quinta-feira, 29 de julho de 2010

Apoteose

ao som de Spacemen 3



Começa escuro.
Eu andava apreensivo, sem muita paciência para ver filmes inteiros. Andei deixando a cama pela madrugada e o sono pela metade; os cafés-da-manhã intactos e os da tarde mordiscados levemente; as piadas no silêncio, completo. Os pensamentos longe disso, num monólogo insistente. Andei abandonando ideias na lixeira do meu cubículo, dando voltas mais longas com meu cachorro como pretexto para a ausência, esquecendo-me de carregar o celular; esquecendo de carregá-lo comigo.
Um amigo havia indicado. Amigo? Estive a perambular pelas noites até eventualmente deparar-me com um alguém que parecia tão ou mais perdido do que eu. Acho que isto é motivo para considerá-lo um amigo, faz com que a gente se sinta melhor, ainda que o interesse fosse tão pouco.
Nesses casos, quando se foge de casa para tomar um ar, opta-se por respirar, não existe nenhuma semelhança entre você e qualquer coisa ao seu redor; não há ligações com o mundo exterior! Nesses casos a indiferença reina e ela não diz uma palavra sequer, pois ela serve ao silêncio. No entanto aquela praça era o local da cidade que eu mais gostava e eu não pretendia estragar uma noite por ali por conta de meu humor egoísta.
Com a boca seca eu assistia a fonte desligada. Se fosse dia, com certeza eu me lembraria das garotas com as quais já havia me sentado nos bancos que cercam chafariz, tempos alegres em um repouso distante. Mas no estado em que me encontrava aquele lugar não me remetia a nada, exceto a solidão dos monólogos confortantes e a insônia do precavido, que não dorme para não ter pesadelos.
Eu pensava em alguma loja de conveniência que pudesse me oferecer um trago. Um conhaque é sempre sinônimo de alívio, mas me parecia impossível conseguir qualquer coisa naquela madrugada; a vida parecia limitada àquela praça! Buscava então um número de telefone qualquer, algum que tivesse escapado da agenda de contatos e penetrado em minha memória, sobrevivido à modernidade cômoda que nos diminui, mas nada. Estava eu ali: só e diminuto.
De passos medidos e respiração contida, vagueando pela noite fria, cheio de tudo, mas de cabeça vazia. E por isso eu aproveitava para capturar todos os detalhes, buscando longe as luzes da cidade e projetando curtas-metragens na paisagem urbana. Misturava ficção com aquela noite que também não me parecia nada real, a não ser pelo orvalho que justificava tudo: o sereno afogava-me em memórias, e de olhos cerrados eu tinha à voz de minha mãe os dizeres a respeito da madrugada.
A desobediência na infância é curiosidade, no amadurecimento é persistência e na velhice é cisma. No meu caso específico é um atrator estranho e quando se tem um universo privado de uma única noite é difícil definir os acontecimentos como acausais.
Eis que se aproxima um alguém em busca de fogo e o diálogo desenvolveu-se mais ou menos assim:
“Desculpe-me a interrupção. Eu sei o quanto é indelicado proferir palavras a um desconhecido em meio a uma madrugada dessas... mas você teria fogo?”
“Nunca se é inconveniente quando usa-se de simpatia! Mas não, eu não fumo...”
“Eu também não, mas o calor me acalma. As coisas andam bem estranhas ultimamente...”
Assenti num gesto simples. Estava aliviado de não ser o único a perceber as coisas daquela forma, mas o fato de deparar-me com pensamentos parecidos aos meus no auge de minha solidão era algo ainda mais inusitado.
“Que lhe aflige? Algo lhe passou?”
“Meu relógio de bolso. Ele parou.”
“O tempo degrada mesmo aquilo que o marca. Aliás, principalmente.”
“O problema é esse: o tempo, parado. Percebe?”
Calei-me. A ênfase que ele dera e a forma como ele pontuara sua fala me deixara sem reações, então rendi-me ao silêncio numa postura contemplativa. Ele continuou e eu o acompanhava, ainda confuso:
““Deus me abandonou no meio de uma orgia entre uma baiana e uma egípcia. Estou perdido. Sem olhos, sem boca, sem dimensões.””.[1]
“Deus?”
“Não, Carlos Drummond.”
“Ah, sim. Que carnaval!”
“Sim, “Um Homem e seu Carnaval”[2] – ou parte dele.”
Agora eu podia perceber o quão velho o homem era. O tempo já carimbara sua face, seu rosto, suas manias, versos, objetos... Justificava muita coisa e fazia com que eu o reconsiderasse: ele me soava um tanto desobediente, mas de cisma ali não havia nada. Pertencia também à outra categoria, estava além de conceitos pré-definidos.
O fim da noite interrompeu meus pensamentos, não pude deixar de comentar:
“O dia clareia sobre nós. Tão cinza...”
“Mas que me diz de alongarmos um pouco mais a noite?”
“Soa bem. Para onde vamos?”
“Para lugar nenhum. A noite se vai, nós permanecemos.”
Já não havia aurora. Cessara o alvorecer e o céu ostentava novamente uma lua torta e nuvens opacas que a encobriam e ofuscavam. Temeroso e imponente, desafiava-nos o olhar. E começava a chuviscar.
Chuviscava em minha televisão.



