quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A Floresta



Os ouvidos, apurados, tateiam o som. Ela o persegue. São passos lentos, mas firmes, que regem um suspense, uma curiosidade que lhe cai bem. E cada vez que nota as notas ela adentra ainda mais àquela floresta. Anda tão distante de si que demora a reparar nas sombras dançantes, a valsa que toma a flora em seu desabrochar. A garota se estupefaz! A vida brota em cada poro e a cor surge de todo canto e tudo sugere-se tão convidativo e contagiante que seus pés que recearam pisar nas silhuetas das árvores não se demoram, adiantam-se.
O gato em seu encalço, busca os fiapos que escapam da bolsa à tiracolo. A costura movimenta-se ao vento e faz com que o animal entretenha-se atrás da garota. A música deixa seu rastro, inclusive no rosto da menina, em um sorriso de fascínio e na determinação em alcançar a origem do sonido
Os raios de sol sobrevivem à cúpula das árvores e clareiam o local. Acima da cabeça da garota, um céu esverdeado formado pelos tantos galhos que se entrosam e se enroscam uns nos outros e suas folhas chiam e também dançam aos ventos. Os pássaros agitam-se e vêm ao encontro da pequena acompanhando-a quando ela passa pelas árvores em que se encontram. Seus cantos complementam a melodia da floresta que comporta-se una em sua ressonância extasiante.
Em um determinado momento ela se permite apenas fechar os olhos e apreciar a sinfonia que a guia quase que instintivamente. O ritmo da música a tomara e a conduzia espontaneamente e só agora, depois de tantos passos sonâmbulos, ela vem a reparar em um ruído ao fundo que lhe é um tanto familiar. Havia ali algo que a remetesse ao piano emocionado que sua avó tocava.
As lembranças de sua velha lhe suscitam imagens vívidas das festas em família e ela descobre que o vinil que tocava nestas ocasiões também está presente na música da floresta, assim como o violino que ela tanto teimara em aprender a tocar, mas nunca conseguira tirar as mesmas notas que seus ídolos. Sua memória entoa exclamações que ilustram seu caminho desenfreado à fonte de todo aquele ruído.
O som progride em seu compasso e os passos já são involuntários. A floresta  torna-se cada vez mais densa e o dia esvai-se diminuindo a visibilidade. Os saptinhos, uma vez vermelhos, agora não se distinguem da cor da terra e o gato que estivera com ela já não podia ser visto. A magia que a encantou, agora a incomodava, e não havia muito que pudesse ser feito, pois ela já não tinha controle sobre seus membros e sentia-se impotente perante a situação.
O desespero de vagar pelo desconhecido em meio à escuridão tomava-a. Os galhos que podiam ser vistos eram deformados e tortuosos o vento uivava anunciando a noite gélida. O piano perverso ditava notas cada vez mais agudas e os instrumentos desafinam-se numa regência descompassada e ardilosa fazendo-a mero joguete, uma marionete dançante.
Ela roda e roda e roda, perdida e solitária e, de repente já não é mais ela a rodar, mas toda a floresta ao seu redor. Eis que as cordas tencionam  e um ruído estalido encerra repentinamente a música desatinada. O silêncio mortal toma conta da pequena clareira em que a menina se encontra, agora desacordada e estatelada no chão.
O vento sopra seus cabelos e seu vestido. Sua respiração demora até se estabilizar, mas quando o faz transmite o alívio do corpo. A paz imponente é decisiva: é o sonho de oito horas ou o crepúsculo da alma.
E por detrás das árvores que cercam o corpo jazido na grama a orquestra se indagava: “E se ela acordar?”

sábado, 23 de janeiro de 2010

Estou morto.

E confesso, foi no terceiro dia longe de ti.

quem diria que a eternidade é composta de setenta e duas horas?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Inconstante

Da meia noite ao meio dia sou narcisista e admiro cada uma de minhas manias.
Do meio dia à meia noite sou persistente em me livrar de todas elas

Lacuna


- Faltando alguma coisa?
Falta, o garçom sabe pela expressão. A princípio falta a coragem para admitir. Depois faltam lembranças que vêm fugindo dele há uma semana, o amor próprio que não foi encontrado nas redondezas do bar, algumas explicações a receber, confissões a fazer e a sobriedade tomada à força pela bebida. Falta a mulher que o colocou ali, os amigos que não o acompanharam e o dinheiro que o tiraria dali. Enfim.
-Falta outra dose.