quinta-feira, 25 de junho de 2015

Coletivo


Eu tenho cinco minutos para te contar o que aconteceu. Quer sentar? Tá livre. Bem, o ponto estava apinhado. Moleque, madame, maltrapilho, nem se via a calçada desfalcada. Quebra-cabeça de paralelepípedos decomposto sob os pés da metrópole. Ônibus vai, ônibus vem, uns contam o tempo, outros a sorte. Duas coisas fazem mal ao homem moderno: a cabeça vazia e a condução cheia, o resto é conseqüência. E foi de um desses ônibus cheios que desceu um moço de boa fé e se entrosou na multidão, certamente fazendo sua baldeação corriqueira. Pois que quase nem o vi, mas vinham vindo uma mocinha e uma senhora e nestas reparei bem: de branco, bonitas de felicidade, o contraste da cidade. E da atenção que chamaram foi difícil perceber a pedra. Precisou o sangue manchar a roupa para ver bem a fragilidade do nosso respeito. E eu nem soube se eu tinha a mão ou a nuca manchada. Não sei se eu tinha atirado ou recebido a pedra. Mas, como todo o ponto, permaneci inerte, ainda mais inquieto pela chegada do ônibus. E da ambulância, que alguém chamou. Às vezes nos tomam por ignorantes e dizem que a massa não tem sentimentos. Pelo contrário, nós nos estupefazemos cotidianamente, mas conosco mesmos. O meu ponto é o próximo. Fica com Deus.


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