quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

OroborO

"Meu fim é meu começo"

Constatou, ainda que tardio

E, de encontro ao vazio,

Fez jús ao ser avesso.

*

Ascensão por equivalência.

Depôs a ingenuidade

Depois, ao si covarde,

E entregou-se à impermanência.

*

Fez-se ciclo que não cessa

No Ir-e-vir imensurável

No instante, o instável!

Tomou o Caos como promessa.

*

Os opostos em comunhão,

O acaso afogado na areia.

O Todo é teia.

Ampulheta: delicada transição.

*

Os nós frouxos e a corda partida

Apossara-se do leme com firmeza

Agora era-se a correnteza

E apenas o contemplar da âncora ida.

*

Em posse da guia de oito apoios

Soube-se breve, mas pertinente

E, como ele, tantos outros dirigentes

Mas, além do trigo; em terra, o joio.

*

Convicções contrariadas no desvelar:

Quanta ingenuidade!

Pois toda aquela emancipação, por ansiedade!

Afinal, o Uno é par.

*

A serpente exalta: tudo tem preço!

Mesmo a cura, provém do veneno.

E, depois do susto, constata sereno:

"Meu fim é meu começo"

Prelúdio: de mãos livres.

Antes de encerrar-me, disponho-me em linhas livres.
Ainda consciente do ciclo sem brechas, o retomar constante: nunca houve início ou fim; coloco aqui uma pausa forçada.
Retrocessos, esclarecimentos posteriores, monólogos internos ( e agora expostos), em uma pretensão de serem marcados por um relógio estático. Não! Tudo continua em seu eixo: do caminho às cinzas, à reconstituição inesgotável em cada simples processo; fluxo individual que compõe o todo.
Mas esta é a vontade manifesta. É o que se diferencia de quem se deixa aguar ou quem vá se frustrar. Aqui & Agora é em que me torno: pleno.
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O tempo, enfim, justificou-se em estrañeza quando pude concebê-lo como a-linear.
Confesso o quanto de energia toma-me o ato de "ver" o TODO assim, mas a questão é enxergar a ONIPRESENÇA do tempo. Ainda que seja uma tarefa delicada:
à toda sincronia, uma causa & à todo acaso, uma morte!

com o tempo explanado, o estraño, então, talvez morre.

Ou, talvez, o estraño já tenha se caracterizado como um novo adjetivo.
A omissão de um "agá" ou a presença do "til", a modificação ortográfica e a inserção em diversos contextos, mesmo longe de meu consciente, mesmo longe de meu consentimento (!), leva-me à uma expressão que vem ilustrar a estranheza com um certo fascínio: um culto ao místico, àquilo que é raro porém deslumbrante! a cautela com o novo, ainda que haja o ímpeto do desvelar! o ser estraño, aquele que destoa do contexto, mas que prova-se estar perfeitamente adaptado pela curiosidade que desperta.
Pois não seria o tempo "estraño", portanto?!

Nesta intercessão - momentânea, e suave para você, eu espero - deixo explicitadas as novas direções.
Não temos Norte! apenas o sul que deixamos para trás...
mas este Sul é marcado por vestígios deste fluxo incessante.
não há reviravoltas, nada de correções de rotas instantâneas: se voltas a ver o mapa, todas as milhas percorridas, estão lá os detalhes! Todo e cada repuxo; as frestas tornando-se lacunas e um Tempo impositor, como este sol que atravessa as nuvens que se fazem obstáculos, fazendo-se majestoso, tornando-se, aos poucos, irrefutável.

Sigo sem bússola, pois tenho-me em meu novo ditado:
manuseio & intuição

domingo, 25 de dezembro de 2011

Ouro de Tolo

A mesa de cacife alto exige movimentos cautelosos: pertinência no agir.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Ensopado

As gotas correm por um rosto deformado que sustenta, no entanto, os mesmos belos traços de sempre. Desleal: que lhe falta um sorriso nesta face ensopada pela chuva persistente e sobra-lhe alguns pensamentos pendentes, vestígios de sua intensidade voluntária.
Ela ficara marcada em seu semblante. E com o vidro do ônibus de volta embaçado, a ausência da coragem em imprimir-lhe algum desenho, alguma frase. Deixara de ser impetuoso: pensava em quão definitivas seriam aquelas palavras contidas, o receio de encarar-se em versos curtos que lhe refletissem a indecisão. Mais: sua impotência perante o destino.
E a despedida que se fez ligeira. Que se fez insuficiente, que resultou nestas palavras. Mas, querida, ao contrário de tantos outros aos quais eu deixei subentendido o mundo em versos, idênticos a estes!, à você a necessidade de ser explícito. Tanto, que me marcas diretamente no rosto, em olhos pequenos e distantes, pensativos numa solidão conveniente.
Tens, então, longe daqui, destas linhas ensaiadas e refeitas, o nó desfeito. A garganta livre de amarras sussurrando, no nosso tom de voz, o que eu havia deixado passar.
E que passe a chuva, passe o tempo, estraño, como sempre. As marcas vão passar logo. E você?