terça-feira, 9 de abril de 2013

Opaco



O vidro da janela está extremamente sujo, mas ele só se dá conta disso quando interrompe seus pensamentos, olhando além do que há para ser visto em busca de inspiração. O horizonte turvo, mas pela névoa que impede o tato de seus olhos.
Não há muito para ser visto ali, mas a sensação de poder ter contato com o exterior é o suficiente para que ele elabore suas ideias em seu cubículo cotidiano. Ele não reclama da vida. Exceto quando não encontra ideias. Ele vive de ideias e precisa comercializá-las para continuar o seu trabalho, então ele acha chato quando se depara com essa situação de abstração, mas é apenas pelo fato de perder um pouco de seu tempo tentando reconstituir um estado de espírito que ele chama vulgarmente de criatividade.
Ele não é criativo de fato. E ele também não se sente mal por sua inação que marca os ápices de sua vida. Ele nem liga de referir-se à sua vida no singular, sendo constante demais em tudo para poder vivenciar outros túneis de realidade. Resume-se naquela criatividade trivial, da qual vangloria a conquista pelo hábito continuo de exercer sua imundice.
Ele não é desonesto, ou fanático, ou mesmo preconceituoso. Ele não foge do padrão do cidadão comum que acha que cumpre seu papel de responsabilidade social. Ele não cumpre.
O vidro da janela está extremamente sujo, e ele só o viu por que estava desperto. Às vezes essas epifanias ilustram a verdadeira criatividade, mas não nos damos conta disso. Confundimos com prorrogação ou incompetência da moça da limpeza.
O vidro sempre guarda um reflexo da gente, especialmente quando nos sentamos diante dele todos os dias.

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