quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

OroborO

"Meu fim é meu começo"

Constatou, ainda que tardio

E, de encontro ao vazio,

Fez jús ao ser avesso.

*

Ascensão por equivalência.

Depôs a ingenuidade

Depois, ao si covarde,

E entregou-se à impermanência.

*

Fez-se ciclo que não cessa

No Ir-e-vir imensurável

No instante, o instável!

Tomou o Caos como promessa.

*

Os opostos em comunhão,

O acaso afogado na areia.

O Todo é teia.

Ampulheta: delicada transição.

*

Os nós frouxos e a corda partida

Apossara-se do leme com firmeza

Agora era-se a correnteza

E apenas o contemplar da âncora ida.

*

Em posse da guia de oito apoios

Soube-se breve, mas pertinente

E, como ele, tantos outros dirigentes

Mas, além do trigo; em terra, o joio.

*

Convicções contrariadas no desvelar:

Quanta ingenuidade!

Pois toda aquela emancipação, por ansiedade!

Afinal, o Uno é par.

*

A serpente exalta: tudo tem preço!

Mesmo a cura, provém do veneno.

E, depois do susto, constata sereno:

"Meu fim é meu começo"

Prelúdio: de mãos livres.

Antes de encerrar-me, disponho-me em linhas livres.
Ainda consciente do ciclo sem brechas, o retomar constante: nunca houve início ou fim; coloco aqui uma pausa forçada.
Retrocessos, esclarecimentos posteriores, monólogos internos ( e agora expostos), em uma pretensão de serem marcados por um relógio estático. Não! Tudo continua em seu eixo: do caminho às cinzas, à reconstituição inesgotável em cada simples processo; fluxo individual que compõe o todo.
Mas esta é a vontade manifesta. É o que se diferencia de quem se deixa aguar ou quem vá se frustrar. Aqui & Agora é em que me torno: pleno.
---
O tempo, enfim, justificou-se em estrañeza quando pude concebê-lo como a-linear.
Confesso o quanto de energia toma-me o ato de "ver" o TODO assim, mas a questão é enxergar a ONIPRESENÇA do tempo. Ainda que seja uma tarefa delicada:
à toda sincronia, uma causa & à todo acaso, uma morte!

com o tempo explanado, o estraño, então, talvez morre.

Ou, talvez, o estraño já tenha se caracterizado como um novo adjetivo.
A omissão de um "agá" ou a presença do "til", a modificação ortográfica e a inserção em diversos contextos, mesmo longe de meu consciente, mesmo longe de meu consentimento (!), leva-me à uma expressão que vem ilustrar a estranheza com um certo fascínio: um culto ao místico, àquilo que é raro porém deslumbrante! a cautela com o novo, ainda que haja o ímpeto do desvelar! o ser estraño, aquele que destoa do contexto, mas que prova-se estar perfeitamente adaptado pela curiosidade que desperta.
Pois não seria o tempo "estraño", portanto?!

Nesta intercessão - momentânea, e suave para você, eu espero - deixo explicitadas as novas direções.
Não temos Norte! apenas o sul que deixamos para trás...
mas este Sul é marcado por vestígios deste fluxo incessante.
não há reviravoltas, nada de correções de rotas instantâneas: se voltas a ver o mapa, todas as milhas percorridas, estão lá os detalhes! Todo e cada repuxo; as frestas tornando-se lacunas e um Tempo impositor, como este sol que atravessa as nuvens que se fazem obstáculos, fazendo-se majestoso, tornando-se, aos poucos, irrefutável.

Sigo sem bússola, pois tenho-me em meu novo ditado:
manuseio & intuição

domingo, 25 de dezembro de 2011

Ouro de Tolo

A mesa de cacife alto exige movimentos cautelosos: pertinência no agir.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Ensopado

As gotas correm por um rosto deformado que sustenta, no entanto, os mesmos belos traços de sempre. Desleal: que lhe falta um sorriso nesta face ensopada pela chuva persistente e sobra-lhe alguns pensamentos pendentes, vestígios de sua intensidade voluntária.
Ela ficara marcada em seu semblante. E com o vidro do ônibus de volta embaçado, a ausência da coragem em imprimir-lhe algum desenho, alguma frase. Deixara de ser impetuoso: pensava em quão definitivas seriam aquelas palavras contidas, o receio de encarar-se em versos curtos que lhe refletissem a indecisão. Mais: sua impotência perante o destino.
E a despedida que se fez ligeira. Que se fez insuficiente, que resultou nestas palavras. Mas, querida, ao contrário de tantos outros aos quais eu deixei subentendido o mundo em versos, idênticos a estes!, à você a necessidade de ser explícito. Tanto, que me marcas diretamente no rosto, em olhos pequenos e distantes, pensativos numa solidão conveniente.
Tens, então, longe daqui, destas linhas ensaiadas e refeitas, o nó desfeito. A garganta livre de amarras sussurrando, no nosso tom de voz, o que eu havia deixado passar.
E que passe a chuva, passe o tempo, estraño, como sempre. As marcas vão passar logo. E você?

