quarta-feira, 2 de março de 2016

Paradoxos da Virtude

Estavam reunidos em torno de um homem que enrabava uma cabra com gosto:
- De sumo sacerdote a pastor convicto.
- A vida é da ordem das ironias. É assim mesmo: os altos e baixos das encarnações...
- Eu não acredito que o véu do esquecimento seja tão espesso assim.
- Isso não é só sobre esquecimento. É mais sobre as disparidades da consciência.
- Não sei se lhe compreendi.
- O ser humano é volátil, seu comportamento é inconstante e por ser facilmente influenciável, torna-se contraditório e cumpre a Impermanência de forma peculiar.
- Isso faz da dualidade seu maior desafio.
- Faz da perseverança a virtude do sábio.
- Como aquele tolo que persiste em seus disparates e ilumina-se.
- Mas o homem, que se entrega à qualquer distração diante do ócio, prova que a insegurança é o instinto que lhe guia, que lucidez alguma compensa a solidão da carne e faz parecer seus acertos mais distintos meras coincidências.
- No entanto não o são. E é isso que os faz incríveis e imprevisíveis, reservando-lhes o direito de a qualquer momento recobrar a consciência do que são e retomar seu progresso, seu ponto mais alto.
- É interessante essa plasticidade da existência. Que ao mesmo tempo que tudo cumpra a ordem mais perfeita, ainda assim pode ser reorganizado para uma ordem ainda mais sutil...
- ... e então compreender ainda maiores aspectos da Unidade.
- E pensar que um dia chamaram essa liberdade de perdão, que condicionaram-se à permissões alheias para poderem exercer suas virtudes...
- É uma pena que a vergonha os iniba de reformarem-se e acabe por lhes imputar uma vida de remorsos recaídas.
- Mas assim são os covardes e esses são os altos e baixos da vida dos quais falávamos. Deixemos que assim seja, a experiência humana de fato constitui-se de paradoxos.
- Bem, suponho que não devamos intervir neste romance, portanto.
- Deixemo-los. Sabe, nós devíamos comemorar.
- O quê exatamente?
- Essa época em que ainda não existe internet. Você já deu uma olhada nos amanhãs?! É tanta gente justificando resignação e aplaudindo a infertilidade que eu fico desconcertado...
- Eu pensei que você estava falando de outra coisa.
- O que?
- Vídeos de homens enrabando cabras.
- AH NÃO!
- Pois é...

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