quinta-feira, 4 de março de 2010

Sinfonia de uma Manhã Nublada

É manhã. Mas de tão cinza quase que ainda é madrugada. E eu me desperto tão sonolento que, sem convicções de realidade, tudo que acontece é automático. A mesa de café já posta, me esperando desde a noite anterior, recebe os frios que distribuo aleatoriamente sobre ela. Resolvo presentear os vizinhos e, no velho rádio da sala, Yann Tiersen bate os dedos nas teclas do piano iniciando L’autre Valse d’Amelie. A televisão quase pulsa para reviver Amelie revirando páginas e páginas de fotografias 3x4 de rostos desconhecidos.
A música refresca minha memória e agora eu estou deitado junto a ela no chão desta mesma sala. Cortinas fechadas, luzes desligadas e o som a nos envolver. Seu cheiro volta tão intenso que esqueço propositalmente o perfume para tê-lo mais tempos em lembranças.
O sair de casa é quase doloroso, mas o cheiro da chuva me instiga a ver a rua. A vontade é de ir a pé sentindo as gotas na cara lavando o sonho lúcido da música. E, talvez eu resista e coloque o fone nos ouvidos para prolongar meus pensamentos dançantes. Talvez eu resista ao horário e me permita chegar atrasado.
E ao pegar a chave do carro já está tudo decidido por que ela me lembra da promessa que tinha feito a ela de passar em sua casa e dar carona para a fuga que arquitetamos juntos. Me lembra de ligações corajosas terminadas em “estou indo aí” e da falta de compromisso: que sempre me perdia no caminho em labirintos de confusão mental, que minha hesitação me limita, que a brincadeira sempre me causou medo e o medo de ser brincadeira.
Deixo as chaves em casa, coloco meu casaco xadrez e saio na garoa com um sorriso pequeno de quem se diverte com seus pensamentos calados. Piso em galhos, chuto pedras, sigo distraído da rotina, mas atento a cada detalhe da manhã nublada. Borboletas escondidas, carros enfileirados, caras fechadas e olhos também. Guarda chuvas empinados e do alto da passarela um mar deles. Um arco-íris de cores vivas e, ao mesmo tempo, artificiais. Alguns em luto, sérios, pretos, que se camuflam no cinza e passam despercebidos. Gosto de observá-los. Geralmente senhores com a vida marcada nas rugas do rosto, mas, em momentos, emprestados a jovens e garotos que seguem a caminho de seus compromissos.
E de tanto criar histórias para a vida destes passantes anônimos acabo eu mesmo virando um personagem. Quando me dou conta sou um vagante apaixonado pela menina do outro lado da rua e torço para ela vir pro lado de cá; e penso se sou eu quem deve atravessar; e aumento meu passo para alcançá-la em seu ritmo. E me lanço em gestos para alcançar sua atenção, seus olhos tão focados no passeio trincado.
Ela pára, levanta o guarda-chuva triste que tampava seu rosto e me despe com os olhos. Me vasculha friamente e solta um sussurro no ar. Leio seus lábios com afinco e a pronúncia de meu nome e me sinto atado ao descobrir que já estou quase na casa dela, que meus pés me guiaram para cá e que ela me espera do lado de lá.
Eu hesito novamente, penso nas promessas e a vejo esperando. De súbito sou tomado pela vontade e sigo meus passos sobre o asfalto. Ela me acolhe sob seu guarda chuva e eu coloco um fone em seu ouvido e ficamos em silêncio olhando em direções diferentes. De repente nossos olhos se encontram e acontece um beijo.
As palavras vêm me cobrando um passado “e a nossa fuga?” e deste momento já não estamos mais naquela rua e já não somos mais história.

4 comentários:

  1. Como é bom, ler pessoas que também sentem prazer em "enfiar a mão bem fundo no saco" de sentimentos e entendimentos de Amelie Poulain! - hashash - adorei o texto! (deu até vontade de ver o filme outra vez! - das centésimas!)

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  2. Amélie é muito bom mesmo! HUASUHAS
    =]valeu cara!

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