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Fardo

de devaneio dominical & das frustrações de fazer “apoteose" inteligível oralmente.
lido, ironicamente, no Sarau dos Vira-Latas.
. . .
Fardo

Há textos que não cabem na leitura para terceiros.
Ainda que declamem-no com ardor e intenção; ainda que a voz tenha a entoação adequada para perfurar qualquer obstáculo sonoro e fazer-se triunfante em um ambiente; ainda que o intérprete consiga reunir a atenção de seus expectadores e colecioná-la com uma satisfação fria, como fazem os poetas: manipulando as palavras que os agradam e encaixando-as com destreza em uma composição majestosa.  Há frases indecifráveis aos ouvidos, há palavras cuja voz é incapaz em proferi-las.
Um texto carrega rasuras, texturas, borrões! De café ou de um vinho barato, que preenchem-no as lacunas e completam-no no contemplar. Um texto e seu contexto: ilegível à língua. E que esta tateie, no escuro, à vontade! Mas as entrelinhas escondem o essencial e há segredos que não se revelam à luz de holofotes. Que só um abajur ao pé da cama ou uma luminária improvisada serão capazes em restituir-lhe o real sentido.
O público pode deliciar-se com a atuação e todo o teatro deste que declama. Mas, em meio a um mar de gente, há aqueles ansiosos, em uma indignação justa, por sentirem-se assaltados! Estes compreendem que o que lhes é exposto em uma prosa maquiada é apenas parte de um todo; que as peças não dão conta de traduzir a obra, que se faz tão mais profunda do que uma leitura excepcional; que, fracionado, o texto só carrega o deslumbre deste que vos lê, só carrega a responsabilidade de gritar ao mundo aquilo que o tocou tão íntimo.
Para o leitor é um alívio. Quase como uma confissão em troca de obter-se são, este compartilha suas sensações pensando fazer-se menos egoísta. Se a intenção é o que vinga, perdoem portanto este elo entre vós e a liberdade, inconsciente de estar usurpando da plateia a oportunidade do primeiro contato direto, da apreciação sem expectativas ou interpretações precedentes. O roubo do íntimo!
Se é pretensão ou apenas ingenuidade de querer ser lido pela alma, ao menos o texto permite mostrar-se o bastante, em um estímulo sutil mas eficiente, ao despertar a curiosidade destes ouvintes pacientes. E se os grilhões que vos são expostos aqui passam a incomodar-vos realmente, a busca, posterior, será insistente, pois trata-se de liberdade.
E se, para nada mais, além de seu próprio contentamento, serve este intermédio que aqui se dispõe, tem, em último caso, a função de vos instigar.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Da Liberdade

A liberdade "real" só existe a título de ilustração.
Quando se compreende o que ela é, em essência, compreende-se que não se pode obtê-la.
E, assim, responsabilidade para lidar com tal condição humana...


a utopia jaz na mente de incapazes.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Instinto

Aquele que não anseia novos ares
descobre-se inconsciente de seus próprios pilares.

domingo, 6 de novembro de 2011

Da curiosidade

Identificada aqui como instinto humano, numa pitada de sarcasmo que a tempera:

pois se não pra ouvir confissões alheias, qual outro mérito em ser padre?

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Cartas Marcadas

Pra começar, eu nem sei como.
Errante, azarado!
Que nesta mesa eu perdi até o sono
Pensando-me: o verme ou o arado?

E na estrada, dividido
A cicatriz na terra.
O curinga embaralhado: fui traído...
E nestes montes, dedos se confundem com serra.

Grãos não dão trégua
E toda frase é uma aposta
Palavras imprecisas como léguas
Silêncio interminável como resposta.

Conclusões se desequilibram em abismos
E o garoto debruça-se sobre sua alma
O jovem perdura em seus cismos
E o velho insiste em lhe pedir calma.

Em devaneios, um arrepio:
Pois todo fim é só um meio.
Mas há quem espere palmas ou assobios
Viva para o delírio alheio

Os ápices foram cancelados
A cena, apoteótica, estendida!
O acaso descartado
E a ansiedade pela despedida...

Não haverão créditos & não teremos vencedores.
O destino é uma farsa, assim como o é quem dele faz graça.
O jogo é contagiante apenas para quem é novo no barco:
A sorte é superestimada.

domingo, 23 de outubro de 2011

Amor Louco

E quando tiveres um Amor Louco, conte-nos uma crônica.

domingo, 16 de outubro de 2011

Leves Deslizes

ao som de Constantina

Vem-lhe, então, o mundo inteiro, em seu peso & pesar, debruçar-se em suas costas & encharcar-lhe em lágrimas escorregadias que lhe inundam a dúvida & recheia-lhe de incertezas.

Vem-lhe só. E, precavido, nem espera ser acolhido.

Desacreditado, não espera nem ser notado.

Mas pesa. E pesa mais do que um mundo só. Pesa mais do que uma vida de solidão; o suficiente para fazer os ombros cederem.

