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Mostrando postagens de Novembro, 2014

Onironauta

Cheguei a sonha-la sem saber quem era. As sombras dão profundidade aos corpos. Todo delírio onírico é uma profecia. O diretor gargalha: - Noite escura outra vez? Ela passa. (- Hoje não), eu quis dizer. Ficou entre parêntesis.

Dios Nudo

- O que você quer da vida? - Idealmente? - É. - Bem, eu gostaria de possuir a Estátua da Liberdade. - A Estátua da Liberdade?! Por que? - Eu acho a Estátua da Liberdade o maior símbolo da ironia moderna! E é mais genial ainda quando você pensa nela ilhada e distante da população, segurando a tocha em meio ao oceano. - Eu nunca tinha pensado dessa forma...  De todo jeito, não é o monumento mais bonito. Digo, em todos os sentidos. - Não mesmo. Eu só a escolhi pela brincadeira. Tenho algum receio do Sonho Americano e da metonímia do Ideal. A exaltação do excesso e a política do desnecessário: uma fantasia, um luxo, o esporádico, a curiosidade que mata o gato. - Como assim? - Assim. Agora, por exemplo, eu comecei a me preocupar em onde eu colocaria a estátua se eu a tivesse. E é um problemão. É claro que eu poderia desejar uma casa grande, com um jardim exuberante e usá-la como espantalho, mas por que eu divagaria? Eu acabaria me adiantando, e o presente é o verdadeiro ideal. - É o futuro o ideal d…

Impecável

Escrevi para me arrepender das linhas, Tenho este gosto exótico de perseguir certezas. Eu sempre estou errado ao final de uma sentença.

Colcha de Retalhos

Eu sempre soube de algo que nunca ousei mencionar. E do receio do verbo adveio o esquecimento. O esquecimento é como a morte: auto persuasão, confecção de finais, adulteração da realidade objetiva. Por mais que Verita me alertasse, e ela tinha essa mania indelicada de zumbir em minhas cabeças como quem fala, fala, fala e nunca diz nada, eu a ignorava por completo. Em partes, por que de fato eu achava que ela não dizia nada, e seu zumbido era irritante, e já tão baixo, que eu não me dava o trabalho de procurar entendê-la. Em contrapartida, eu estava gostando da sensação de sentir-me Maya, tecelã, encoberto de mil-e-um véus e à vontade para me esconder das luzes. Verita era minha conselheira e eu não me desgarrava dela por um minuto que fosse, ainda que naquelas épocas eu não estivesse muito interessado em suas recomendações. Eu andava colecionando trapos e juntando-os à minha colcha de retalhos, e ela tinha pra mim toda a sua reprovação no olhar. Quanto mais remendos eu adquiria, mais ro…