segunda-feira, 29 de abril de 2013

Vulgar


 “[...] a experiência visionária é algo que transcende as palavras e deve ser evocada por percepção direta, sem estágios intermediários [...]”
Portas da Percepção Aldous Huxkley

Muito já foi dito a respeito de que os dizeres não chegam ao muito. Palavras nunca são suficientes e diz-se demais querendo se dizer menos.
O estado de síntese ao qual nos condicionamos, vivendo de representações e símbolos que imaginamos resumir nossa experiência é incompetente nas traduções de nossas situações cotidianas. Mas mesmo essa percepção não é inédita e a própria contradição já está instaurada estruturalmente em nosso padrão comportamental.
Digo isso para chegar às palavras importadas e aos conceitos que perdem seus sentidos quando tornam-se sintéticos – de tão sintetizados para serem transmitidos exotericamente.
Quando se especula de que existem conhecimentos presos e que não são todos que têm acesso a eles eu entendo como uma inferência à possibilidade de não possuirmos tudo o que necessitamos no exato presente, e disso eu discordo veementemente. Acredito em um conhecimento livre, ao alcance de todos por meio da confecção de pontes individuais, ou seja, uma auto capacitação. Não acredito, no entanto, em pontes coletivas que possam abranger aos leigos de forma definitiva, principalmente por pensar que essa relação viola a lei de troca da natureza, em que o atravessador faz um esforço solitário para um suposto resultado comum. Mesmo Caronte era afeiçoado ao ouro.
Somos levados à problematização peculiar que é os termos entrarem em moda, mas sua significação original permanecer obscura sendo substituída por um conceito mais palpável às massas, como é o caso do desapego que se tornou sinônimo de libertinagem – ou algo parecido...
Mas não me alongarei nessa questão por dois motivos: o primeiro, a ineficácia das palavras; o segundo, meu desapego. Afinal, ando em comunhão comigo e não com as palavras das bocas dos outros.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Achado


Eu só tinha alguns trocados no bolso e a vontade de levar-lhe alguma coisa.

Quando roubei aquela rosa, pensei que cometia o maior pecado do mundo. Roubava-a da praça para levá-la comigo ao meu amor. E me quedei a pensar que longe dos olhares do público ela encantaria somente à minha garota e que talvez este fosse um ato de egoísmo exacerbado e que fosse uma pena que os demais não pudessem vê-la depois de meu crime.
Mas pensei também que estes não poderiam ver o seu sorriso e a sua surpresa, tão mais sinceros do que os olhares dos passantes, que talvez nem notassem a solitária rosa, distraídos que são em suas caminhadas pela praça.
Então indaguei-me o por que de aquela rosa ter sido plantada ali. As flores cumprem seu papel estético? Tornaram-se meros elementos decorativos? E alguém chegou a pensar na função poética da rosa? Pois quando um amigo sugeriu-me este ser o ato mais romântico que ele podia pensar, soube que a dor da privação coletiva é a concepção da poesia.
E qual ápice mais lisonjeiro para a afanada rosa? Ainda que pertencesse agora àquelas mãos desajeitas, seu desfile era certeiro pelas ruas da cidade. Seja no ponto de ônibus ou na avenida principal até a casa da mulher que a receberia com estima, agora a rosa cumpria seu papel poético.

terça-feira, 16 de abril de 2013

terça-feira, 9 de abril de 2013

Opaco



O vidro da janela está extremamente sujo, mas ele só se dá conta disso quando interrompe seus pensamentos, olhando além do que há para ser visto em busca de inspiração. O horizonte turvo, mas pela névoa que impede o tato de seus olhos.
Não há muito para ser visto ali, mas a sensação de poder ter contato com o exterior é o suficiente para que ele elabore suas ideias em seu cubículo cotidiano. Ele não reclama da vida. Exceto quando não encontra ideias. Ele vive de ideias e precisa comercializá-las para continuar o seu trabalho, então ele acha chato quando se depara com essa situação de abstração, mas é apenas pelo fato de perder um pouco de seu tempo tentando reconstituir um estado de espírito que ele chama vulgarmente de criatividade.
Ele não é criativo de fato. E ele também não se sente mal por sua inação que marca os ápices de sua vida. Ele nem liga de referir-se à sua vida no singular, sendo constante demais em tudo para poder vivenciar outros túneis de realidade. Resume-se naquela criatividade trivial, da qual vangloria a conquista pelo hábito continuo de exercer sua imundice.
Ele não é desonesto, ou fanático, ou mesmo preconceituoso. Ele não foge do padrão do cidadão comum que acha que cumpre seu papel de responsabilidade social. Ele não cumpre.
O vidro da janela está extremamente sujo, e ele só o viu por que estava desperto. Às vezes essas epifanias ilustram a verdadeira criatividade, mas não nos damos conta disso. Confundimos com prorrogação ou incompetência da moça da limpeza.
O vidro sempre guarda um reflexo da gente, especialmente quando nos sentamos diante dele todos os dias.