O peso do desequilíbrio.

domingo, 9 de outubro de 2011

Demasiado

Sabia bem que o amor os separaria em breve.
Convivia com esta convicção desde que o conhecera, desde que o despira por inteiro com olhos detalhistas, num fascínio embriagado de quem se depara com uma história de mil-e-uma páginas e uma capa atraente.
A estante é alta e está repleta de livros interessantes. É um universo de páginas e cores e letras aonde a curiosidade pulsa involuntária e o tempo se abstém na contagem – não o perceberia voar ainda que o relógio da parede badalasse em um estrondo não habitual.
E, com estes olhos, era fácil deixar-se perder ali. Prendia o ar para imergir nestas águas quando deu-se conta de que nem sabia por onde começar! E as opções eram tantas, o cardápio era tão variado que perdera-se antes de entrar no labirinto. Extasiada, permaneceu apenas a encarar a pequena biblioteca lendo título por título e tentando decodificar algum padrão para a ordem de disposição dos livros.
Não achou padrão algum. Ou talvez tenha apenas se distraído em meio às capas e desistiu de sua busca; achou-a sem fundamentos, algo do gênero. Foi de repente que não pôde prosseguir a desvendar aquele paraíso literário pois deparava-se com aquele que seria o centro de suas atenções pelas próximas horas, dias, meses...
O cuidado com que estendera a mão e posteriormente viraria as páginas revelava todo seu encanto para com o livro. Ela esperava pelas frases seguintes com uma ansiedade tão intensa quanto era a surpresa de ler e admirar-se com cada palavra que seus olhos varriam. Demorava-se, em um misto de tortura e hedonismo, mas ambas as sensações lhe deliciavam imensuravelmente. Aquele livro parecia a completar e, no entanto, sabia-se não poder depender dele para isso.
A frase definitiva, a maldita profecia, viera logo após a introdução. Já haviam se apresentado, e aquele estranho que fora sutil em seus parágrafos e que vinha a agradando linha após linha, só foi tomá-la por inteira pela ironia: como um alguém que só se dá conta do valor do objeto perdido.
Inquieta, ela o folheava com ávidez em busca da síntese. Uma palavra-chave qualquer que conseguisse resumí-lo, algo que tranquilizasse aquela mente febril, incessante em pensar nele. E fora encontrar ali, no início, o anúncio, em letras miúdas no centro de uma folha branca, de sua natureza – a qual ela chamou perversa & cruel.
Revelou-se tão despretencioso que o silêncio que provocou no cômodo foi ensurdecedor. O momento mudo de reflexão, imposto por palavras pequenas mas que detinham alguma veracidade perturbadora, concluiu-se em um comentário curto, sussurrado para o ar, quase que de forma inconsciente:

“humano, demasiado humano.”


E, de fato, a crueldade dos términos inesperados.
Pois quem foi que disse que ser “humano” era alguma garantia?

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Tratado sobre a Percepção

"nada é verdadeiro, tudo é permitido"
Hassan-i Sabbah


convocado à existência detalhada
em que o simples não se esconde, senão dos olhos do grosso...
e pela transmutação da percepção, depois de vista não há volta.

é como o amor à primeira vista, que só vai se configurar "instantâneo" nos olhares posteriores.
é como a palavra precisa, que só a é por estar contextualizada.
é o tempo, que intervém com naturalidade, indisposto a fazer considerações...

e nos basta o agora!
pois façamo-nos permissíveis em imaginação,
já que nada é verdadeiro.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Inflexível


Faço o que eu quero sem me preocupar se é


ilegal,
imoral
ou
irreal.




segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Cifrado

num dia eu sou sereno, no outro eu sou veneno
assim me altero & me alterno.

num dia, paciência: espero...
no outro, indolência: Inferno!
sincero,
ainda que enfermo.

de semblante incerto, sou dúvida em questão
curiosidade me implora desnudo, mas é questão de humor...

conheço mil-e-um sorrisos para fazer meu silêncio inteligível.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Fome

As palavras viriam?
Mas sinto que meu silêncio é perturbador; estou certo?
E, se quem calas consente, sôo incerto o suficiente para teres me decidido por mim?!

E as palavras vieram, realmente!
E que lhes dizem?!
Se já sou um enigma despretensioso, imaginas-me o intuito!

A compreensão só se faz ilegível por ser simplista.

E a liberdade fora mesmo podada!
Quisera eu vê-la crescer uniforme, mas não: desgarrada. Não rebelde como o CAOS, mas apenas intolerante. Crescera alheia e florescera apenas frutos de vidro!
Reluzentes, porém duros.

Ó! DISCÓRDIA!

mas a fome já me fora saciada...

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Roupa de Cama

O quarto escuro pertence apenas a nós. O mundo se perdeu por detrás daquela porta e os únicos vestígios da realidade são as gotas da tempestade que molham nossos corpos ao adentrarem pela janela.
As cortinas dançam sobre nós. Formam um véu que nos coloca sob a chuva, diante de uma imensidão de nuvens cinzas... e por que não? Estamos no céu!
A cama estreita nos ajunta. Encostada à parede sou feito refém!
E tu dormes tão serena que me envergonhas; Tens os olhos tão tranquilos que me preocupas; O modo como te sentes à vontade me causa um leve desespero.
Adormecestes agarrada ao meu corpo, como se eu pudesse desprender-me... como se já me conhecesses há tempos! E, realmente, eu não sou insomne, mas não duro muito embaixo de outros lençóis.
Também não sou de perambular pela casa: aprecio o silêncio durante a manhã, de forma que até meus passos me causariam incômodo, portanto o ruído usual é o da porta da frente recostando-se levemente e encerrando as noites de forma definitiva. Sabe? Eu também prezo por isso:
encerrar as portas, pontuar.

