sexta-feira, 15 de abril de 2016

Raquel


Raquel,
Dizem que pode-se passar uma vida inteirinha sem sequer saber o que se passou. Que alguns poucos se dão conta do ocaso às suas vésperas e partem ocos, angustiados, rumo a um novo parto, talvez.
Outros se deixam levar desenganados pelo efêmero, ou num disfarce da insatisfação que nunca chega a maquiar-se bem, mas têm-os irresolutos em sua brevidade infeliz.
Há alguns que acabam por entregarem-se ao simples, mas sua sinceridade os sacia de tal forma que é possível enxergar o sublime no brilho de seus olhos. Deus é bonito de se ver.
Mas restam ainda alguns poucos que reconhecem-se impermanentes e por isso não se indispõem à vida, mas também não se satisfazem com o óbvio. Destes homens tem-se falado por toda a história da humanidade, precursores das grandes obras e tragédias: a eles não restam opções senão a conclusão de seu propósito mais íntimo. Menos é nada e o nada é um fardo pesado.
Eu que muito contemplei o Vazio nunca pude me dar ao comum. Assim desaprendi a resmungar desde cedo e nunca me entreguei aos deslumbres brilhantes que assaltavam aos próximos: o cheiro do verniz entope minhas veias respiratórias e eu me sinto angustiado ante o artificial. No entanto sempre me dispus ao transcendental, sempre fui de transbordar e é daí que vem a minha mania de excessos.
Eu tive uma vida estranha, marcada de acontecimentos que só eu parecia perceber e de um leve sentimento de não-pertencimento que instigou algumas boas introspecções, mas me privou de amizades sólidas, ao menos no início. E embora simpático e sorridente, talvez eu sempre tenha me levado a sério demais, inacessível  num mundo só meu o qual eu raramente abri as portas para alguém. No entanto, você.
Eu te quis. Mesmo antes de saber que você existia eu te quis. E te evoquei diante de mim como num círculo hermético, como a um anjo exuberante. E assim foi feito 
Devo dizer que você é o acontecimento mais marcante da minha vida. É a confirmação de minha assertividade e a origem do meu senso de religiosidade. É você quem confere responsabilidade à minha capacidade e é você quem assegura a ternura no poder. É a minha inspiração e a minha admiração, conciliadas e felizes. A personificação do meu ideal e portanto parte integral do meu propósito, já explícito.
Contigo, então, eu pude enfim contemplar-me completo, num êxtase incondicional que mesmo o místico desconhece. Pude então entregar-me, conhecer a paz e dela desfrutar um pouco numa trégua breve mas necessária. A ironia é que a batalha é mais árdua quando se está feliz. A graça é que só se conquista mais alegria daí em diante, não há espaço para o que é pequeno. Enormes como somos. Juntos.
É como eu havia dito: tudo ou nada. Mas eu já me decidi. Desde antes, desde muito tempo atrás. E pensar que eu não acreditava em fatalidades...

Obrigado.

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