quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Roupa de Cama

O quarto escuro pertence apenas a nós. O mundo se perdeu por detrás daquela porta e os únicos vestígios da realidade são as gotas da tempestade que molham nossos corpos ao adentrarem pela janela.
As cortinas dançam sobre nós. Formam um véu que nos coloca sob a chuva, diante de uma imensidão de nuvens cinzas... e por que não? Estamos no céu!
A cama estreita nos ajunta. Encostada à parede sou feito refém!
E tu dormes tão serena que me envergonhas; Tens os olhos tão tranquilos que me preocupas; O modo como te sentes à vontade me causa um leve desespero.
Adormecestes agarrada ao meu corpo, como se eu pudesse desprender-me... como se já me conhecesses há tempos! E, realmente, eu não sou insomne, mas não duro muito embaixo de outros lençóis.
Também não sou de perambular pela casa: aprecio o silêncio durante a manhã, de forma que até meus passos me causariam incômodo, portanto o ruído usual é o da porta da frente recostando-se levemente e encerrando as noites de forma definitiva. Sabe? Eu também prezo por isso:
encerrar as portas, pontuar.

No entanto hoje eu preservo o silêncio quieto ao teu lado, pois não me sinto no direito de acordar-te. Sinto-me responsável pela tua posição aconchegante, por teus sonhos, pelo lençol encharcado que, mais do que a chuva fina que partilhamos, carrega também gotas do meu suor, meu cheiro, carrega ainda algumas das palavras que escaparam de meus sussurros, confissões, poesias...

Mas, se sou prólixo, sei me conter.
Pois o silêncio é sagrado até o teu despertar.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Combinação de Infinitos