No entanto hoje eu preservo o silêncio quieto ao teu lado, pois não me sinto no direito de acordar-te. Sinto-me responsável pela tua posição aconchegante, por teus sonhos, pelo lençol encharcado que, mais do que a chuva fina que partilhamos, carrega também gotas do meu suor, meu cheiro, carrega ainda algumas das palavras que escaparam de meus sussurros, confissões, poesias...

Mas, se sou prólixo, sei me conter.
Pois o silêncio é sagrado até o teu despertar.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Combinação de Infinitos


- Quero que me olhe nos olhos.
Ela fazia questão daquilo. Tinha seus motivos, toda sua desconfiança e seus truques para reconhecer palavras insinceras. Mas, mais do que tudo isso, tinha um par de olhos cinzas que me encurralavam. E absorto, eu quase não tinha palavras:
– Eu não consigo.
– Tenta... – Era uma proposta, e ela me encarava irredutível.
É posto à parede que as particularidades se exaltam. Afinal, dois só se reconhecem em momentos ímpares.
– Eu... não sei lidar com sentimentos abruptos, essa profundidade repentina...
– Teus pés não alcançam o solo?
– Perdão?
– Há quanto tempo vives nessa maré baixa? Sabes... há rios ansiosos para desaguarem em um oceano, mas eles vão se perder no encontro. Entendes que apenas os peixes enfrentam o curso, e mesmo eles, para dar continuidade? Este teu raso é um monte de areia ajuntado, grão após grão. E quanto trabalho para tamanha fragilidade... Por que não abres mão do deslize que é inevitável, convenhamos, e saltas de uma vez?
– Este teu mar me é velho conhecido. Passamos poucas e boas antes de uma daquelas partidas memoráveis, portanto, vejas, o que sinto não é temor. Antes de ser óleo, fui água, salgada ainda por cima, e destas que habitam o fundo do mar, para não dizerem que meu problema é com a profundidade. Há, no entanto, uma temperatura que desejo evitar. É este calor das multidões que não me faz ascender, mas ancora-me ao fundo de águas turvas, numa imersão solitária. A imensidão azul me parece cinza, o oceano me parece poça d’água, a água me parece veneno. E ando ansioso à voltar à superfície; angustiado deste nada que presido; arrependido do mergulho que dera outrora, alimentado expectativas. Arrependido ainda de ter apostado poder chegar mais fundo, acreditando que na areia era aonde se encontrava meu tesouro perdido.
- Pois então? Enriquecestes? E é por isso que nos abandonastes aqui, ó, distinto?
- Nunca se ganha uma aposta quando não se sabe com quem se apostou. E dentre os sete mares, eu nem sei em qual fui mergulhar. Mas assim que adentrei à água soube quão vã era minha busca. E quanto mais me perdia, mais eu me dava conta de que apenas me opunha ao relógio, asfixiava-me, mas com os grãos de areia que tombavam de uma ampulheta incessante.
– Pois tudo serve ao tempo.
– E o tempo é estraño.
–... e talvez cruel...
– Ou indiferente apenas. Talvez ele flua de seu modo, de forma inconsequente, sem se colocar propositalmente contra o universo, apenas sendo.
– Corre despretensioso.
– Ou anda apenas. Somos nós os apressados... O tempo é deveras imparcial.
– De uma certa forma somos muito exigentes.
– Em uma necessidade abusiva do controle, eu concordo... e confesso que peco nesse âmbito.
– Pois eu seria menos ansiosa se eu soubesse... sei lá, que te veria novamente...
– E que não fossem sonhos. Para que não haja noites em que eu me frustre ao acordar.
– E por que sei que esse diálogo terá reprises em minhas recordações. Que passarei dias encanada com frases, tentando decifrá-las...
– É engraçado como as circunstâncias se opõem à vontade de dois e acabam por dividir fios entrelaçados...
– Apenas marionetes. Rogando oportunidades a um títere teatral...
– Trágicos como nos cabem as personagens. Ou cômicos, numa auto ironia que alivia a vida.
– Mas, de fato, personagens. Para que não nos envolvamos tanto com o roteiro.
– Que queres dizer com isso?
– Que de nada adiantaria ver-te posteriormente se eu não puder te prender em mim. Quem me dera ter um resquício da tua atenção, teu olhar no meu, num lance que valha a pena preservar. Ainda que me doam as lembranças, que eu possa depreciar-me em minhas memórias, e fazer delas vívidas, mais do que estas máscaras que encenamos rudemente.
– E espontâneo, insultas-me dizendo-me frígido. Mas talvez, realmente, eu não saiba conceder intimidade às pessoas...
– Mas eu não quero concessões! Eu não quero permissões, pedidos, contratos. Eu não quero licença e não vou pedi-la enquanto invado teu mundo.
– Tudo bem. E eu não vou pedir que seja cuidadosa com teus rastros. Me deixarás marcado assim como o tempo o faz. O fez. E, ingênua, posso chamá-la também despretensiosa. Mas és tão intensa que não flui como as horas: consome-se, como em combustão. E ardes como o fogo, seja em desejo, seja em poesia.
– Dizeis-me ser o fogo quando tu quem promovestes um incêndio; deixas-me à vontade para vasculhar-te e, no entanto, evitas-me os olhares. Acusas-me marcante, colocas-me como intensa, mas quando devolves-me um sorriso tens-me desmantelada. E eu me encolho para recolher meus cacos fascinada com o contraste da simplicidade com teu universo tão complicado. E fico admirada ainda por ser, eu, fogo, sendo tu o impetuoso: quais são as regras do teu jogo, se isso for ausência de intimidade?
– E tudo tem de ser um jogo?
– E tu tens de sempre te esquivares?!
– É como avanço minhas peças...
– Pois estás em cheque.
– E o que isto significa?
– A reconciliação dos opostos, o compartilhar de universos, a combinação de infinitos. Mas acho que isso é um empate... e empatar é algo demasiado íntimo.
– Bem, eu não sei lidar com perdas, mas nunca disse que queria ganhar. E eu estaria sendo insincero se dissesse que não me sinto completamente à vontade ao teu lado.


