terça-feira, 16 de março de 2010

HALLOWEEN

Estive exausto. E então me pego sozinho em casa, numa noite nublada em que as estrelas se escondem e a lua foge dos olhos de algum amante-vagante. Vim pelas ruas, desacompanhado da claridade prateada, e a pensar no que tinha feito. A princípio o tempo passou devagar: as sirenes eram para mim e os vultos me perseguiam. Mas então resolvi me sentar no meio fio de uma avenida qualquer e assistir os carros e o tempo passarem enquanto esperava pelo peso da consciência. Enquanto esperava pela atuação policial, a justiça, o destino.
Mas a paciência me faltou. E a viatura, confusa, rodava noite a fora, mas bem longe do local. Atrapalhados, homens da lei, em busca de saciar um desejo sádico que os motiva a profissão. Confesso que até me mantive sóbrio e intacto como uma prova deve estar:
As mãos sujas do sangue já seco o qual eu não tinha coragem de limpar – Na verdade a coragem que faltava era o fascínio pela obra de arte que eu havia criado ao acaso. – E me apreciava de cima a baixo. Esticava meu corpo para poder ver cada detalhe de meus músculos e as marcas que ela havia me deixado. Procurava-me em deus, meio que o julgando por não me possuir em sua caracterização; meio que o rebaixando por não me ter como associação primária e única.
Quis, assim que cheguei, um copo de uísque. Servido com bastante gelo e acompanhado da música clássica. Então pude me recostar na poltrona sob a meia luz da sala. Estive comigo mesmo durante toda aquela madrugada a reviver os detalhes lividamente: Excitado com os gritos, suas faces, e a me perguntar se ela sabia quão convincentes foram suas expressões durante o espetáculo. Aplaudi, inevitavelmente, de pé. E a dúvida persiste no fato de não saber se ela chegou a me ver, mas a certeza de tê-la feita sorrir para as fotos Polaroid me acalmou. - Insisti em capturar o momento, pois quando se planeja uma noite, espera-se a perfeição. Mesmo que alguns imprevistos venham a ocorrer, uma bela noite nunca deve deixar de ser bela!
As rosas, românticas, fizeram minha apresentação usual. Aceitou-as surpresa e as quis logo colocar num vaso de água, mas eu a impedi dizendo que tinha outras idéias para elas. Em sussurros entrecortados ao pé de seu ouvido fui logo sendo dispensado e abandonado na sala de estar enquanto ela se retirou para o quarto por alguns minutos.
A volta, marcada pela sensualidade em suas vestes e o suspense do caminho até o aposento, me levou direto ao perfume desesperado das quatro paredes; de um agradar necessário e da vontade de ser lembrada e celebrada como mulher ideal. Espalhadas ao redor da cama, as rosas tiveram suas sombras ampliadas pelas velas distribuídas pelo chão.Velas ansiosas, aguardando a presença do amante. E as paredes! Ah! No fim, tão vermelhas quanto as pétalas, deram um tom impecável para a fotografia da noite.
Quis ter seu corpo ali para sempre. Não cabiam outras linhas naquela história, não havia um porquê para o futuro, não havia mais vida para a sua personagem. Era rua sem saída, querida. Sempre foi, desde o momento em que abriu a porta. Apartamento de quinta, decorado com a luxúria de quem se preza. Seus olhos pintados, e as suas rugas maquiadas, e o seu sorriso retocado com a cor excessiva.
E teus lábios vermelhos nunca foram como aqueles que me tocaram num halloween passado. Bastou-me as fotos para comprovar.

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