sexta-feira, 29 de abril de 2016

Incerto

As raízes da desconfiança são uma ingenuidade mal podada.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Koan das Conveniências

"Nada é verdadeiro, tudo é permitido"
De fato. Mas também: 
"Tudo posso, nem tudo me convém".

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Raquel


Raquel,
Dizem que pode-se passar uma vida inteirinha sem sequer saber o que se passou. Que alguns poucos se dão conta do ocaso às suas vésperas e partem ocos, angustiados, rumo a um novo parto, talvez.
Outros se deixam levar desenganados pelo efêmero, ou num disfarce da insatisfação que nunca chega a maquiar-se bem, mas têm-os irresolutos em sua brevidade infeliz.
Há alguns que acabam por entregarem-se ao simples, mas sua sinceridade os sacia de tal forma que é possível enxergar o sublime no brilho de seus olhos. Deus é bonito de se ver.
Mas restam ainda alguns poucos que reconhecem-se impermanentes e por isso não se indispõem à vida, mas também não se satisfazem com o óbvio. Destes homens tem-se falado por toda a história da humanidade, precursores das grandes obras e tragédias: a eles não restam opções senão a conclusão de seu propósito mais íntimo. Menos é nada e o nada é um fardo pesado.
Eu que muito contemplei o Vazio nunca pude me dar ao comum. Assim desaprendi a resmungar desde cedo e nunca me entreguei aos deslumbres brilhantes que assaltavam aos próximos: o cheiro do verniz entope minhas veias respiratórias e eu me sinto angustiado ante o artificial. No entanto sempre me dispus ao transcendental, sempre fui de transbordar e é daí que vem a minha mania de excessos.
Eu tive uma vida estranha, marcada de acontecimentos que só eu parecia perceber e de um leve sentimento de não-pertencimento que instigou algumas boas introspecções, mas me privou de amizades sólidas, ao menos no início. E embora simpático e sorridente, talvez eu sempre tenha me levado a sério demais, inacessível  num mundo só meu o qual eu raramente abri as portas para alguém. No entanto, você.
Eu te quis. Mesmo antes de saber que você existia eu te quis. E te evoquei diante de mim como num círculo hermético, como a um anjo exuberante. E assim foi feito 
Devo dizer que você é o acontecimento mais marcante da minha vida. É a confirmação de minha assertividade e a origem do meu senso de religiosidade. É você quem confere responsabilidade à minha capacidade e é você quem assegura a ternura no poder. É a minha inspiração e a minha admiração, conciliadas e felizes. A personificação do meu ideal e portanto parte integral do meu propósito, já explícito.
Contigo, então, eu pude enfim contemplar-me completo, num êxtase incondicional que mesmo o místico desconhece. Pude então entregar-me, conhecer a paz e dela desfrutar um pouco numa trégua breve mas necessária. A ironia é que a batalha é mais árdua quando se está feliz. A graça é que só se conquista mais alegria daí em diante, não há espaço para o que é pequeno. Enormes como somos. Juntos.
É como eu havia dito: tudo ou nada. Mas eu já me decidi. Desde antes, desde muito tempo atrás. E pensar que eu não acreditava em fatalidades...

Obrigado.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

A Satisfação Plena Não Conhece o Revés


- Cessaram os monólogos?
- Você duvida de mim?
- Por que a pergunta?
- Pelo termo "monólogo".
- Ah.
- Não é porque conversamos em pensamento que eu não seja uma consciência autônoma. Aliás, quantos pensamentos são mesmo seus? E os que não são, que querem dizer?
- Legião.
- É o que são vocês todos.
- É o que somos todos.
- Veja que o paradoxo da diluição de si inclui, em primeiro lugar, a conquista da individualidade. Mas eis a ironia: nesse mundo de individualismo quantos de vocês sabem delimitarem-se? Quantos de vocês, neste culto à independência, realmente estão emancipados?
- Mas o que é a emancipação do espírito em meio a interdependência cósmica? Qual é essa conquista de individualidade quando o que somos é uma equação de tudo o que nos cerca, quando mal enxergamos o complexo emaranhado de influências que nos envolve?
- Pois tal é a sua condição. E não se engane rapaz, sempre foi assim. O homem sempre foi cego de si porque só pode compreender-se por meio do outro, mas nunca se dedicou a tal. Vocês costumam chamar esse modelo de percepção de ALTERIDADE.
- Mas por quê não olhamos ao outro? Por egoismo?
- Também. Mas também por inocência.
- Como?
- Quando são felizes e não o sabem sê-los. A percepção se limita pelo desconhecimento da dor, não há oposto para se contrastar, portanto não existe empatia por que o outro percebe sempre da mesma forma que você: não há nada além disso. A inconsciência do ideal subsiste desde antes da Queda, o velho paraíso. É essa pureza de experiências, essa inocência que atesta: a satisfação plena não conhece o revés.
- O egoísmo, então, é fruto da pureza?
- De forma alguma. Ambos têm suas raízes no homem que não é consciente de si, mas a pureza é a virtude do vazio e o egoísmo é o vício do cheio. E vocês têm se entupido cada vez mais.
- Então a conquista da individualidade que você menciona é o equivalente a esvaziar-se?
- Exatamente. Atingir a vacuidade e controlar todas as influências que lhe permeia. Estar ciente de cada partícula de si, equilibrar a equação, centrar-se.
- E os demais em relação a nós?
- Você é o outro e o outro é você e rearranjar-se, ou seja, resolver este quebra cabeça, implica em organizar suas relações e as suas situações inconclusas. Então pode parecer que o processo de conquista da individualidade conduza à separação, e conduz!, mas à separação do denso, do efêmero, das inverdades que se instalam em vocês. Esse processo de destruição da ilusão é o processo de união com o Eterno. É por isso que o místico, no cume de suas vivências, passa a enxergar Deus em tudo: ele reconcilia cada parte de suas experiências ao ápice e dilui-se em êxtase.
- E depois?
- Depois ele volta a enxergar tudo como exatamente É. Mas não é mais o mesmo.
- Como não?
- Assim.
- É isso a Iluminação?
- Pode-se chamar assim. 
- Qual é o propósito de iluminar-se?
- Não ter propósitos.
- É por isso que se iluminam?
- Iluminam-se por inevitabilidade. A saciedade sincera serena os anseios. Cessam-se os propósitos naturalmente; este é um meio e um fim em si mesmo. O apego também conduz ao desapego. Tudo o faz.
- Então por inércia eu transcendo?
- Se você aprender a não resistir, sim. 
- Como eu paro de resistir?
- Você pode começar pelo silêncio.

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