terça-feira, 9 de agosto de 2011

Enumerado

Antes, dois eram um e essa matemática fazia sentido.
Agora o sentido extinguira-se e, menos do que um, eram dois; cada qual com a sua jóia, carregando o mundo nos dedos.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Antes que o mundo acabe

O Gênesis como um matrimônio.
A cria deslumbra-se sincera consigo
Depara-se com o todo e tudo é apenas um e, em imagem e semelhança, sente-se completa, enfim.
A dúvida permanece, eterna
No entanto, a convicção momentânea do paraíso; e é isso que nos compõe mortais!
O tempo, intocado, recebe radiante o juramento de eternidade enquanto os dedos são suaves ao receberem a troca e assim o homem se divorcia da natureza
Mas, antes que o mundo acabe, o homem hesitará.
E quando o fizer haverá aqueles dois segundos de fricção do esforço de separar-se da aliança.
Dois segundos eternos,
de pura reflexão.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

domingo, 24 de julho de 2011

Bússola

Certo seria se agora eu estivesse me sentindo perdido.






Seu tanto faz me deixa doente.

domingo, 17 de julho de 2011

P&B

Abraçou-me enquanto meus braços pendiam, caídos, colados rente ao corpo. Eu permanecia inerte, imóvel em minha introspecção, porém presente, atento e ansioso às palavras que eventualmente viriam sopradas em forma de um sussurro.
Desde o contato com os seus braços as cores se foram e, novamente, meu coração batia acelerado, naquele ritmo esquisito de quando você está perto. Uma ansiedade engasgada, um cortejo desalinhado com passos estrondosos que me desconcertam.
O rosto escondido em meu ombro, de braços abertos a me enlaçar, e no entanto, talvez, mais fechada do que nunca. Encoberta em seus motivos, não há espaço para hipóteses, mas todas as palavras são imprecisas e ressoam tempo demais em minha cabeça: ou em um ensaio ou em uma memória.

Sou público, mas não me publico.
E, de pensamentos tão privados, minha boca permanecerá cerrada.

Sem graçejos, desta vez.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Ansioso

já não faz muito sentido diferenciar letras maiúsculas das outras.
já não tem porquê contar os dias, os beijos, as horas...
soa como se o tempo tivesse passado tão rápido
e eu ainda nem cansei de consultar meu relógio.

sábado, 25 de junho de 2011

Copo d’água

Acordar, agora, é a recomposição do fôlego.
É como se, há muito, eu estivesse preso em um mergulho forçado e duradouro! E nunca houveram pesadêlos que traduzissem a aflição de ter a respiração privada desta forma.
Envolto em um oceano traiçoeiro que expõe-me, convidativamente, águas domesticadas & que me apunhala (o ego!) com o reflexo da simplicidade e do ser comum: incapaz em seus caprichos!
Porém a gravidade endossa-se:
O castigo transcende a lição de moral e quando tenho-me são, guardado de volta à minha estante, de volta ao meu ciclo que eu, ingênuo, achava-o hermético,
então o reflexo não é só do ego despedaçado; mas também o de um corpo rasgado e marcado pela experiência, real,
até demasiadamente.

E quando vejo-me desesperado, nessa ânsia pelo oxigênio, satisfeito por respirar; Quando vejo- me contente de possuir ar em meus pulmões
é quando descubro-me ridículo!
E a descrição dos fatos me vêem em uma única palavra que se impõem imperativamente como insubstituta:
INFANTIL!

E não de forma a reprimir-me ou desmerecer-me; não no sentido de denotar minha imagem... Mas para caracterizar-me! Colocar-me como criança, diminuído diante da majestosidade que é o universo e da complexidade que são as teias do chaos.
Desaparece aquele velho orgulho tradicional, já empoeirado em sua altivez egóica e o que lhe substitui é seu oposto indubitável:
Resta-me então a sensatez,
de, ainda como criança,não chorar e não voltar a face ao além, desmerecendo a lição.
Resta-me a esperança de estar correto quando exalto em um sussurro
que são águas passadas.

sábado, 11 de junho de 2011

Inédito

Sou doado demais à minha vontade para ser previsível.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Melodioso

Como um jazz que se alonga noite adentro
E as palavras que se encaixariam perfeitamente nas entrelinhas,
mas são desnecessárias.


