quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Dios Nudo


- O que você quer da vida?
- Idealmente?
- É.
- Bem, eu gostaria de possuir a Estátua da Liberdade.
- A Estátua da Liberdade?! Por que?
- Eu acho a Estátua da Liberdade o maior símbolo da ironia moderna! E é mais genial ainda quando você pensa nela ilhada e distante da população, segurando a tocha em meio ao oceano.
- Eu nunca tinha pensado dessa forma...  De todo jeito, não é o monumento mais bonito. Digo, em todos os sentidos.
- Não mesmo. Eu só a escolhi pela brincadeira. Tenho algum receio do Sonho Americano e da metonímia do Ideal. A exaltação do excesso e a política do desnecessário: uma fantasia, um luxo, o esporádico, a curiosidade que mata o gato.
- Como assim?
- Assim. Agora, por exemplo, eu comecei a me preocupar em onde eu colocaria a estátua se eu a tivesse. E é um problemão. É claro que eu poderia desejar uma casa grande, com um jardim exuberante e usá-la como espantalho, mas por que eu divagaria? Eu acabaria me adiantando, e o presente é o verdadeiro ideal.
- É o futuro o ideal do presente?
- O ideal é como o Pleroma: falar sobre ele lhe distancia da concepção. Aliás, o Pleroma não deixa de ser o Ideal. Logo, o ideal do presente é o próprio presente.
- O conformista sente-se confortável?
- Quase. O conformista despercebe o conforto, apesar de aproximar-se da sensação da plenitude. No entanto, o que ele vivencia é o marasmo da existência. Ao contrário do homem confortável, em estado de nudez com Deus, que sente seus pelos eriçarem com a menor brisa que lhe toca.
- Então há diferença entre as duas facetas?
- Há um Abismo! É claro que estas são apenas denominações, figuras arquetípicas...
- Mas o que é que aparta o conformista do conforto?
- É uma questão de livre arbítrio. De autoestima essencialmente, mas esta também é uma opção do ser. Confortável é aquele que tem-se por ideal, e note que não há qualquer itálico em tal idealismo, pois é um ideal ímpar. Mas o conformista não sabe vivenciar a sua individualidade. É o que o faz importar conformes e ideais e vivenciar o escapismo do autojulgamento.
- Medíocre por assim se crer.
- Pobre de crença.
- A concepção do ideal é a verdadeira humildade: aceitar a si e, portanto, ao mundo. Eis o êxtase do espontâneo: parir-se, dar-se à luz, enternecer-se. É este o conforto do qual eu lhe falo e do qual a vida não poderia conceder-me, posto que já me pertence. É este o sorriso que conclui as frases e estampa o silêncio.
- Pois gato que não sorri, morre de curiosidade.

***

- Posso te fazer uma última pergunta?
- Claro!
- E se você chegasse a realmente pôr as mãos na Estátua da Liberdade algum dia?
- Eu abria um escritório de advocacia.

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