quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Colcha de Retalhos


Eu sempre soube de algo que nunca ousei mencionar. E do receio do verbo adveio o esquecimento. O esquecimento é como a morte: auto persuasão, confecção de finais, adulteração da realidade objetiva.
Por mais que Verita me alertasse, e ela tinha essa mania indelicada de zumbir em minhas cabeças como quem fala, fala, fala e nunca diz nada, eu a ignorava por completo. Em partes, por que de fato eu achava que ela não dizia nada, e seu zumbido era irritante, e já tão baixo, que eu não me dava o trabalho de procurar entendê-la. Em contrapartida, eu estava gostando da sensação de sentir-me Maya, tecelã, encoberto de mil-e-um véus e à vontade para me esconder das luzes.
Verita era minha conselheira e eu não me desgarrava dela por um minuto que fosse, ainda que naquelas épocas eu não estivesse muito interessado em suas recomendações. Eu andava colecionando trapos e juntando-os à minha colcha de retalhos, e ela tinha pra mim toda a sua reprovação no olhar. Quanto mais remendos eu adquiria, mais rouca Verita se tornava e, apesar de amável e doce, ela chegou a ameaçar nunca mais dirigir-me uma palavra. Eu não me preocupei com a sua ameaça, pois sabia que ela não podia se calar, mas o volume de sua voz cada vez mais diminuto era algo a me inquietar.
Eu não sei explicar qual é a sensação de ignorar-se. Provavelmente todos a conhecem bem. Quando se está cego nunca se está errado e as responsabilidades nos evitam de tal maneira que não temos de quê nos queixar, senão dos demais. A cegueira faz-nos detentores de conhecimentos que nunca estudamos e portadores de razões inabaláveis, concede-nos autoridade e rigor, e ainda uma ligeira surdez, que é bem confortável por amenizar as loucuras que escutamos por aí. A minha vida tinha se tornado simples e pacata, e é claro que eu estava chateado com a situação de Verita, mas não havia motivo para aquilo ser um incômodo monumental. Essas coisas acontecem.
Certo dia eu conversava com um senhor religioso que me ofertava com muita estima um novo lenço. Eu não vi quando Verita caiu ao meu lado, tal era o meu interesse naquele retalho. O lenço era um trapo, mas me era inédito e integraria minha coleção de todo jeito. Mas enquanto conversávamos animados, eu notei o silêncio opressor a me incomodar, digno de fatalidades: o trem desgovernado descarrilha. Olhei aos lados procurando por Verita e lá estava minha miúda consciência, estatelada ao chão e desacordada. Pedi licença ao senhor que nada compreendeu, e parti para acudi-la e reanima-la. As coisas ficaram estranhas.
Verita demorou a se recuperar. Passou três dias sem voz alguma, tentava falar, mas não emitia qualquer som. Estava quieta, introspectiva, um tanto mudada. Eu me sentia culpado pela situação. De alguma forma eu sabia que a minha postura vinha a incomodando. Eu não estava sendo um bom companheiro. Os meus pedidos de perdão foram aceitos, mas a indiferença com que passara a me tratar fazia com que eu me sentir abandonado. Eu já não me sentia confortável em viver circundado em meus véus e me ocorreu um pensamento de que talvez não fosse Verita quem estava emudecendo-se, mas eu quem ensurdecia cada vez mais. De fato era.
Demorei muito para escutar Verita. Demorei para perceber que minha consciência não estava amordaçada, mas o meu conforto barato era o regulador das realidades. Os véus em que eu me enrolava acabavam por me sufocar e a minha percepção viciava-se em lógicas óbvias e previsíveis. A minha coleção de dogmas demorou a ser desfeita. Estive em recuperação após os agravos que cometi contra mim. Quando pude enfim conversar com Verita eu lhe dei a atenção devida, e não as migalhas que costumava dispensar. Foi quando ela me falou do desapego e de como os homens precisam enrolarem-se para sentirem-se seguros. Foi quando eu me senti ingrato e injusto.
Acabei lembrando do segredo de quando eu era pequeno: 

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