segunda-feira, 22 de abril de 2013

Achado


Eu só tinha alguns trocados no bolso e a vontade de levar-lhe alguma coisa.

Quando roubei aquela rosa, pensei que cometia o maior pecado do mundo. Roubava-a da praça para levá-la comigo ao meu amor. E me quedei a pensar que longe dos olhares do público ela encantaria somente à minha garota e que talvez este fosse um ato de egoísmo exacerbado e que fosse uma pena que os demais não pudessem vê-la depois de meu crime.
Mas pensei também que estes não poderiam ver o seu sorriso e a sua surpresa, tão mais sinceros do que os olhares dos passantes, que talvez nem notassem a solitária rosa, distraídos que são em suas caminhadas pela praça.
Então indaguei-me o por que de aquela rosa ter sido plantada ali. As flores cumprem seu papel estético? Tornaram-se meros elementos decorativos? E alguém chegou a pensar na função poética da rosa? Pois quando um amigo sugeriu-me este ser o ato mais romântico que ele podia pensar, soube que a dor da privação coletiva é a concepção da poesia.
E qual ápice mais lisonjeiro para a afanada rosa? Ainda que pertencesse agora àquelas mãos desajeitas, seu desfile era certeiro pelas ruas da cidade. Seja no ponto de ônibus ou na avenida principal até a casa da mulher que a receberia com estima, agora a rosa cumpria seu papel poético.

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