quarta-feira, 9 de março de 2011

Soneto

Dizeis-me que sou um poema. Que agrado à todos, cada um com suas contentes lembranças que tiram de mim e que, afinal, em essência, não sou nenhuma destas lembranças.
Dizeis-me que sou esta poesia porque trago alegria, mas, por trás de máscaras de palavras, este sim, sou eu, triste.
Dizeis-me que me queres curto, para que possa levar-me contigo no bolso, sem que o vento ameace tirar-me de ti. Mas, querida, esqueces que a poesia é livre; e esqueces que a tristezza é complexa demais para ser curta. E que mesmo o curto não está a salvo do furto.
E dizeis-me que me queres rimado. Que ressôo como eco em teus ouvidos por horas a fio. E lhe desperto calafrios ao som das lembranças dos sussurros. E, posso sim, ser melodioso. Mas não me peças para ser métrico, que sou inconstante demais para isso.
Exigistes de mim o término em reticências, mesmo sabendo-me ser tão definitivo... E sabeis que a minha vaidade não permite um refrão extra após o ponto final.
Que, se afinal sou um poema, sou um soneto de versos contados.
Declamado com ardor
e expirado em um suspiro.

5 comentários:

  1. descrever-me melhor do que um "soneto" que não é soneto?!

    ResponderExcluir
  2. 'Mas não me peças para ser métrico, que sou inconstante demais para isso.
    Exigistes de mim o término em reticências, mesmo sabendo-me ser tão definitivo... E sabeis que a minha vaidade não permite um refrão extra após o ponto final.'

    Isso é MUITO você Chico.

    ResponderExcluir
  3. Só não entendi o 'tristessa'. :)

    ResponderExcluir
  4. MARAVILHOSO!

    Uma delícia descobrir estes anseios... Melhor passeio que fiz pela manhã.

    ResponderExcluir

Comentários?