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Mostrando postagens de Agosto, 2011

Roupa de Cama

O quarto escuro pertence apenas a nós. O mundo se perdeu por detrás daquela porta e os únicos vestígios da realidade são as gotas da tempestade que molham nossos corpos ao adentrarem pela janela.
As cortinas dançam sobre nós. Formam um véu que nos coloca sob a chuva, diante de uma imensidão de nuvens cinzas... e por que não? Estamos no céu!
A cama estreita nos ajunta. Encostada à parede sou feito refém!
E tu dormes tão serena que me envergonhas; Tens os olhos tão tranquilos que me preocupas; O modo como te sentes à vontade me causa um leve desespero.
Adormecestes agarrada ao meu corpo, como se eu pudesse desprender-me... como se já me conhecesses há tempos! E, realmente, eu não sou insomne, mas não duro muito embaixo de outros lençóis.
Também não sou de perambular pela casa: aprecio o silêncio durante a manhã, de forma que até meus passos me causariam incômodo, portanto o ruído usual é o da porta da frente recostando-se levemente e encerrando as noites de forma definitiva. Sabe? Eu também…

Combinação de Infinitos

ao som de This Will Destroy You
- Quero que me olhe nos olhos. Ela fazia questão daquilo. Tinha seus motivos, toda sua desconfiança e seus truques para reconhecer palavras insinceras. Mas, mais do que tudo isso, tinha um par de olhos cinzas que me encurralavam. E absorto, eu quase não tinha palavras: – Eu não consigo. – Tenta... – Era uma proposta, e ela me encarava irredutível. É posto à parede que as particularidades se exaltam. Afinal, dois só se reconhecem em momentos ímpares. – Eu... não sei lidar com sentimentos abruptos, essa profundidade repentina... – Teus pés não alcançam o solo? – Perdão? – Há quanto tempo vives nessa maré baixa? Sabes... há rios ansiosos para desaguarem em um oceano, mas eles vão se perder no encontro. Entendes que apenas os peixes enfrentam o curso, e mesmo eles, para dar continuidade? Este teu raso é um monte de areia ajuntado, grão após grão. E quanto trabalho para tamanha fragilidade... Por que não abres mão do deslize que é inevitável, convenhamos, e saltas …

Enumerado

Antes, dois eram um e essa matemática fazia sentido. Agora o sentido extinguira-se e, menos do que um, eram dois; cada qual com a sua jóia, carregando o mundo nos dedos.

Antes que o mundo acabe

O Gênesis como um matrimônio.
A cria deslumbra-se sincera consigo
Depara-se com o todo e tudo é apenas um e, em imagem e semelhança, sente-se completa, enfim.
A dúvida permanece, eterna
No entanto, a convicção momentânea do paraíso; e é isso que nos compõe mortais!
O tempo, intocado, recebe radiante o juramento de eternidade enquanto os dedos são suaves ao receberem a troca e assim o homem se divorcia da natureza
Mas, antes que o mundo acabe, o homem hesitará.
E quando o fizer haverá aqueles dois segundos de fricção do esforço de separar-se da aliança.
Dois segundos eternos,
de pura reflexão.