domingo, 18 de dezembro de 2011

Ensopado

As gotas correm por um rosto deformado que sustenta, no entanto, os mesmos belos traços de sempre. Desleal: que lhe falta um sorriso nesta face ensopada pela chuva persistente e sobra-lhe alguns pensamentos pendentes, vestígios de sua intensidade voluntária.
Ela ficara marcada em seu semblante. E com o vidro do ônibus de volta embaçado, a ausência da coragem em imprimir-lhe algum desenho, alguma frase. Deixara de ser impetuoso: pensava em quão definitivas seriam aquelas palavras contidas, o receio de encarar-se em versos curtos que lhe refletissem a indecisão. Mais: sua impotência perante o destino.
E a despedida que se fez ligeira. Que se fez insuficiente, que resultou nestas palavras. Mas, querida, ao contrário de tantos outros aos quais eu deixei subentendido o mundo em versos, idênticos a estes!, à você a necessidade de ser explícito. Tanto, que me marcas diretamente no rosto, em olhos pequenos e distantes, pensativos numa solidão conveniente.
Tens, então, longe daqui, destas linhas ensaiadas e refeitas, o nó desfeito. A garganta livre de amarras sussurrando, no nosso tom de voz, o que eu havia deixado passar.
E que passe a chuva, passe o tempo, estraño, como sempre. As marcas vão passar logo. E você?

Um comentário:

  1. Eu te amo! Puta que pariu, amo muito, muito! Isso foi lindo, sério, mais lindo que todos os outros. Lindo!

    ResponderExcluir

Comentários?