segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Calão


- Eu tenho vivido situações que se eu te contasse você não acreditaria.
- Por que você não tenta? Talvez eu acredite...
- Mas talvez, se eu partilhar minha fascinação, posso perdê-la.
- Ou talvez você possa contagiar-me. Seria interessante.
- A curiosidade tenta o casto. Há um tanto de luxúria em dizer mais que o necessário.
- Você já pecou hoje.
- Sim, perdoe-me pelo diálogo impertinente.
- Incômodos à parte, o perdão é arte. Eu só não entendo essa sua resistência em se abrir para os outros...
- Não é questão de me abrir, é questão de banalizar algo sagrado. Eu não sei se eu teria vocabulário para convidá-lo à minha galeria experiencial sem que a visita se tornasse algo tedioso. E a questão não é o que você vai experimentar, mas como a sua experiência afeta a experiência primária. É uma relação ambígua onde causa e efeito diluem-se, perdem suas definições.
- Mas, ao mesmo tempo, você sente esse impulso de querer exibir o belo. Seu belo. Sem saber se ele só o é, realmente, aos olhos dos outros. E o impasse transcende o silêncio, à beira do profano.
- Debruçar sobre o abismo nos suscita as questões relevantes de nossa existência. Por vezes nos deparamos com formas de cruzá-lo sem que deixemos muita da nossa bagagem para trás; outras, no entanto, exigir-nos-ia um sacrifício do qual não nos dispomos a cometer.
- É questão de vocabulário, então?

- Temo que sim.


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