- Quero que me olhe nos olhos.
Ela fazia questão daquilo. Tinha seus motivos, toda sua desconfiança e seus truques para reconhecer palavras insinceras. Mas, mais do que tudo isso, tinha um par de olhos cinzas que me encurralavam. E absorto, eu quase não tinha palavras:
– Eu não consigo.
– Tenta... – Era uma proposta, e ela me encarava irredutível.
É posto à parede que as particularidades se exaltam. Afinal, dois só se reconhecem em momentos ímpares.
– Eu... não sei lidar com sentimentos abruptos, essa profundidade repentina...
– Teus pés não alcançam o solo?
– Perdão?
– Há quanto tempo vives nessa maré baixa? Sabes... há rios ansiosos para desaguarem em um oceano, mas eles vão se perder no encontro. Entendes que apenas os peixes enfrentam o curso, e mesmo eles, para dar continuidade? Este teu raso é um monte de areia ajuntado, grão após grão. E quanto trabalho para tamanha fragilidade... Por que não abres mão do deslize que é inevitável, convenhamos, e saltas de uma vez?
– Este teu mar me é velho conhecido. Passamos poucas e boas antes de uma daquelas partidas memoráveis, portanto, vejas, o que sinto não é temor. Antes de ser óleo, fui água, salgada ainda por cima, e destas que habitam o fundo do mar, para não dizerem que meu problema é com a profundidade. Há, no entanto, uma temperatura que desejo evitar. É este calor das multidões que não me faz ascender, mas ancora-me ao fundo de águas turvas, numa imersão solitária. A imensidão azul me parece cinza, o oceano me parece poça d’água, a água me parece veneno. E ando ansioso à voltar à superfície; angustiado deste nada que presido; arrependido do mergulho que dera outrora, alimentado expectativas. Arrependido ainda de ter apostado poder chegar mais fundo, acreditando que na areia era aonde se encontrava meu tesouro perdido.
- Pois então? Enriquecestes? E é por isso que nos abandonastes aqui, ó, distinto?
- Nunca se ganha uma aposta quando não se sabe com quem se apostou. E dentre os sete mares, eu nem sei em qual fui mergulhar. Mas assim que adentrei à água soube quão vã era minha busca. E quanto mais me perdia, mais eu me dava conta de que apenas me opunha ao relógio, asfixiava-me, mas com os grãos de areia que tombavam de uma ampulheta incessante.
– Pois tudo serve ao tempo.
– E o tempo é estraño.
–... e talvez cruel...
– Ou indiferente apenas. Talvez ele flua de seu modo, de forma inconsequente, sem se colocar propositalmente contra o universo, apenas sendo.
– Corre despretensioso.
– Ou anda apenas. Somos nós os apressados... O tempo é deveras imparcial.
– De uma certa forma somos muito exigentes.
– Em uma necessidade abusiva do controle, eu concordo... e confesso que peco nesse âmbito.
– Pois eu seria menos ansiosa se eu soubesse... sei lá, que te veria novamente...
– E que não fossem sonhos. Para que não haja noites em que eu me frustre ao acordar.
– E por que sei que esse diálogo terá reprises em minhas recordações. Que passarei dias encanada com frases, tentando decifrá-las...
– É engraçado como as circunstâncias se opõem à vontade de dois e acabam por dividir fios entrelaçados...
– Apenas marionetes. Rogando oportunidades a um títere teatral...
– Trágicos como nos cabem as personagens. Ou cômicos, numa auto ironia que alivia a vida.
– Mas, de fato, personagens. Para que não nos envolvamos tanto com o roteiro.
– Que queres dizer com isso?
– Que de nada adiantaria ver-te posteriormente se eu não puder te prender em mim. Quem me dera ter um resquício da tua atenção, teu olhar no meu, num lance que valha a pena preservar. Ainda que me doam as lembranças, que eu possa depreciar-me em minhas memórias, e fazer delas vívidas, mais do que estas máscaras que encenamos rudemente.
– E espontâneo, insultas-me dizendo-me frígido. Mas talvez, realmente, eu não saiba conceder intimidade às pessoas...
– Mas eu não quero concessões! Eu não quero permissões, pedidos, contratos. Eu não quero licença e não vou pedi-la enquanto invado teu mundo.
– Tudo bem. E eu não vou pedir que seja cuidadosa com teus rastros. Me deixarás marcado assim como o tempo o faz. O fez. E, ingênua, posso chamá-la também despretensiosa. Mas és tão intensa que não flui como as horas: consome-se, como em combustão. E ardes como o fogo, seja em desejo, seja em poesia.
– Dizeis-me ser o fogo quando tu quem promovestes um incêndio; deixas-me à vontade para vasculhar-te e, no entanto, evitas-me os olhares. Acusas-me marcante, colocas-me como intensa, mas quando devolves-me um sorriso tens-me desmantelada. E eu me encolho para recolher meus cacos fascinada com o contraste da simplicidade com teu universo tão complicado. E fico admirada ainda por ser, eu, fogo, sendo tu o impetuoso: quais são as regras do teu jogo, se isso for ausência de intimidade?
– E tudo tem de ser um jogo?
– E tu tens de sempre te esquivares?!
– É como avanço minhas peças...
– Pois estás em cheque.
– E o que isto significa?
– A reconciliação dos opostos, o compartilhar de universos, a combinação de infinitos. Mas acho que isso é um empate... e empatar é algo demasiado íntimo.
– Bem, eu não sei lidar com perdas, mas nunca disse que queria ganhar. E eu estaria sendo insincero se dissesse que não me sinto completamente à vontade ao teu lado.


terça-feira, 9 de agosto de 2011

Enumerado

Antes, dois eram um e essa matemática fazia sentido.
Agora o sentido extinguira-se e, menos do que um, eram dois; cada qual com a sua jóia, carregando o mundo nos dedos.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Antes que o mundo acabe

O Gênesis como um matrimônio.
A cria deslumbra-se sincera consigo
Depara-se com o todo e tudo é apenas um e, em imagem e semelhança, sente-se completa, enfim.
A dúvida permanece, eterna
No entanto, a convicção momentânea do paraíso; e é isso que nos compõe mortais!
O tempo, intocado, recebe radiante o juramento de eternidade enquanto os dedos são suaves ao receberem a troca e assim o homem se divorcia da natureza
Mas, antes que o mundo acabe, o homem hesitará.
E quando o fizer haverá aqueles dois segundos de fricção do esforço de separar-se da aliança.
Dois segundos eternos,
de pura reflexão.