domingo, 9 de outubro de 2011

Demasiado

Sabia bem que o amor os separaria em breve.
Convivia com esta convicção desde que o conhecera, desde que o despira por inteiro com olhos detalhistas, num fascínio embriagado de quem se depara com uma história de mil-e-uma páginas e uma capa atraente.
A estante é alta e está repleta de livros interessantes. É um universo de páginas e cores e letras aonde a curiosidade pulsa involuntária e o tempo se abstém na contagem – não o perceberia voar ainda que o relógio da parede badalasse em um estrondo não habitual.
E, com estes olhos, era fácil deixar-se perder ali. Prendia o ar para imergir nestas águas quando deu-se conta de que nem sabia por onde começar! E as opções eram tantas, o cardápio era tão variado que perdera-se antes de entrar no labirinto. Extasiada, permaneceu apenas a encarar a pequena biblioteca lendo título por título e tentando decodificar algum padrão para a ordem de disposição dos livros.
Não achou padrão algum. Ou talvez tenha apenas se distraído em meio às capas e desistiu de sua busca; achou-a sem fundamentos, algo do gênero. Foi de repente que não pôde prosseguir a desvendar aquele paraíso literário pois deparava-se com aquele que seria o centro de suas atenções pelas próximas horas, dias, meses...
O cuidado com que estendera a mão e posteriormente viraria as páginas revelava todo seu encanto para com o livro. Ela esperava pelas frases seguintes com uma ansiedade tão intensa quanto era a surpresa de ler e admirar-se com cada palavra que seus olhos varriam. Demorava-se, em um misto de tortura e hedonismo, mas ambas as sensações lhe deliciavam imensuravelmente. Aquele livro parecia a completar e, no entanto, sabia-se não poder depender dele para isso.
A frase definitiva, a maldita profecia, viera logo após a introdução. Já haviam se apresentado, e aquele estranho que fora sutil em seus parágrafos e que vinha a agradando linha após linha, só foi tomá-la por inteira pela ironia: como um alguém que só se dá conta do valor do objeto perdido.
Inquieta, ela o folheava com ávidez em busca da síntese. Uma palavra-chave qualquer que conseguisse resumí-lo, algo que tranquilizasse aquela mente febril, incessante em pensar nele. E fora encontrar ali, no início, o anúncio, em letras miúdas no centro de uma folha branca, de sua natureza – a qual ela chamou perversa & cruel.
Revelou-se tão despretencioso que o silêncio que provocou no cômodo foi ensurdecedor. O momento mudo de reflexão, imposto por palavras pequenas mas que detinham alguma veracidade perturbadora, concluiu-se em um comentário curto, sussurrado para o ar, quase que de forma inconsciente:

“humano, demasiado humano.”


E, de fato, a crueldade dos términos inesperados.
Pois quem foi que disse que ser “humano” era alguma garantia?

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