terça-feira, 31 de maio de 2011

Distraído

Sempre fui meio desligado. De andar contra a correnteza das multidões e sair embaraçando-me em destinos alheios, lendo poesia em palavras caladas e distraindo-me em detalhes despercebidos. De afogar-me  na maré do cotidiano por estar entretido com o passado. E me ater aos acasos e encontros que a vida promove; deliciar meus olhos em caligrafias deixadas ao vento, meus ouvidos em conversas vizinhas, meu olfato em essências tímidas – e que para mim gritam. Ser tão impulsivo em sentimentos! E, no entanto, ser contido; tido apenas em olhares demorados, em silêncios inspiradores, em expressões faciais que revelam o que o nó dado à garganta encerra. 
E ser raro, restrito. De pensamentos privados e sorrisos enigmáticos. Mil-e-um deles, ambos. E quantos destes não me pertencem? Despertos num devaneio ou numa afeição instantânea...
Pois apaixono-me diariamente! Coleciono o que tanto me intriga, sublinho meus interesses nos passantes, perco meu fôlego e deixo-me arrastar, almejando ser levado em conjunto. E quase deixo-me ser descoberto. Mas não! Sempre fui volátil demais... 
Aprecio a tudo, mas afinidades não me são suficientes: minha atenção é por demais inconstante.

2 comentários:

  1. É quando se tropeça no acaso que, garimpeiro urbano de gemas raras, encontra-se razão para registrar as peripécias de que gozam os felizes (se assim posso chamá-los, claro).

    Você se esconde numa grandeza que eu já testemunhei ser absoluta e incondicionalmente para olhos como os meus.

    Parabéns, Rodrigo, de verdade.

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  2. Agora estou me perguntando se você, na verdade, sou eu. Sou assim.

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