sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Dandelion

Talvez eu tenha me desfeito no momento em que te conheci.
Talvez você realmente tenha me tocado. Com uma mão delicada que tencionava ser suave mas força o limite e rompe cada um dos frutos de um dente-de-leão.
E talvez, Flor, este seja eu. Esvoaçado, sou apenas vestígios pelo concreto.
Sou pensamentos despidos, emoções ao léu...
Sou passos vacilantes de um nômade perdido.
Sou, enfim, romântico.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Meio a Meio

Que talvez fosse cedo demais. Mas talvez o tempo fosse medido pela vontade.

E talvez o tempo era mesmo curto por que a vontade era demasiada.

Que o tempo se tateava no medo do não ser recíproco e a vontade se envergonhava de ser tamanha.

E ambos se encaravam almejando serem um pouco mais equivalentes.

Mas o tempo, que queria ser tão maior, era tão lento quando estavam distantes que até nomeava a vontade de “saudade”.

E a vontade, que era tão imensa, se escondia com medo de ser notada e taxada de precoce.

E viviam tão inquietos que quase se esqueceram que só faziam sentido juntos.

E quando o tempo se declarou para a vontade, da pontinha de seus pés para estar mais próximo aos olhos dela, ambos aquietaram-se em um olhar demorado.

E talvez o tempo fosse mesmo medido pela vontade.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

sábado, 8 de janeiro de 2011

Insônia




“Você não vai conseguir dormir” repetia dentro de sua cabeça a voz em tom resoluto. A escuridão confortável àqueles olhos sensíveis extingue-se com a porta abrindo-se. O dia nasce e quer entrar e os pássaros comemoram longe.
O quarto velado por roncos leves de quem está em repouso profundo e o barulho da goteira que distrai quem não tem este conforto. A paz alheia sempre trouxe muita inveja ao mundo e há aqueles que não conseguem se aquietarem instantaneamente, com uma cabeça incessante quando todos já desmaiaram e foi anunciado o término da festa. Pensamentos que sufocam sonhos, o sono perdido na noite finada.
A tranquilidade do ambiente se desfaz num tormento próprio, invisível aos demais: Morpheu renegou-o e o dia é um fardo. A porta aberta revela a poça de água se expandindo por um chão tomado de cobertores e colchões, entrelaçados em uma orgia de roncos e suspiros da qual ele havia sido excluído. Que se afogassem todos num sonho líquido comunitário!
Já não contava carneirinhos pulando uma cerca qualquer, mas as gotas que iam do teto ao solo, numa vaga esperança de esquecer a profecia das vozes em sua cabeça. Odiava os monólogos internos que tinha consigo, principalmente nos finais de festa em que via os vestígios de uma escassez de propósito por todo canto. Talvez estivesse ocupado demais com a sua consciência para conseguir cerrar os olhos; talvez já não houvesse reparo se não reparar... Como eram hipnóticas as dobras que os vestidos das garotas assumiam naquele breu, num convite agora expirado, tardio. O laço que se desfez e as rugas que se fizeram: amarrotado nos créditos, tela preta, fim de filme.
Deteve-se em seu leito improvisado sem atravessar linhas imaginárias ou desmascarar fantasias. Sua realidade particular o bastava: detalhada e delineada sob medidas, exclusiva! Dançou em seus trapos observando o aposento que dividia com os outros de olhos empapuçados de areia, enquanto os dele, leves e limpos, davam-lhe a oportunidade de assistir o quarto tomado pela calma.
Desconhecia o tempo. Horas e minutos são do terreno do comum e o público as aplaude em conjunto, porém aquele cómodo já não se situava no convencional ou no cotidiano, senão num teatro de ilusões cujo palco envolvia suas marionetes inanimadas e seu astro desperto em contemplações múltiplas.
As paredes ganhavam vida e suas fissuras e rachaduras eram cicatrizes que remetiam a histórias antigas. Os quadros como adornos, vívidos como as imagens na televisão, aprofundavam o ambiente, executavam os limites e projetavam-no em paisagens atemporais que o recebiam cordiais como quadros devem se portar aos olhos de quem os admira.
O estrangeiro então adentrava às pinturas num mergulho longo e demorado, em um impulso por liberdade e, imerso em devaneios, perdeu-se em seu oceano.
Do lado de cá, no quarto, a calma de sempre, perpétua:
A poça d’água crescera além das proporções.