achado. O que acontece exclusivamente com a produção textual é que eu não consigo conceber esboços e acho-os muito sistemáticos.
Quando eu começo a escrever um texto eu busco uma linha de raciocínio que está a se desenvolver e sigo pelo ritmo dela. Às vezes a perco, é claro, então deleto parágrafos inteiros, até mesmo páginas... mas relendo o que escrevi eu a reencontro e prossigo na harmonia que ela dita. Este método confere-me um tom que poderia não existir em um texto que foi acomodado da forma como pôde por uma cabeça que quis impor sua vontade às palavras. Eu sinto que as palavras estão mais vivas e interagem como um todo, e não mecanizadas como me parece o outro processo proposto por minha ancestral.
De fato descobri que há muitas pessoas geniais que escrevem da forma como ela quis me ensinar e, afinal, ela lecionou o presente idioma por muitos anos da vida dela e foi considerada uma excelente profissional, sendo assim, acredito em sua didática. O que vim a verificar é que a forma como eu concebo a produção literária é uma das formas de desenvolver o pensamento rediático, enquanto que o planejamento peca pelo excesso de linearidade. Explico: o pensamento “em rede” é uma metáfora atual para a alinearidade presente que permeia-nos sem que possamos compreendê-la plenamente devido ao nosso cárcere perceptivo.
O que busco dizer é que quanto à produção de textos não há uma forma correta para composição, porém a livre-expressão – e aqui refiro-me às amarras do perfeccionismo – é espontânea e é isso que faz com que as palavras concordem entre si nos diversos meios em que se apresentam. O texto, que é apenas mais uma representação de uma realidade, deve ilustrá-la fidedignamente pois COEXISTE com sua inspiração. Da mesma forma, o autor ainda partilha desta mesma realidade em que está presente a sua obra e a sua percepção das coisas, então o mais leal seria trabalhar-se a fim de aproximar-se do mundo como ele realmente é.
Escrever, portanto, é responsabilizar-se por si. Mãe, eu me garanto.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Do Criador


e quando me vieram vender poesia na rua
dispensei-as, mas não por descaso:
o poeta é auto-suficiente em suas histórias.