quinta-feira, 23 de abril de 2009

Lábios Vermelhos

Lábios Vermelhos

Subo a escada de incêndio e abro a porta dos fundos. Entro em casa com passos delicados e ligo o antigo rádio. Toca “Friday I’m in Love” do The Cure e no mesmo instante me lembro de você, fecho meus olhos e começo a dançar sozinho, porém acompanhado de minhas lembranças e de uma expressão de êxtase.
Cato um lenço de pano e passo-o pela minha nuca para sentir a essência. É o teu cheiro que se instalou em mim, mais ou menos, como seus olhos se encaixaram nos meus e ali se acomodaram pelo resto daquela noite. Pego o lenço e passo-o nos meus lábios para capturar o que sobrou dos teus pintados de vermelho. Consigo ver a tua boca no borro que se formou.
Danço livre e levemente pela casa. Vou para a cozinha à procura de uma faca. Volto à sala com ela e de uma gaveta qualquer da dispensa trago em mãos uma boneca de pano. Corto-a toda, tiro seu cabelo fora, tiro seus braços, suas pernas, rasgo seu vestido xadrez, mas tudo em vão. O que eu quero mesmo são seus olhos de vidro que tanto me fascinam, então vou logo ao trabalho e os arranco violentamente.
Junto aqueles olhos brilhantes, os embrulho no lenço e guardo em uma pequena caixa ornamentada que tirei do meu bolso. Aumento o som e troco minhas roupas. Visto uma calça social preta com suspensórios e uma camisa branca velha e vou ao espelho olhar meu cabelo. Ele está bagunçado do jeito que você deixou. Foi quando você me disse que achava que eu ficava bem melhor com aquele cabelo e minha cara de bobo. Você sabia que era você quem me deixava bobo daquele jeito?
Arrumo os lençóis da minha cama e abro a janela. Dou permissão para que os primeiros raios do Sol que ainda vai nascer entrem livremente e compitam com a luz das velas. No total são sete. O quadro da parede está meio torto e a porta do guarda roupa não está trancada: perfeito!
Agora o telefone me chama, me chama, me chama e eu me esguio pelas paredes do quarto para que ele não me escute e nem me veja. Reviro a roupa usada no chão: fiquei com o número do telefone teu. E como posso suportar a ansiedade se não consigo sequer me esquivar do meu telefone sem me arrepender ou ao menos preocupar? Mas já é um passado morto enquanto não tocar novamente, por isso aproveito a brecha para fugir...
Então pego as chaves jogadas no canto da entrada, ao lado das teias de aranha que guardam a porta principal que quase nunca é aberta: não gosto de visitas, apesar de que adoraria te ter ao meu lado, ainda que o que posso te oferecer não seja muito. Passo pela mesa principal e tantos remédios para nada! Nada me proporcionaria algo semelhante ao que eu sinto durante toda essa madrugada... doente de ansiedade espero que você me cure.
Desço agora pelas escadas do prédio, passando pela porta dos vizinhos que se incomodam de me ver ali. Os morcegos vão me acompanhando e há alguns gatos em suas sinfonias solitárias e individuais a vaguear pelos pisos. Tudo que quero é ver te de novo e assistir você me contando de como foi o seu dia, e o que você quer fazer no fim de semana e seus planos para o futuro.
Pego meu Cadillac rosa e não tenho muito tempo, o sol está prestes a nascer e sua casa não é tão perto assim. Na verdade eu nem sei se sei chegar lá. Descobri seu endereço depois de tantas buscas, ligações, conversas... Tantas satisfações a anônimos, tantas chantagens e trocas de informações, mas sigo a avenida principal como deveria, e daqui a dois quarteirões devo virar à direita. A caixa está repousada no banco do passageiro, onde em meu sonho você se sentará em alguns minutos.
Parece ser seu prédio e parece ser você na janela, apenas uma sombra atrás da cortina, com insônia, mas se convencendo de estar sonhando acordada. Seu telefone acorda e te toca de que realmente te espero. E como espero! Por tantos meses... com tantas luas e tantas lágrimas.
Revira teu guarda roupa e em segundos vêm correndo me ver! Teus lábios tão vermelhos e teu cabelo ao vento, teu cheiro e tua risada. Rápido, entra e esquece o mundo! Fecha os olhos e esqueça tudo hoje!
Você pega a caixa e os dois olhos de vidro estão lá dentro. Você percebe o cheiro e o borrão e dá aquela gargalhada louca para me mostrar que é o mesmo perfume, é o mesmo batom e é o mesmo sentimento: nada mudou. Você pega um dos globos de vidro e guarda em meu bolso e amarra o outro em teu colar.
Então eu ligo o carro em direção à estrada e você liga o rádio e a música que começa a tocar é “Mint Car” e o Sol está nascendo no horizonte. Estamos indo...
...estamos indo para sempre.

3 comentários:

  1. apesar da visão mareada, consigo enxergar com detalhes a lembrança da noite passada. já não ligo para o relógio, se é tarde, se é cedo tanto faz, a verdade é que tenho estado acordada por noites - que neste momento se tornam seculos longos.

    estou na janela, atras da cortina, me convencendo de que sonho acordada, quando na verdade sussuro preces particulares sentada, sedada com algum porre pra esquecer da vontade, esque

    tenho algo no estomago, não sei o que é, o telefone toca, eu sei quem me espera, mas estou no banheiro vomitando 30 peroloas do colar que voce me deu e eu decidi comer.

    no banheiro, mais uma vez, e mil vezes agora, ouço o telefone aflito, não me importa, dessa vez passamos do limite. tiro a roupa, me depilo pra você, mas as marcas da nossa briga ainda perturbam minhas coxas e o lado direito do maxilar.

    lembro de como deixei seu cabelo, e revirando bem vejo que meu batom acabou. eu sei que é vc do outro lado da linha, mas hoje eu nao vou passar a maquiagem. eu vou fantasiar cenas, eu olho minha virilha, passo perfume nela, escencia de madeira, lembro de alguns meses atras e de toda uma boa historia. mas as marcas ainda doem, mesmo no prazer.

    meus demonios ja estao se tornando politicamente corretos, e ja nao me infernizam ao pe do ouvido pra eu pular da janela direto no seu cadilac. mas ainda assim, eu penso em segredo: como eu queria...!

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