segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Suor

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As cartas mais belas são aquelas cheias de rasura.
Encenam a dificuldade de serem escritas, o ardor com o qual o autor escolhe as palavras e o tremor que lhe afeta.
Que uma carta pressupõe um amante.
As palavras exigem algo além da indiferença e o capricho se esvai ao toque da sinceridade: Não pude maquiar minhas sentenças tortuosas e ilegíveis.
Reescrevê-las seria reescrever-me.
com amor.

Ps: a ausência do perfume usual.
Ps²: e, ainda assim, sei que tudo isso lhe cheira tão doce...

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Divergência

“As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e que nem todos se libertaram ainda”
Carlos Drummond de Andrade 

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O vento bateu tão forte que carregou consigo a iluminação. O suporte da vela jazia no chão ao lado da rolha ainda úmida pelo doce veneno rubro.
Nesta cena fora de foco as longas cadeiras ostentavam dois lugares vagos. As estrelas da noite haviam fugido e o abandono se fazia ainda mais gritante quando a lua, solitária, era feita de holofote. E o feixe de luz, perdido na escuridão, vagava pelos labirintos que eram estes motivos insensatos.
As taças largadas pela metade, num desperdício penoso. Os talheres, intactos, faziam-se sem sentido. As palavras, tão ensaiadas, nunca chegaram aos ouvidos, e uma hora a música cessaria.
Todo aquele cuidado com as escolhas provava-se inútil: as faixas chegam ao fim.
E, no silêncio, o vento uiva ardorosamente pelas frestas da janela, triunfante sobre a chama extinta.
Agora tudo é frio..

Soul

Apenas sou.



...and then I f l o w.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Legenda

Desfeito, encontro-me comigo mesmo.

Ignoro o relógio; sou pontual.

Tenho-me em minhas mãos, completamente entregue. E agora, em meu íntimo, juro que esta será a última vez que me traduzirei.

Que as frases e linhas, se serão lidas com ardor, malícia ou ingenuidade já não mais me importam!

E também já não cabe a mim fazer com que elas cheguem a quem lhes possuem...

Que o possuir é vago demais. A dedicatória é fingida, a introdução persuasiva e as notas sobre o autor nunca se diferem umas das outras.

As apostas sobre o fim já foram feitas; o jogo de azar é envolvente.

Mil e uma expectativas e todos eles estão cheios de razão.

E a razão matou o amor.

E o amor, morto, matou o autor.

E este se desfez.

Mas desta vez, de outra forma...