terça-feira, 23 de agosto de 2011

Combinação de Infinitos


- Quero que me olhe nos olhos.
Ela fazia questão daquilo. Tinha seus motivos, toda sua desconfiança e seus truques para reconhecer palavras insinceras. Mas, mais do que tudo isso, tinha um par de olhos cinzas que me encurralavam. E absorto, eu quase não tinha palavras:
– Eu não consigo.
– Tenta... – Era uma proposta, e ela me encarava irredutível.
É posto à parede que as particularidades se exaltam. Afinal, dois só se reconhecem em momentos ímpares.
– Eu... não sei lidar com sentimentos abruptos, essa profundidade repentina...
– Teus pés não alcançam o solo?
– Perdão?
– Há quanto tempo vives nessa maré baixa? Sabes... há rios ansiosos para desaguarem em um oceano, mas eles vão se perder no encontro. Entendes que apenas os peixes enfrentam o curso, e mesmo eles, para dar continuidade? Este teu raso é um monte de areia ajuntado, grão após grão. E quanto trabalho para tamanha fragilidade... Por que não abres mão do deslize que é inevitável, convenhamos, e saltas de uma vez?
– Este teu mar me é velho conhecido. Passamos poucas e boas antes de uma daquelas partidas memoráveis, portanto, vejas, o que sinto não é temor. Antes de ser óleo, fui água, salgada ainda por cima, e destas que habitam o fundo do mar, para não dizerem que meu problema é com a profundidade. Há, no entanto, uma temperatura que desejo evitar. É este calor das multidões que não me faz ascender, mas ancora-me ao fundo de águas turvas, numa imersão solitária. A imensidão azul me parece cinza, o oceano me parece poça d’água, a água me parece veneno. E ando ansioso à voltar à superfície; angustiado deste nada que presido; arrependido do mergulho que dera outrora, alimentado expectativas. Arrependido ainda de ter apostado poder chegar mais fundo, acreditando que na areia era aonde se encontrava meu tesouro perdido.
- Pois então? Enriquecestes? E é por isso que nos abandonastes aqui, ó, distinto?
- Nunca se ganha uma aposta quando não se sabe com quem se apostou. E dentre os sete mares, eu nem sei em qual fui mergulhar. Mas assim que adentrei à água soube quão vã era minha busca. E quanto mais me perdia, mais eu me dava conta de que apenas me opunha ao relógio, asfixiava-me, mas com os grãos de areia que tombavam de uma ampulheta incessante.
– Pois tudo serve ao tempo.
– E o tempo é estraño.
–... e talvez cruel...
– Ou indiferente apenas. Talvez ele flua de seu modo, de forma inconsequente, sem se colocar propositalmente contra o universo, apenas sendo.
– Corre despretensioso.
– Ou anda apenas. Somos nós os apressados... O tempo é deveras imparcial.
– De uma certa forma somos muito exigentes.
– Em uma necessidade abusiva do controle, eu concordo... e confesso que peco nesse âmbito.
– Pois eu seria menos ansiosa se eu soubesse... sei lá, que te veria novamente...
– E que não fossem sonhos. Para que não haja noites em que eu me frustre ao acordar.
– E por que sei que esse diálogo terá reprises em minhas recordações. Que passarei dias encanada com frases, tentando decifrá-las...
– É engraçado como as circunstâncias se opõem à vontade de dois e acabam por dividir fios entrelaçados...
– Apenas marionetes. Rogando oportunidades a um títere teatral...
– Trágicos como nos cabem as personagens. Ou cômicos, numa auto ironia que alivia a vida.
– Mas, de fato, personagens. Para que não nos envolvamos tanto com o roteiro.
– Que queres dizer com isso?
– Que de nada adiantaria ver-te posteriormente se eu não puder te prender em mim. Quem me dera ter um resquício da tua atenção, teu olhar no meu, num lance que valha a pena preservar. Ainda que me doam as lembranças, que eu possa depreciar-me em minhas memórias, e fazer delas vívidas, mais do que estas máscaras que encenamos rudemente.
– E espontâneo, insultas-me dizendo-me frígido. Mas talvez, realmente, eu não saiba conceder intimidade às pessoas...
– Mas eu não quero concessões! Eu não quero permissões, pedidos, contratos. Eu não quero licença e não vou pedi-la enquanto invado teu mundo.
– Tudo bem. E eu não vou pedir que seja cuidadosa com teus rastros. Me deixarás marcado assim como o tempo o faz. O fez. E, ingênua, posso chamá-la também despretensiosa. Mas és tão intensa que não flui como as horas: consome-se, como em combustão. E ardes como o fogo, seja em desejo, seja em poesia.
– Dizeis-me ser o fogo quando tu quem promovestes um incêndio; deixas-me à vontade para vasculhar-te e, no entanto, evitas-me os olhares. Acusas-me marcante, colocas-me como intensa, mas quando devolves-me um sorriso tens-me desmantelada. E eu me encolho para recolher meus cacos fascinada com o contraste da simplicidade com teu universo tão complicado. E fico admirada ainda por ser, eu, fogo, sendo tu o impetuoso: quais são as regras do teu jogo, se isso for ausência de intimidade?
– E tudo tem de ser um jogo?
– E tu tens de sempre te esquivares?!
– É como avanço minhas peças...
– Pois estás em cheque.
– E o que isto significa?
– A reconciliação dos opostos, o compartilhar de universos, a combinação de infinitos. Mas acho que isso é um empate... e empatar é algo demasiado íntimo.
– Bem, eu não sei lidar com perdas, mas nunca disse que queria ganhar. E eu estaria sendo insincero se dissesse que não me sinto completamente à vontade ao teu lado.


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