Como um sussurro ao pé do seu ouvido,
O calor da voz que provoca o estremecer,
porém mudo.


As frases de impacto decoradas & ensaiadas morrem todas antes da pronúnica e são só reticências...

E cada ponto do que eu tenho a dizer é um mero movimento de lábios.
Cada letra calada é um suspiro.
Cada respiração involuntária é intensa.

E, ofegante, tem os olhos fechados e um sorriso suave, extasiado.
Eu aplaudo o maestro, confrontando-o em frente ao espelho.

Tudo soa como música aos meus ouvidos.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Apelido

Arranca-me um sorriso, pois meu nome é angústia.


E tens-me raro: que não costumo ser sincero com meus desumores.
Mas, afinal, o elogio é um desafio.


e eu mesmo sou um mar de rosas

– infestado de espinhos.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Distraído

Sempre fui meio desligado. De andar contra a correnteza das multidões e sair embaraçando-me em destinos alheios, lendo poesia em palavras caladas e distraindo-me em detalhes despercebidos. De afogar-me  na maré do cotidiano por estar entretido com o passado. E me ater aos acasos e encontros que a vida promove; deliciar meus olhos em caligrafias deixadas ao vento, meus ouvidos em conversas vizinhas, meu olfato em essências tímidas – e que para mim gritam. Ser tão impulsivo em sentimentos! E, no entanto, ser contido; tido apenas em olhares demorados, em silêncios inspiradores, em expressões faciais que revelam o que o nó dado à garganta encerra. 
E ser raro, restrito. De pensamentos privados e sorrisos enigmáticos. Mil-e-um deles, ambos. E quantos destes não me pertencem? Despertos num devaneio ou numa afeição instantânea...
Pois apaixono-me diariamente! Coleciono o que tanto me intriga, sublinho meus interesses nos passantes, perco meu fôlego e deixo-me arrastar, almejando ser levado em conjunto. E quase deixo-me ser descoberto. Mas não! Sempre fui volátil demais... 
Aprecio a tudo, mas afinidades não me são suficientes: minha atenção é por demais inconstante.

domingo, 22 de maio de 2011

Nu


Quando saí de casa ao seu encontro vestia uma camisa de botões, inseguro sobre o tempo. E o vento que me alisou ao dobrar a esquina fez-me até considerar a busca de um agasalho...
Mas, de fato, não há como amenizar o frio que se sente na barriga.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

A etimologia mente

Favor não confundir caos com caô, amo com amor, gesto com gestor.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Tortuoso

Os olhares tateiam-me e a loucura tatua-me.

O tempo, torcido feito toalha, se esvaiu sem deixar trocados;
dobrou a esquina amarrotado,
e foi ter com o solo, tonto.

A queda foi o acertar-se dos ponteiros: desorientados, já não sabiam para onde correr neste extenso labirinto.

E eu provo a tinta e conquisto atenção: que venho confundindo as datas e as luas e me perdendo nas demarcações dos calendários.

sábado, 30 de abril de 2011

Além do que se vê


Garotos, tímidos em seus diálogos desconexos, disfarçam-se em excentricidades. E se fazem falsos para com os demais. Mas não! Incompreendidos, apenas.
Garotos carregam consigo suas advertências, expõem-se em ares seguros. Mas suas introspecções constantes, seus pensamentos longínquos, fluídos ao silêncio de quem se perdeu por aí...
Um estoque de passos tortos e algumas moedas no fundo de um bolso surpreendido. Palavras atadas à garganta e a boca seca, desgostosa.
Pois garotos transbordam tranquilidade. Mas o excesso prova-se descontrole.
E têm um par de olhos inquietos aonde se lê o desespero. Feitos fortaleza, resistem em um orgulho desonesto.
Vêm as horas, discretas, amontoando-se furtivamente para, de forma impiedosa, anunciar um amanhecer impreterível.
O sol urge e já é hora de pisar em casa. Lágrimas contidas não deixam rastro.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Sobre o Alívio & Sobre o Fascínio

-Sou apaixonada pelo seu silêncio.
O sussurro, infestado de meias palavras sorrateiras, trouxe-me de volta ao real com um susto. E o coração, interrompido, não se decidia pelo motivo.
Próxima ao meu ouvido eu pude presenciar sua respiração tímida e, em dois movimentos, meus ombros estavam cobertos por seus volumosos cabelos.
Pôs-se em minha frente, a encarar-me, procurando uma resposta qualquer em meu corpo. Seus olhos, intensos, imploravam para fluírem com seu ímpeto habitual. Que queria explodir em palavras e em reticências. E no entanto seguia fria, de expressão calculada, a me testar? mas calada como estive há pouco; como permaneci.
Demorou-se um pouco mais diante de mim. E doce, não me cobrava respostas; apenas as esperava, consentindo minha ausência sonora. E ela amava estar ali consigo mesma e comigo ao mesmo tempo.
E leu em mim a reciprocidade.
Por fim um sorriso contido iluminou sua face contando-me sobre o alívio e sobre o fascínio. Então se retirou.
...deixando comigo seu cheiro, impregnado em minhas roupas e suas palavras, gravadas em minha memória.

