terça-feira, 19 de junho de 2012

Extraordinário


Dentro de toda ampulheta há um grão de areia negro. E se os grãos, todos, já são negros, há nesta outra ampulheta um branco, claro como a neve. Sobre este grão excepcional duas coisas têm de ser ditas. Começo pela confecção do objeto que intriga a tantos.
Aquele pequeno grão do oposto não é colocado ali propositalmente, pois não há uma finalidade ou motivo místico para a inserção desta peça destoante e tanto trabalho gratuito é descompensado.
O mistério, portanto, está na forma como este princípio de ironia se manifesta, pois mesmo que o artesão selecionasse cuidadosamente cada grão de areia, após o envasamento final fatalmente o grão se revelaria.
Há quem explique o fato como um processo de seleção natural em que o grão mais apto destaque-se dos demais adquirindo uma tonalidade contrastante. No entanto há lacunas nesta teoria, pois a característica saliente não é especificada, dando possibilidade ao acaso como solução.
Há outros que acreditem na materialização simples do grão, como se ele fosse inerente à ampulheta. Desta forma, o grão diferente não faria parte da composição original da areia colocada ali, mas seria, portanto, um grão extra na contagem do tempo e que parece não interferir, pelo menos significativamente.
Outro ponto a ser esclarecido é sobre a forma como o grão em destaque é percebido. Há muitos relatos de pessoas incapazes de verem o grão e outros tantos de pessoas fascinadas com sua existência. Isso é explicado pela insensibilidade visual de alguns, decorrente de seu enclausuramento mental. Em Portas da Percepção Huxkley soluciona o aspecto do indivíduo “conformado”, mas não a dúvida que aqui se apresenta. O dilema posto em jogo confere personalidade ao grão: são as pessoas incapazes de enxerga-lo ou é ele quem se esquiva dos olhares dos insensíveis? É uma postulação bastante coerente coloca-lo como simpático a quem enxerga além, visto seu simbolismo ser desnecessário aos demais.
Houve um rei, certa vez, que tendo descoberto o segredo do grão destoante dedicou-se à dilatação de seus sentidos até comprovar com os próprios olhos sua existência. Exigiu algum esforço do monarca, pois seus vícios eram uma venda de primeira-mão e este não estava acostumado à lapidação de sua consciência nem a constituir relações de intimidade com objetos. No entanto, houve o dia em que o grão revelou-se ao rei e este quedou-se maravilhado com o segredo desvendado.
Aficionado com a peça, o chefe de estado reuniu seus alquimistas ao redor da ampulheta selecionando um grupo de pessoas que podiam ver o grão. Os alquimistas todos já sabiam da lenda oculta, porém, algumas outras pessoas que ocupavam cargos de confiança do rei ficaram perplexos com o que se expunha. O rei, exaltado, ordenou que fosse extraído o grão contrastante da ampulheta e levado até ele, pois ele queria manusear aquela preciosidade.
Os alquimistas protestaram de imediato afirmando que o grão não podia ser extraído, pois era o contexto que o compunha e que fora dali ele não existia. No entanto o rei, fora de seu juízo, persistiu em sua ordem e, ignorando o aviso dos alquimistas, fez com que seus outros súditos assumissem a tarefa manual e trouxessem-no o grão.
Após a milésima tentativa frustrada os súditos voltavam ao rei dizendo que inexplicavelmente o grão evaporava-se quando o vidro da ampulheta era quebrado. Incapaz de compreender a mecânica extraordinária do objeto, o rei entrou em colapso, numa crise atordoante que durou algum tempo até, enfim, suicidar-se. Relatos posteriores à sua morte revelavam que nos últimos tempos o rei já não era mais capaz de ver o grão incomum da ampulheta e que isto contribuiu para seu trágico fim.
Após este acontecimento a população passou a maldizer a história e a lenda caiu no esquecimento sendo mantida apenas verbalmente, numa tradição oculta daqueles que realmente se aproveitariam dela. Os lábios da sabedoria só devem ser abertos aos ouvidos do entendimento. É assim que os alquimistas entendem o conhecimento e esta é a proposta de ensino mais coerente e eficaz.
Com pesar, eu reconheço ter quebrado esta regra. Mas transpassando-a, vou além citando o axioma revelado a mim quando pude ver o grão-de-ouro pela primeira vez. O sábio me disse:
“TODO E CADA DIA POSSUI UM MOMENTO MÁGICO”
e rematou:
“NÃO DEIXE-O MAIS PASSAR DESPERCEBIDO”
e eu entendi: se você se esquece dele, ele se esquece de você.

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