[1] Trecho do poema “Um homem e seu Carnaval” de Carlos Drummond de Andrade. (N. do A.)
[2] Referência ao poema citado acima. (N. do A.)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Oração à lua


Oração à lua

Ó lua, dar-te-ei fermento para que cresças rapidamente. Que pule de fases, torne-te plena, cheia, como estas pupilas que ocupam todos meus olhos. Que teu despertar cega-me, ofusca esta visão embriagada, faz-me ansioso, homem de cinco sentidos, incompleto.
Lua, dar-te-ei fermento pela luz. Que de perdido vou a crente na imagem de São Jorge. Que sinto-me capaz quando reconheço o dragão ajoelhado.
Dar-te-ei fermento, lua, para estar iluminado, para ser gênio. Distancia-me, pois, de confrarias, mais ávidas do que herméticas. Faz-me, portanto, detentor do conhecimento, confidencia-me segredos, ergue-me diante aos demais, “homens de bem”.
Fermento, pelo instinto. Que me põe frente a frente à minha sombra como nem o espelho. Coloca-me diante do lobo, que tanto temo.
E no entanto, lua, lobo sou eu. Sou eu quem uivo noite afora. Por ti.

sábado, 10 de julho de 2010

De verão

Tinha uma flor nos cabelos e as roupas imundas.
Era verão e isto justificava tudo: o vestido leve, a alegria presente no cotidiano, as brincadeiras e a correria das crianças.
As nuvens se apresentavam como zoológico e a grama como berço para a imaginação: que se deitava ali e passava as tardes a observar o céu e sentir a brisa apalpar-lhe o corpo. E se perdia em pensamentos que quase se esquecia de olhar de hora em hora os meninos: serenos em seu mundo à parte.
O pé às vezes molhado pelas fontes que espirravam água repentinamente ou pelo bebedouro que era quase como uma atração turística. As mãos sujas, assim como as roupas, tudo bem, isso já era rotina. Mas a flor não combinava.
Não adiantava, a flor era muito radical! Os cabelos que a sustentava eram rebeldes, se lançavam ao vento junto ao vestido. E os olhos se fechavam numa expressão quase sublime, mas a flor permanecia intacta.
Talvez fosse medo. É, medo de ser só mais um amor de verão, medo da chegada do outono. E se a flor caísse murcha? Então a ostentava ali, quase despretensiosa, como uma coroa.

E se dissessem que foi ela quem catou, tudo bem, era mesmo menininha para esse tipo de coisa. Mas seu olhar não resistia a acompanhá-lo quando ele atravessava a praça e vinha, mais uma vez, em sua direção.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Reflexões Tardias

Tenho me tornado cada vez mais livre e, no entanto, menos libertário.
Eu quero voltar atrás.
Só consigo perceber agora que o câncer que tanto te aflige, este que te faz tão mal, não é contagioso, mas, pelo contrário, sempre esteve presente em mim.
Só consigo perceber agora que tua presença era o alívio e que agora ele cresce solto, em ritmo acelerado, e eu tenho me transformado mais em você do que você própria.
Eu, que antes renegava analistas por me gabar da auto-compreensão, agora os suplico em cada cidadão comum que me cerca com algum tempo disponível. Sorvo seus poucos segundos e me embriago de palavras vazias buscando apenas a mim mesmo.
A medida de que me liberto de pudores, regras e pensamentos limitantes me vejo cada vez mais abandonando a ética e um senso social o qual eu acreditava possuir. Vejo-me um híbrido a optar por sua ruína: a escolher o selvagem, o lobo!, e deixá-lo solto na floresta; a ignorar a consistência dessas árvores cinzas cimentadas.
Perco-me cada vez mais e me desespero por sabê-lo e por tentar compreender-me sem sucesso: ou o racional me abandonou, agora por completo, ou se supera e prega-me uma peça; uma dessas inimagináveis.