E, de distraído, passei a [um silêncio] concentrado.
Havia tanto no que pensar.

domingo, 10 de abril de 2011

Fail

'cause you took a "f" from your LIFE.
and then, it's just a LIE.
a big one.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Palavra

que seja cobrada a honra dos que dão sua palavra & a língua dos que não a dão.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Indefinível

As nuvens casam-se sobre mim.
Interpõem-se sem qualquer pudor e dão novas formas ao céu.
Minha imaginação, dotada de asas, alcança o paraíso.
E nessa altura meus olhos já foram tomados e encerram-se diante dos raios do sol que cobre minha face.
O céu se desconstrói e eu me faço daltônico: as cores perdem suas individualidades e tornam-se ilimitadas. Tenho, então, o Todo ao meu dispor.
As sombras, extintas, assim como as dúvidas, revelam-me o céu aberto, imponente em sua simplicidade.
E o despertar faz-se segundos antes do abrir das pálpebras.
E a meia constatação define o caos, indefinível:
tempo estrano

Pois nada é verdadeiro; e tudo é permitido.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Delírio

“Quer pouco, terás tudo. Quer nada, serás livre”
Fernando Pessoa


O mundo se delicia em suas entrelinhas.
Enquanto as passagens, transições, fazem-se ligeiras e indelicadas, o eterno permanece intocado.
O apogeu é atemporal. Incompreendido em essência, e relevado em detalhes.
Nem o relevar, nem o revelar.
As frestas aos curiosos, o despertar aos desapercebidos. E os despercebidos contentam-se com o palpável.
A pretensão matou a expectativa.
A palavra, desprendida do papel, difere-se da ovelha desgarrada do pastor, em liberdade. O infinito abomina descrições.
O homem, despido de desejos, depara-se com a vontade, como em um reflexo de si mesmo.
Aquele que atravessa o espelho torna-se, sobretudo, divino.
Aos demais, insuficientes em suas reflexões, sobra o fardo narcisista.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Desencontros

Quis tanto te contar o quanto tua, nossa, cena me marcou que até me esqueci o que ia dizer.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Soneto

Dizeis-me que sou um poema. Que agrado à todos, cada um com suas contentes lembranças que tiram de mim e que, afinal, em essência, não sou nenhuma destas lembranças.
Dizeis-me que sou esta poesia porque trago alegria, mas, por trás de máscaras de palavras, este sim, sou eu, triste.
Dizeis-me que me queres curto, para que possa levar-me contigo no bolso, sem que o vento ameace tirar-me de ti. Mas, querida, esqueces que a poesia é livre; e esqueces que a tristezza é complexa demais para ser curta. E que mesmo o curto não está a salvo do furto.
E dizeis-me que me queres rimado. Que ressôo como eco em teus ouvidos por horas a fio. E lhe desperto calafrios ao som das lembranças dos sussurros. E, posso sim, ser melodioso. Mas não me peças para ser métrico, que sou inconstante demais para isso.
Exigistes de mim o término em reticências, mesmo sabendo-me ser tão definitivo... E sabeis que a minha vaidade não permite um refrão extra após o ponto final.
Que, se afinal sou um poema, sou um soneto de versos contados.
Declamado com ardor
e expirado em um suspiro.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Suor

,

As cartas mais belas são aquelas cheias de rasura.
Encenam a dificuldade de serem escritas, o ardor com o qual o autor escolhe as palavras e o tremor que lhe afeta.
Que uma carta pressupõe um amante.
As palavras exigem algo além da indiferença e o capricho se esvai ao toque da sinceridade: Não pude maquiar minhas sentenças tortuosas e ilegíveis.
Reescrevê-las seria reescrever-me.
com amor.

Ps: a ausência do perfume usual.
Ps²: e, ainda assim, sei que tudo isso lhe cheira tão doce...

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Divergência

“As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e que nem todos se libertaram ainda”
Carlos Drummond de Andrade 

-
O vento bateu tão forte que carregou consigo a iluminação. O suporte da vela jazia no chão ao lado da rolha ainda úmida pelo doce veneno rubro.
Nesta cena fora de foco as longas cadeiras ostentavam dois lugares vagos. As estrelas da noite haviam fugido e o abandono se fazia ainda mais gritante quando a lua, solitária, era feita de holofote. E o feixe de luz, perdido na escuridão, vagava pelos labirintos que eram estes motivos insensatos.
As taças largadas pela metade, num desperdício penoso. Os talheres, intactos, faziam-se sem sentido. As palavras, tão ensaiadas, nunca chegaram aos ouvidos, e uma hora a música cessaria.
Todo aquele cuidado com as escolhas provava-se inútil: as faixas chegam ao fim.
E, no silêncio, o vento uiva ardorosamente pelas frestas da janela, triunfante sobre a chama extinta.
Agora tudo é frio..

Soul

Apenas sou.



