quinta-feira, 25 de junho de 2015

Coletivo


Eu tenho cinco minutos para te contar o que aconteceu. Quer sentar? Tá livre. Bem, o ponto estava apinhado. Moleque, madame, maltrapilho, nem se via a calçada desfalcada. Quebra-cabeça de paralelepípedos decomposto sob os pés da metrópole. Ônibus vai, ônibus vem, uns contam o tempo, outros a sorte. Duas coisas fazem mal ao homem moderno: a cabeça vazia e a condução cheia, o resto é conseqüência. E foi de um desses ônibus cheios que desceu um moço de boa fé e se entrosou na multidão, certamente fazendo sua baldeação corriqueira. Pois que quase nem o vi, mas vinham vindo uma mocinha e uma senhora e nestas reparei bem: de branco, bonitas de felicidade, o contraste da cidade. E da atenção que chamaram foi difícil perceber a pedra. Precisou o sangue manchar a roupa para ver bem a fragilidade do nosso respeito. E eu nem soube se eu tinha a mão ou a nuca manchada. Não sei se eu tinha atirado ou recebido a pedra. Mas, como todo o ponto, permaneci inerte, ainda mais inquieto pela chegada do ônibus. E da ambulância, que alguém chamou. Às vezes nos tomam por ignorantes e dizem que a massa não tem sentimentos. Pelo contrário, nós nos estupefazemos cotidianamente, mas conosco mesmos. O meu ponto é o próximo. Fica com Deus.


terça-feira, 16 de junho de 2015

quarta-feira, 10 de junho de 2015

O RELES DOIRADO


ou Provérbios da Fome


Torna-te a ti mesmo ou toma a forma dos frívolos.
Toda faceta falseia:
Grão de areia & gravidade.
O tempo é um deserto extenuante;
Toda morte é por cansaço.
O sal é um destempero,
Mas conserva os restos da dignidade.
Incognoscível é o rastro de quem se arrasta.
Amanhar é o ofício da tempestade.
Entre as ancas da ampulheta, o orifício.
Acima como Abaixo,
Qualquer vidro bem lustrado reflete.
Dunas de rugas pelo entendimento caricato.
O teatro do quem-sou nunca exclama.
A eloquência ressecou a saliva do sábio.
O tolo azeda o ditame.
Quando a coragem cede, a cortesia celebra.
Um Rei não sacia sua sede, senão por si.
Renuncia às adversidades, 
Todo detalhe é imperfeito.
A maturidade venceu o desdém.
Enigmas são elogios.

segunda-feira, 8 de junho de 2015