...and then I f l o w.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Legenda

Desfeito, encontro-me comigo mesmo.

Ignoro o relógio; sou pontual.

Tenho-me em minhas mãos, completamente entregue. E agora, em meu íntimo, juro que esta será a última vez que me traduzirei.

Que as frases e linhas, se serão lidas com ardor, malícia ou ingenuidade já não mais me importam!

E também já não cabe a mim fazer com que elas cheguem a quem lhes possuem...

Que o possuir é vago demais. A dedicatória é fingida, a introdução persuasiva e as notas sobre o autor nunca se diferem umas das outras.

As apostas sobre o fim já foram feitas; o jogo de azar é envolvente.

Mil e uma expectativas e todos eles estão cheios de razão.

E a razão matou o amor.

E o amor, morto, matou o autor.

E este se desfez.

Mas desta vez, de outra forma...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Dandelion

Talvez eu tenha me desfeito no momento em que te conheci.
Talvez você realmente tenha me tocado. Com uma mão delicada que tencionava ser suave mas força o limite e rompe cada um dos frutos de um dente-de-leão.
E talvez, Flor, este seja eu. Esvoaçado, sou apenas vestígios pelo concreto.
Sou pensamentos despidos, emoções ao léu...
Sou passos vacilantes de um nômade perdido.
Sou, enfim, romântico.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Meio a Meio

Que talvez fosse cedo demais. Mas talvez o tempo fosse medido pela vontade.

E talvez o tempo era mesmo curto por que a vontade era demasiada.

Que o tempo se tateava no medo do não ser recíproco e a vontade se envergonhava de ser tamanha.

E ambos se encaravam almejando serem um pouco mais equivalentes.

Mas o tempo, que queria ser tão maior, era tão lento quando estavam distantes que até nomeava a vontade de “saudade”.

E a vontade, que era tão imensa, se escondia com medo de ser notada e taxada de precoce.

E viviam tão inquietos que quase se esqueceram que só faziam sentido juntos.

E quando o tempo se declarou para a vontade, da pontinha de seus pés para estar mais próximo aos olhos dela, ambos aquietaram-se em um olhar demorado.

E talvez o tempo fosse mesmo medido pela vontade.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

sábado, 8 de janeiro de 2011

Insônia




“Você não vai conseguir dormir” repetia dentro de sua cabeça a voz em tom resoluto. A escuridão confortável àqueles olhos sensíveis extingue-se com a porta abrindo-se. O dia nasce e quer entrar e os pássaros comemoram longe.
O quarto velado por roncos leves de quem está em repouso profundo e o barulho da goteira que distrai quem não tem este conforto. A paz alheia sempre trouxe muita inveja ao mundo e há aqueles que não conseguem se aquietarem instantaneamente, com uma cabeça incessante quando todos já desmaiaram e foi anunciado o término da festa. Pensamentos que sufocam sonhos, o sono perdido na noite finada.
A tranquilidade do ambiente se desfaz num tormento próprio, invisível aos demais: Morpheu renegou-o e o dia é um fardo. A porta aberta revela a poça de água se expandindo por um chão tomado de cobertores e colchões, entrelaçados em uma orgia de roncos e suspiros da qual ele havia sido excluído. Que se afogassem todos num sonho líquido comunitário!
Já não contava carneirinhos pulando uma cerca qualquer, mas as gotas que iam do teto ao solo, numa vaga esperança de esquecer a profecia das vozes em sua cabeça. Odiava os monólogos internos que tinha consigo, principalmente nos finais de festa em que via os vestígios de uma escassez de propósito por todo canto. Talvez estivesse ocupado demais com a sua consciência para conseguir cerrar os olhos; talvez já não houvesse reparo se não reparar... Como eram hipnóticas as dobras que os vestidos das garotas assumiam naquele breu, num convite agora expirado, tardio. O laço que se desfez e as rugas que se fizeram: amarrotado nos créditos, tela preta, fim de filme.
Deteve-se em seu leito improvisado sem atravessar linhas imaginárias ou desmascarar fantasias. Sua realidade particular o bastava: detalhada e delineada sob medidas, exclusiva! Dançou em seus trapos observando o aposento que dividia com os outros de olhos empapuçados de areia, enquanto os dele, leves e limpos, davam-lhe a oportunidade de assistir o quarto tomado pela calma.
Desconhecia o tempo. Horas e minutos são do terreno do comum e o público as aplaude em conjunto, porém aquele cómodo já não se situava no convencional ou no cotidiano, senão num teatro de ilusões cujo palco envolvia suas marionetes inanimadas e seu astro desperto em contemplações múltiplas.
As paredes ganhavam vida e suas fissuras e rachaduras eram cicatrizes que remetiam a histórias antigas. Os quadros como adornos, vívidos como as imagens na televisão, aprofundavam o ambiente, executavam os limites e projetavam-no em paisagens atemporais que o recebiam cordiais como quadros devem se portar aos olhos de quem os admira.
O estrangeiro então adentrava às pinturas num mergulho longo e demorado, em um impulso por liberdade e, imerso em devaneios, perdeu-se em seu oceano.
Do lado de cá, no quarto, a calma de sempre, perpétua:
A poça d’água crescera além das proporções.